“Deixa eu cantar/ aquela velha história: o amor”… Esses dois versos de “Fogueira” ilustram bem a relação visceral que Angela Maria Diniz Gonsalves, popularmente conhecida como Angela Ro Ro (1949-2025), tinha com o ofício que fez dela mais do que uma das mais importantes compositoras do país; um dos grandes nomes da nossa música. Ao mesmo tempo em que manteve acesa a fogueira da tradição brasileira de cantar a dor de cotovelo, Ro Ro modernizou essa vertente ao dar a ela novas roupagens – como a do blues e a do jazz – e incrementar seu discurso com doses (mais ou menos cavalares) de ironia, sarcasmo e autocrítica.
Ro Ro cantou o amor de forma personalíssima. E é desta água que Cida Moreira bebe em seu mais novo projeto, o show “Me acalmo danando: a música de Angela Ro Ro”. Na empreitada, que estreou no Manouche no último fim de semana, a cantriz recria cerca de 13 temas compostos pela homenageada – sendo sete deles do LP de estreia da compositora, lançado em 1979 – num roteiro elaborado a partir da audição dos 17 álbuns deixados pela artista.
A partir da execução instrumental de “Demais”, de Tom Jobim (1927-1994) e Aloysio de Oliveira (1914-1995) e que ganharia de Ro Ro interpretação tão antológica quanto a de Maysa (1936-1977), Cida começa, tal e qual Ariadne, a desenrolar seu novelo do qual serão reveladas multifacetadas Ro Ros, a começar pela que ela conheceu, em 1978, quando integrava o elenco do musical “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque. As esticadas eram no Baixo Leblon, para onde rumavam no chevette amarelo de Cida – e onde esta, após perguntar o que a amiga achara do espetáculo, ouviu a queima-roupa: “Um saco”. Assim era Ro Ro.
Esta mulher que cantava o amor sem meias palavras – ou meio tons – é evocada por Cida ao longo do roteiro, incrementado por dois textos editados a partir de entrevistas da compositora levadas a ela pelo Dj Zé Pedro, que acabou ainda por apresentar a intérprete “Karma secular”, prontamente inclusa no set.
– Vocês conheciam essa canção? – indagou Cida à plateia e, diante da negativa quase unânime, incluiu ela própria no bojo: – Eu também não.
Outras ela as conhece – e bem. E, algumas, as viu nascer naquele 1978, quando Ro Ro já elaborava seu álbum de estreia. E, deste, Cida buscou obras -primas como “A mim e a mais ninguém”, “Balada da arrasada” (cuja crueza da letra foi especialmente mastigada e saboreada pela atriz), “Tola foi você”, “Não há cabeça”, “Gota de sangue” (interpretada na equação perfeita entre sutileza e a rascância da intérprete) e, claro, “Amor, meu grande amor” (esta com letra de Ana Terra) e a canção-título da apresentação.
Se falamos acima de Ariadne, a imagem do labirinto – que foi a vida da própria Ro Ro e que é a de muitos de nós – faz-se presente na letra de Cazuza (1958-1990) para “Cobaias de Deus”, sua parceria com a autora. Esta canção mereceu de Cida uma interpretação em que a letra ganhou mais relevância do que a melodia, com o piano servindo mais como marca-passo do que como acompanhamento.
Cida Moreira é uma intérprete que não costuma aliar seu canto a autores mornos. E a observação abarca nomes que vão de Kurt Weill (1900-1950) a Arrigo Barnabé, passando por Tom Waits, Chico Buarque e Caetano Veloso (de quem recriou temas como “Mãe” e “O Ciúme” no álbum “A dama indigna”).
E o encontro entre Cida e Ro Ro, damas que comungam da visceralidade, é um show pleno das tais pequenas epifanias descritas em uma de suas crônicas por Caio Fernando Abreu (1948-1996), autor de quem Cida foi amiga e vizinha.
Se as canções podem nos remeter ao impulso de cortar os pulsos, Cida Moreira mostra-nos que, sim, “o pulso ainda pulsa”. E seu timbre sangra-nos e renova-nos como numa transfusão. Que bom que, com ela, ”nunca vai haver talvez”.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Subversa Digital (imagem)





