Há dores que arrastam para o fundo. Outras, com o tempo, viram arte. É nesse universo de perda e recomeço que vive Violette Toussaint, personagem de “Água Fresca para as Flores”, fenômeno literário da francesa Valérie Perrin, que ganhou corpo e voz em Marcella Muniz nos palcos brasileiros. A atriz queria voltar ao teatro quando recebeu de uma amiga do clube de leitura a indicação do romance sobre a vida de uma zeladora de cemitério. Não se animou de primeira.
— Eu falei: “Ah, não, gente, vamos ler uma coisa mais leve”. Li, a gente lutou pelos direitos do livro e adaptou. De tanto que me apaixonei — declara.
Em entrevista ao NEW MAG, Marcella fala sobre os desafios de sustentar sozinha um monólogo de 70 minutos, a relação com a autora francesa e o impacto de Violette em sua trajetória. A atriz também conta como o espetáculo mudou suas prioridades profissionais. Além disso, revela os planos de levá-lo para a Europa e adianta um novo espetáculo: “Irene e Gabriel em Água Fresca para as Flores”, spin-off que nasce do mesmo romance. O livro dará origem a duas obras teatrais distintas — feito inédito, segundo a atriz.
— Você tem dois caminhos na vida: pode se afundar ou pode tentar transformar os desafios. Tem uma coisa budista no texto, eu sou budista também. Foi isso que me inspirou a trazer essa história para o palco — revela a atriz.
Para dominar a narrativa fragmentada, cheia de idas e vindas, encontrou uma saída: decorou o texto pela musicalidade. Sem microfone e sozinha em cena, encara uma entrega física e emocional que continua a exigir cuidados quando as luzes se apagam.
Marcella faz musculação, medita, lê, escreve à mão, cursa Letras e encontrou no crochê uma maneira de desacelerar. A televisão, por enquanto, ficou em segundo plano — apesar de uma participação na próxima temporada de “Impuros”. Sem a urgência de estar na mídia, ela prefere concentrar energia no teatro, na literatura e nos projetos que vem produzindo.
Esse apreço pelo que se constrói à mão também atravessa a própria montagem. No cenário de Teca Fichinsky, um fio de areia escorre do alto durante toda a apresentação, como uma ampulheta a marcar a passagem do tempo. Já o figurino de Ofélia Lott foi ganhando bordados feitos durante os ensaios, em pontos batizados de “cicatrizes”.
E o caráter afetivo da criação se estendeu à família: Thiago Müller, filho da atriz, assina a trilha original, enquanto Thaís Müller, sua filha, participa do design. Para Marcella, porém, a maior conquista está em reconhecer no palco a mesma mulher que a arrebatou nas páginas. Apesar da condensação da história, ela acredita que a Violette do teatro não deixa nada a desejar à personagem criada por Valérie.
— A Violette do livro é a matriz. E ela não deixa nada a desejar no palco. É o que eu queria fazer. Eu vejo Violette como uma missão — resume.
A identificação com a personagem, aliás, ultrapassa o palco. Depois das sessões, Marcella é procurada por espectadores que reconhecem na história suas próprias experiências de luto, inclusive mães e pais que perderam filhos. E a trajetória de Violette só aumenta.
Nascida de uma produção independente, sem patrocínio e impulsionada pelo boca a boca, a montagem está em cartaz no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, e já teve a temporada carioca prorrogada até outubro. Depois irá para Brasília, ganhará uma quarta temporada em São Paulo e voltará a Belo Horizonte. A equipe também está negociando uma passagem pela Europa, que marcará a estreia internacional da atriz nos palcos.
No meio de tantas coisas que Violette trouxe para a vida da atriz, houve ainda um encontro que ela não imaginava. Marcella enviou à francesa a adaptação traduzida, recebeu seu aval e, desde então, as duas mantêm contato. No caminho, descobriram ainda uma afinidade: o ativismo pela causa animal.
Outra novidade é que Marcella e Bruno já trabalham na pré-produção de “Irène e Gabriel em Água Fresca para as Flores”, spin-off que nasce do mesmo romance e acompanha a história dos dois personagens. A proposta é manter em circulação simultaneamente dois espetáculos extraídos do livro, cada um seguindo um núcleo diferente da trama — uma experiência que, segundo Marcella, nunca foi feita no teatro.
— “Água Fresca” é um divisor de águas na minha vida e um dos maiores desafios da minha trajetória. Depois desse espetáculo, eu posso fazer qualquer coisa — celebra.
Créditos: Érica Magni (texto) e Roberto Carneiro (imagens)






