Vozes e talentos tamanhos

outubro 13, 2025

Personalidades prestigiam a segunda noite de shows do Festival Clássicos do Brasil no Rio de Janeiro

“Por isso essa voz tamanha”. O verso de “Força estranha”, de Caetano Veloso, foi o estopim para Xande de Pilares ser merecidamente ovacionado pela multidão que lotava a Marina da Glória, no Rio de Janeiro, na noite do último domingo (12), segundo dia do Festival Clássicos do Brasil. O sambista encerrou com o elogiado “Xande canta Caetano” uma noite que trouxe ainda um Grande Encontro entre Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo, além do aguardado (re)encontro entre Lenine e Marcos Suzano.

A ovação a Xande em “Força estranha” foi merecida. Ele fora informado sobre a morte de um amigo poucas horas antes de pisar o palco e não descuidou em nada do apuro da apresentação. “Perdi hoje um amigo que não gostaria de me ver triste. Então, vamos nessa”, declarou antes de elencar suas recriações para clássicos como “Reconvexo”, “Trilhos urbanos”, “Desde que o samba é samba” e “Gente”, acompanhados a plenos pulmões da Área VIP por um entusiasmado Humberto Carrão, notório adepto das boas rodas de samba da cidade.

Xande e sua voz tamanha encerraram uma noite que contou com outras grandes vozes, além de ricas e expressivas sonoridades. A começar pela do álbum “Tábua de Esmeraldas”, lançado por Jorge Ben (ainda sem o Jor) em 1975. E coube ao coletivo Los Sebozos Postiços recriar clássicos como “Cinco minutos”, “O homem da gravata florida” e “Os alquimistas estão chegando”.

E a moçada fez (muito) bonito. O coletivo estava ainda mais azeitado pelos três percussionistas do Nação Zumbi e pela guitarra de Pedro Baby, cujo domínio do instrumento já o coloca na galeria dos guitar heroes brasileiros.

A apresentação prenunciou uma noite que primaria pela excelência musical e por grandes (e memoráveis) encontros.  E certamente o mais aguardado deles foi o que (re)uniu o cantor e compositor Lenine e o percussionista Marcos Suzano. Os dois recriaram no palco o repertório de “Olho de Peixe”, álbum lançado em 1993 e um divisor de águas nas vidas de ambos.

“Vim ouvindo o disco no carro”, confessou o ator e cantor Claudio Lins numa dessas voltas que o mundo dá.  Claudio é filho de Ivan Lins por cuja gravadora Velas o álbum foi lançado. E ele foi um que, da área VIP, cantava junto obras como “Leão do Norte” e a canção-título do álbum. E foi emocionante constatar que, passados 32 anos, aquele repertório não perdeu em nada seu vigor/rigor.

E os sinais da chegada de Alceu, Elba e Geraldo foram sentidos – e escancarados – com “Anunciação”, que abriu a apresentação do power trio. O show é um deleite para os fãs da trinca uma vez que, de forma nada óbvia, elenca obras-primas como “Chão de giz” (clássico de Zé Ramalho solado por Elba), “Táxi lunar”, “Bicho de sete cabeças” (num dueto emocionado entre Elba e Geraldo), “Banho de Cheiro”, “La belle de Jour” e, num grand finale, “Frevo mulher”.

E o vento que soprava na Baía de Guanabara sacudiu as cabeleiras. E as canções aqueceram os corações numa noite de ricas engrenagens sonoras e vozes tamanhas. Alguns com cabelos brancos nas suas frontes e outros ainda longe disso. Mas todos ali  têm, em comum, o fato de já serem referências. São eles clássicos do Brasil.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Ricardo Nunes, Patrick Gomes e Any Duarte (imagens)

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