‘Cineastas são deuses’

fevereiro 15, 2024

Lupita Nyong’o, presidente do júri da Berlinale, falou com Rodrigo Fonseca, nosso correspondente no festival
*por Rodrigo Fonseca
Nascida na Cidade do México por um mero acaso acadêmico (seu pai lecionava lá, na época), formada nos EUA, mas orgulhosa de sua identidade queniana, a atriz Lupita Nyong’o assume a presidência do júri da Berlinale 2024, nesta quinta-feira, feliz de encontrar títulos de matriz africana na competição oficial. ‘Black tea” (da Mauritânia) e “Dahomey” (coprodução do Senegal com Benin) concorrem ao Urso de Ouro na 74ª edição do evento, e é ela quem vai decidir e anunciar o vencedor. Mas tem uma diversidade geográfica grande na competição e a alegria maior dela é conferir essa multiplicidade.
–  Dirigi um filme como projeto final de curso, o documentário ‘In my genes’, e aprendi ali o valor que cineastas têm –  disse a ganhadora do Oscar de Melhor Coadjuvante por “12 anos de escravidão” (2013) à NewMag, na coletiva de abertura da Berlinale 74, na manhã desta quinta. –  Cineastas são deuses, com controle absoluto, e foco, para que as histórias sejam realizadas – declarou.
Na sequência a forças cinematográfica das nações africanas na telona da capital alemã veio à tona em sua fala. –  Estou feliz de ver filmes da África aqui, mas tenho fome de mais –  cravou a atriz, celebrando ainda o empoderamento feminino por trás e à frente das câmeras. –  Fico feliz de estamos aqui, mas só posso responder se houve um aumento da presença feminina aqui em alguns dias. Sou estrangeira. Não sou daqui –  disse, impressionando jornalistas ligados ao universo da moda ao usar um adereço de búzios em sua cabeça.
Este ano, Lupita será a estrela da nova aventura (sombria) da franquia “Um lugar silencioso”, chamado “A quiet place: day one”, previsto para junho. Em 2022, ela estrelou “Wakanda Para Sempre” (2022), retornando ao papel da agente Nakia, figura central na dramaturgia do fenômeno popular “Pantera Negra” (2018). –  Faço de tudo para construir personagens que representem um signo mulher forte, capazes de fazer jus ao universo feminino da África –  disse Lupita nos sets do “Pantera Negra”, em Atlanta.
Cotada por John Woo para protagonizar o remake de seu “O matador” (1989), no papel antes vivido por Chow Yun Fat, Lupita preside um time formado pela diretora Ann Hui (Hong Kong/ China), o ator e realizador Brady Corbet (EUA), o cineasta Albert Serra (Espanha), a atriz e realizadora Jasmine Trinca (Itália) e a poeta Oksana Zabuzhko (Ucrânia). O rol de produções no concurso é farto.
“Lupita Nyong’o encarna aquilo de que gostamos no cinema: a versatilidade para abraçar projetos diferentes, dirigindo-se a públicos distintos”, afirma a direção do Festival de Berlim, comandado por Mariëtte Rissenbeek, sob a curadoria de Carlo Chatrian. Segundo a atriz, a tarefa de julgar os 20 títulos em concurso este ano “será apimentada”.
Há sangue jovem na lista em competição que Lupita vai avaliar. É o caso da franco-senegalesa Mati Diop, da italiana Margherita Vicario e do mexicano Alonso Ruizpalacios. Tem também medalhões: vide os franceses Bruno Dumont e Olivier Assayas e o sul-coreano Hong Sangsoo. A própria Alemanha sai em campo com o veterano Andreas Dresen. –  Ser exposta a histórias de tantos lugares e reagir a elas é uma honra –  disse a atriz.
Ainda hoje, Lupita vai estar na sessão do filme que abre a Berlinale: o drama irlandês (feito em coprodução com a Bélgica) “Small things like these”, de Tim Mielants. Seu protagonista é Cillian Murphy, ganhador do Globo de Ouro de Melhor Ator Dramático por “Oppenheimer” e forte concorrente ao Oscar. Cillian vive um carvoeiro assolado por segredos (ligados à Igreja) de sua comunidade, no Natal de 1985. A Berlinale segue até o dia 25.
*especial para o NEW MAG

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