‘Vejo muita coisa descartável hoje’

outubro 19, 2026

O produtor musical Jorge Davidson revela em livro bastidores marcantes, como a contratação de Renato Russo e a descoberta de talentos como Blitz e Paralamas do Sucesso

A história da música brasileira também é feita por quem consegue reconhecer um talento antes de ele conquistar o público. Ao longo de três décadas na indústria fonográfica, o produtor musical e executivo Jorge Davidson participou da construção de carreiras que marcaram diferentes gerações, de Blitz, Os Paralamas do Sucesso e Legião Urbana a Marisa Monte, Gabriel O Pensador e Skank. Agora ele reúne parte dessas experiências em “Em sintonia com o sucesso – a arte de revelar talentos na música brasileira”, livro que percorre os bastidores da indústria e os encontros que marcaram sua trajetória.

— O livro carrega memórias desde a minha infância e da minha família. Não é uma biografia, é um livro de memórias — explica Jorge, em entrevista ao NEW MAG.

O lançamento acontece nesta terça-feira (20), na Livraria Argumento, no Leblon, no Rio de Janeiro. A ideia de transformar lembranças em livro surgiu após anos de incentivo de amigos e artistas que conheciam suas histórias. Com um arquivo pessoal organizado, repleto de fotografias, correspondências e registros, ele encontrou na pandemia a oportunidade de reunir esse material — apesar de ter escrito o livro apenas nos últimos anos.

— Eu tinha um acervo de memórias muito bem organizado, com fotos, correspondências e registros históricos da minha vida. Durante a pandemia, reorganizei todas as minhas histórias catalogadas. Tinha tópicos sobre viagens com os Paralamas do Sucesso a Nova York, passagens da minha trajetória, o primeiro disco da Marisa Monte. Fiz uma cronologia dessas ideias, e o livro veio daí, a partir do incentivo de amigos e artistas.

Antes de se tornar executivo da indústria fonográfica, Jorge teve uma aproximação com o jornalismo. Estagiário na TV Globo, trabalhava na apuração de notícias, mas uma experiência o fez perceber que não se identificava com a rotina de repórter. Durante a cobertura do desabamento do viaduto Paulo de Frontin, no Rio, em 1971, avisou a redação sobre a ocorrência e acompanhou a movimentação até o fim do expediente. Depois, foi jogar futebol de praia.

— Quando cheguei em casa à noite e comecei a assistir ao Jornal Nacional, me dei conta da dimensão daquilo. Foi quando cheguei à conclusão de que não era repórter. Se eu fosse um repórter, não teria terminado meu expediente. Muita gente da redação virou a noite fazendo a cobertura, e eu fui embora quando acabou meu horário.

A descoberta abriu caminho para uma relação profissional com algo que já fazia parte de sua vida desde a infância. Criado em meio aos discos que o pai ouvia, Jorge cresceu escutando nomes como Frank Sinatra (1915-1998) e Dorival Caymmi (1914-2008). Na juventude, viveu em Copacabana, em uma época que guarda na memória com carinho.

— Minha formação cultural e musical começou em casa, com meu pai, Davidson, que ouvia muito Nat King Cole, Frank Sinatra, Sílvio Caldas, Dorival Caymmi e Dolores Duran. Desde sempre, eu ouvia o que meu pai ouvia. A gente tinha uma vitrola, e ele tinha muitos discos.

O interesse, inicialmente ligado ao lazer, ganhou outra dimensão quando conheceu Big Boy (1943-1977) e Nelson Motta, ainda nos anos de TV Globo. Mais tarde, trabalhou em uma rádio em Niterói, onde fazia uma programação que misturava rock alternativo, jazz e rock brasileiro. Foi ali que começou a enxergar a música como profissão.

— Nunca pensei que ia trabalhar com música, nem comecei a ouvir música pensando em trabalhar. Aquilo era o meu lazer, meu passatempo e minha cultura, que foi se desenvolvendo. Mas isso tudo foi gerador do meu futuro.

Em 1975, Jorge entrou na EMI, no Departamento Internacional, onde aprofundou seus conhecimentos sobre repertórios e o funcionamento da indústria. A experiência foi decisiva para a etapa seguinte da carreira: a direção artística, função que o colocou em contato direto com artistas e compositores.

— Eu era muito feliz no Departamento Internacional, adorava o trabalho que fazia. Não pensava em ir para o Nacional. Mas fui indicado para ser diretor artístico da companhia e passei a trabalhar diretamente com os artistas.

Entre as histórias que o livro recupera está a contratação de Renato Russo (1960-1996), um dos episódios marcantes do início de sua atuação como diretor artístico. Durante uma gravação, Jorge ouviu Herbert Vianna apresentar “Química” e quis saber quem havia composto a canção. A resposta levou ao encontro com o músico de Brasília que se tornaria o vocalista da Legião Urbana.

— Quando Herbert apresentou “Química” nas gravações, achei a música espetacular e perguntei se também era dele. Ele me contou que era de um amigo de Brasília. Eu quis conhecer aquele cara. Era Renato Russo, e foi a minha primeira contratação já como diretor artístico da companhia.

Blitz, Os Paralamas do Sucesso e Legião Urbana foram os primeiros passos dessa nova fase. Ao longo dos anos, Jorge também trabalhou com nomes como Fernanda Abreu, Chico Science (1966-1997), Planet Hemp, Jota Quest e Ana Carolina. Mais do que apostar em canções com potencial imediato, ele buscava artistas capazes de construir uma trajetória consistente.

— Meu foco sempre foi carreira, sempre foi talento, artistas e compositores com muito talento. Eu queria trabalhar em carreiras longevas e artistas brilhantes para formar catálogo. Você pode ouvir algo de 30 ou 40 anos atrás, depois de já ter ouvido milhares de vezes, e aquilo continua maravilhoso. São coisas atemporais, permanentes na nossa história, no nosso ouvido.

A composição ocupa um lugar central nessa avaliação. Ele cita artistas que reuniram talento para escrever e interpretar, como Tom Jobim (1927-1994), Caetano Veloso e Gilberto Gil.

— Não existe um grande artista sem grandes canções. Frank Sinatra não era autor, era intérprete, mas sabia escolher grandes canções. Já Renato Russo, Tom Jobim, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tim Maia e Luiz Melodia reuniam talento para compor e interpretar.

A relação com esses artistas permanece para além dos anos de trabalho nas gravadoras. Jorge acompanha shows e observa como diferentes gerações continuam cantando músicas que atravessaram décadas.

— Muitos desses artistas com os quais trabalhei, como os Paralamas, continuam fazendo shows lotados. Eu frequento os shows deles hoje, como amigo, como fã, como profissional. Tenho orgulho disso.

A experiência acumulada também dá a Jorge uma perspectiva crítica sobre as transformações do mercado. Ele reconhece as mudanças provocadas pelo streaming, mas sente falta do modelo em que as gravadoras investiam na descoberta de artistas e no desenvolvimento de carreiras de longo prazo.

— Sou de outros tempos, de um tempo em que a indústria fonográfica era realmente poderosa. Ela era responsável pela revelação de artistas, pela construção de catálogos e por carreiras sólidas.

A crítica não significa rejeição à tecnologia. Jorge diz gostar do streaming, mas questiona a frequência com que lançamentos desaparecem rapidamente do radar:

— Hoje em dia, confesso que é muito raro eu ouvir algo novo de que goste, em que acredite, algo com que gostaria de trabalhar. Vejo muita coisa descartável, artistas de uma música só, de um disco só. Isso não me encanta.

Na avaliação do executivo, o catálogo construído ao longo de décadas continua sendo um dos principais patrimônios das companhias. São obras que permanecem disponíveis, reencontram ouvintes e sustentam a memória musical de diferentes épocas. É essa relação com os álbuns e com a experiência de ouvir uma obra inteira que ele faz questão de preservar.

— Eu gosto de ouvir discos. Gosto de ouvir uma obra, não uma música.

Depois de deixar as gravadoras, Jorge seguiu trabalhando de forma independente, como agente, curador de shows e musicais de teatro. Também atuou como diretor artístico em um projeto sobre Wilson Simonal (1938-2000). Em 2023, participou da criação da trilha musical para a apresentação de abertura da final da Libertadores, no Rio de Janeiro.

Nos últimos anos, porém, a dedicação ao livro ocupou boa parte de seu tempo. O trabalho não representa apenas uma reunião de episódios profissionais, mas também uma maneira de registrar a relação pessoal que construiu com a música.

— A música pauta a minha vida. Cada situação importante, cada momento, cada ano, cada época tem uma música relacionada. O livro tem muita gratidão a todos aqueles que tornaram a minha trajetória possível: os artistas, os executivos com os quais trabalhei e as pessoas que me deram oportunidades e acreditaram em mim — arremata.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)

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