Foi Marcelo Morato quem primeiro percebeu o tino de Bruno Barros para a direção. Concluída a graduação na faculdade da Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), uma das mais respeitadas escolas de atores do Rio de Janeiro, Bruno recebeu uma carta na qual o professor sugeria que ele incorporasse a direção ao seu campo de atuação. A sugestão amparava-se no fato de o jovem ter,nas palavras do mestre,”um olhar para o todo”.
Rearrumando armários, Bruno encontrou a missiva. E, aos 33 anos, ele viu que o professor tinha razão. Bruno é, desde 2023, o diretor do “Sem censura”, hoje apresentado por Cissa Guimarães e que, esta semana, festeja os 40 anos de sua criação, quando, em 1985, foi ao ar pela TVE rebatizada para TV Brasil em 2007.
– Ter feito um pouco de cada coisa dentro do programa ajuda muito no meu trabalho de diretor. Conheço o corre de cada um da equipe e isso me possibilita ter um olhar específico para cada um e, num âmbito geral, para o todo – reconhece o diretor, corroborando a percepção do mestre. E Bruno vê no teatro a base para o profissional que ele é hoje: – O teatro é uma escola de vida importante.
Barros entrou na equipe da atração em 2012 e, desde então, fez de tudo mesmo, primeiramente nos bastidores. Em 2017, foi para o cenário mediar mensagens dos internautas num contraponto a Vera Barroso, apresentadora da atração na época e ao lado de quem viria a atuar em 2018. E vem do trabalho como produtor uma das muitas lembranças divertidas colecionadas por ele:
– Ainda não existia whatsapp e muitas das pautas chegavam pelo telefone fixo. Era gente do Brasil todo sugerindo assuntos e personagens. Minhas primeiras palavras ao telefone eram “Produção do Sem Censura, boa tarde”. Certa vez, estava em casa, o interfone tocou e eu me dirigi ao porteiro com “Produção do Sem Censura, boa tarde” (risos).
A tal frase pode ter ficado automatizada, mas o trabalho não. Vieram dele muitas das boas ideias adotadas pelo vespertino. Uma delas foi a de levar à transmissão pautas feitas na rua. No início de 2020, vieram dele ideias que acabaram adiadas em razão da pandemia da Covid-19.
– Estreamos o novo formato num dia e, no dia seguinte, foi decretado o lockdown. A Vera (Barroso), que era do grupo de risco, precisou ficar em casa, e o programa passou a ser apresentado por mim e, num esquema de revezamento, por colegas como o (Sérgio du) Bocage e o Dylan (Araújo). Eu mesmo tive covid – recorda-se.

Reza o dito que as coisas acontecem no momento certo. Atuando como coordenador de criação veio dele o novo formato da atração, apresentado num pitching à direção da emissora, que vibrou com a sugestão de Cissa para apresentadora. E veio de Antonia Pellegrino, diretora de programação da EBC, a proposta para Bruno dirigir a atração. E Bruno não estava de “calças curtas”. Ele já havia experimentado o trabalho como diretor em “Meu pedaço de Brasil”, do qual foi apresentador em duas temporadas.
– Surgiu para o meu diretor a oportunidade de ele fazer mestrado fora do país e lá foi ele. Como o filho (o programa) ficou sem pai, acabei abraçando a função, numa dinâmica muito diferente da do “Sem censura”. Como era um programa de externas, ele era montado na ilha de edição. Essa experiência serviu como um balão de ensaio para mim – reconhece, destacando outro aprendizado: – O programa me levou a conhecer coisas que certamente não conheceria se não estivesse a trabalho. Ele me ajudou a entender a diversidade do país.
Diversidade que também está presente no “Sem censura”. Se o número de convidados diminuiu, a bancada é ocupada agora por nomes de mais relevância na cena cultural. E os exemplos abarcam artistas da música, da TV e do teatro e de novas mídias, como o influenciador Felipe Neto, cujo programa foi o de maior audiência nas quatro décadas da atração. Esse novo viés vem de um consenso, segundo explica Bruno:
– Somos uma TV pública, então temos essa liberdade de escolha. É como um bolo: precisa ter a massa, onde entram pautas de saúde e de comportamento; há o recheio, com algo saboroso, e não podemos esquecer da cobertura, onde estarão nomes de mais relevância. A cereja do bolo é aquele nome que faz com que o telespectador que esteja zapeando pare e nos assista.
Criado por Fernando Barbosa Lima (1933-2008) quando o país começava a virar a página obscurantista dos anos da ditadura, o “Sem censura” levou novos ares à TV. O formato inovador estabeleceu-se como uma tradição, sinônimo de qualidade ao longo desses 40 anos. Essa característica, garante Bruno, será preservada.
– Engana-se quem enxerga tradição e inovação como coisas antagônicas. Inovação traz no seu bojo a palavra ação, então ela precisa ser colocada em prática todos os dias. A inovação é algo muito simples – arremata ele.
E isso pode ser constatado a cada vez que o Sem Censura entra no ar.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagens)





