‘O público pediu o beijo’

junho 27, 2025

Thiago Fragoso brilha no teatro, celebra Antonio Fagundes, defende a quebra de tabus pela TV e diz se respeitar após quase perder a vida

O que faz um ator cair nas graças do público? Carisma e vocação? Domínio de técnica ou o uso assertivo da inteligência emocional? Todas as respostas são plausíveis quando se trata de Thiago Fragoso. Aos 43 anos, o ator já pode ser considerado um dos mais importantes da sua geração. A cada novo personagem, ele sempre nos surpreende. E o mesmo se dá no palco, onde ele brilha ao lado de Antonio Fagundes, Christiane Torloni e Alexandra Martins. Esse quarteto fantástico viaja o país com “Dois de nós”, de Gustavo Pinheiro, que, após bem-sucedidas apresentações em São Paulo e no Sul, segue para Belo Horizonte (MG) e para o Nordeste. “A química entre nós é muito forte’, destaca Thiago nesta entrevista por telefone ao NEW MAG. A seguir, o ator fala do reencontro com Fagundes, a quem chama de sucessor de Paulo Autran (1922-2007), fala da importância de a TV quebrar paradigmas – como o do beijo trocado com Mateus Solano em “Amor à vida” – e dos aprendizados trazidos pelo término do vínculo com a Globo, a qual esteve ligado por 23 anos, e pelo acidente que quase lhe tirou a vida. De quebra, revela planos de personificar um dos célebres heróis de Shakespeare. Capacidade para tanto não lhe falta.

Você e Fagundes trabalham pela primeira vez no teatro após dois trabalhos na TV. O que tem de mais saboroso neste reencontro?

O Fagundes é o sucessor direto do Paulo Autran (um dos maiores atores brasileiros). Ele é de uma relevância imensa para o teatro, e enxerga o teatro como uma indústria, sem nunca ter se tornado uma pessoa insondável ou obscura. É bonito isso de ele querer que o teatro seja uma experiência completa para o público, permitindo o acesso aos ensaios com um ingresso módico e dando, com esse ingresso, desconto na compra para a temporada. Sem falar nas conversas após as sessões, o tour que ele faz pelos bastidores. Ele sabe exatamente o que funciona ou não no teatro.

Fagundes tem muito respeito pelo teatro como instituição,não tolerando atrasos, por exemplo. O público precisa resgatar a sacralidade do teatro?

Antes de resgatar a sacralidade, o público precisa saber que o teatro está ali. Nas conversas após as sessões, sempre tem três ou quatro pessoas dizendo que estão ali pela primeira vez. Numa ocasião, um espectador perguntou o que era um cenário. O teatro é um sacerdócio e nós, atores, estamos ali para perpetuar sua ancestralidade. Quando estudei teatro nos Estados Unidos, líamos trechos de peças do Shakespeare cujas falas sei até hoje. E não estava em Nova York, mas no Alabama. O lugar não importa desde que a importância do teatro seja reconhecida.

E como é trabalhar com a Torloni? Vocês ainda não haviam contracenado, é verdade?

Nos encontrávamos nos aeroportos, papeávamos e só agora calhou de trabalharmos juntos. Ela e o Fagundes são pessoas que admiro muito. A química entre nós é muito forte e incluo também a Alexandra. As pessoas se emocionam muito com o espetáculo e já aconteceu de sermos aplaudidos em cena aberta. A reação do público às vezes nos remete à de uma plateia num show de rock.

Sua recuperação após o acidente em Xanadu foi um exemplo de determinação e fé na vida. Qual o principal aprendizado deixado pelo episódio?

Ele me mostrou o quão importante é ouvir meu coração antes de aceitar um trabalho. Quando recebi o convite, estava saindo de “O Astro” e estava exausto. Sabia que seria estafante. Topei fazer para não criar rusgas com a produção e quase morri. Até então, eu era uma pessoa que evitava conflitos, só externando minha raiva no trânsito. Só conseguia xingar alguém dirigindo (risos).  Esse aprendizado foi importante e, hoje, estou muito mais atento à minha intuição.

Você e Mateus Solano entraram para a História da TV brasileira. Qual a importância que esse feito tem para você hoje?

Essa é uma das coisas que guardo com carinho. Meus objetivos sempre foram o da comunicação e o de melhorar as pessoas através do meu trabalho. Em “O Clone” tivemos a questão da conscientização do público sobre as drogas. Já “Lado a lado” mostrou como a população preta foi hostilizada pelo poder público e por parte da sociedade. Sempre tive vontade de interpretar um personagem gay, até para mostrar que, mais importante do que a sexualidade é o caráter de um indivíduo. A cada nova novela, nas coletivas de imprensa, nunca apresentei um personagem como sendo hétero. Isso é irrelevante. O mais importante é o que uma novela discute. E, no caso de “Amor à vida”, aqueles personagens ajudaram muitas famílias a lidar com o tema de forma esclarecedora.

E o beijo entrou para a História da TV brasileira…

O público pediu o beijo. A química entre aqueles personagens levou o público a aceitá-los. O Nico conseguiu transformar um vilão (Félix, interpretado por Solano) em herói. Guardo no coração os relatos trazidos pelo público.

Você teve oportunidade de viver alguns vilões na TV, todos diferentes uns dos outros. Qual a sua preocupação ao compor um personagem?

Convivo, ao longo da minha trajetória, com os mais diferentes métodos. Já fui da exaustão para o estado de atenção e, da dor extrema, para o transe. Cada trabalho encaro com uma determinada lente. E a minha construção será acrescida por fatores externos como o figurino e a relação com os colegas, além da direção e das suas intenções. Uma coisa para a qual atento são os trejeitos que aquele personagem pode ter, e talvez esteja nisso o que vai diferenciá-lo dos demais.

“Beleza fatal”, do Raphael Montes, provocou comentários positivos pelo formato mais curto. As novelas precisam de uma recauchutagem?

A Globo jogou fora a oportunidade de descobrir uma nova novela. A novela é o maior chamariz da emissora, e o fato de alterar esse formato, poderia implicar numa diminuição de receita, e ninguém quer perder receita. Outra questão está ligada à relação do público com aquele produto. As pessoas agora escolhem o horário em que vão assistir a uma atração. Outro fato é um investimento maior na dramaturgia. Trabalhei uma vez numa novela em que não foi usado em momento algum o flasback, por exemplo, e justo um dos recursos mais antigos na teledramaturgia!

O contrato por obra é uma alforria para o ator?

Já me fiz essa pergunta muitas vezes. Estive ligado à Globo por 23 anos. Durante esse tempo, meu trabalho ali foi minha prioridade. E, com isso, perdi oportunidades do lado de fora. Muitas vezes me perguntei como seria sobreviver fora dali. Talvez devesse ter sido menos Caxias com o meu trabalho, não sei… Estou aprendendo a lidar com essa nova vida.

Como vê o despontamento de atores como Wagner Moura e Rodrigo Santoro no exterior? Pensa em investir numa carreira internacional?

Fico muito orgulhoso dos meus colegas. À exceção do Rodrigo, que de fato investiu numa carreira internacional, recomeçando do zero, o Wagner e agora a Fernanda Torres alcançaram visibilidade a partir dos seus trabalhos no cinema brasileiro, e isso é muito bonito. Com o Rodrigo isso também se deu: ele aproveitou a repercussão do seu trabalho em “Bicho de 7 cabeças” e viu que era o momento de arriscar, e deu certo. Apostar numa carreira internacional é uma loteria. Talvez o melhor seja focar aqui.

Qual personagem gostaria de levar à cena e que só a maturidade te permite?

Sou aficionado por Shakesperae. Hamlet é um papel que gostaria de interpretar da mesma forma que Macbeth. “Esperando Godot”, do Becket, também me interessa.

O público acompanhou teu amadurecimento ao mesmo tempo em que você preserva sua privacidade. Foi difícil encontrar esse equilíbrio?

Essa obrigatoriedade da autoexposição é muito cruel. Hoje, penso mil vezes antes de postar algo e, depois de feito, o coração ainda balança (risos). Claro que há as vantagens da tecnologia. Viajando com a peça, você pode fazer um vídeo convidando o público de outros lugares. Completei recentemente 20 anos de casado e tenho em casa uma estabilidade que não dá brechas a fofocas. Minha vida é levar filho ao colégio e ir ao cinema com minha mulher. Não tenho uma vida interessante aos curiosos.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Chico Cerchiaro (imagem)

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