‘Uma artista completa’

janeiro 6, 2026

Maria Bethânia tem seus primeiros anos de carreira analisados em livro com lançamento marcado no Rio de Janeiro

“Maria Bethânia canta como uma jovem árvore que queima”. O poeta Vinicius de Moares (1913-1980) não poderia ter sido mais preciso, cirúrgico, até. A definição é de 1965, ano em que Bethânia, então com 19 anos, arrebatou o público no histórico show “Opinião”. Antes de se tornar um dos maiores nomes da música, a artista já se afirmava com sua voz única e forte presença cênica.  Essa travessia inicial — formadora e decisiva — é o centro de “Maria Bethânia, primeiros anos — da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro” (Editora Letra e Voz), novo livro do jornalista e pesquisador Paulo Henrique de Moura

E o aguardado lançamento da obra no Rio de Janeiro já tem data e local para acontecer. Será no dia 17 deste mês, na Tropicália Discos, Centro da cidade.  Resultado de uma pesquisa para dissertação de mestrado defendida pelo autor na USP em 2024, o livro investiga o momento em que a jovem Bethânia deixa Salvador rumo ao Rio, em 1965, para substituir Nara Leão no supracitado “Opinião” — criado por Armando Costa (1933-1984), Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), Ferreira Gullar (1930-2016) e Paulo Pontes (1940-1976), sob direção de Augusto Boal (1931-2009), que enfrentou de frente o início do regime ditatorial no país. 

Paulo Henrique analisa também a participação da cantora em outros espetáculos políticos de 1965, como “Arena canta Bahia” e “Tempo de Guerra”, este último escrito por Boal especialmente para ela, a partir de textos de Bertolt Brecht (1898-1956). 

O livro revisita o acervo documental do Teatro Vila Velha, em Salvador, onde Bethânia encenou “Nós, por exemplo” e “Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova” — apontadas como embriões do pensamento estético que desembocaria na Tropicália. 

A publicação também revela documentos que comprovam a vigilância dos órgãos de repressão da ditadura militar sobre a artista, em razão de sua participação em espetáculos de viés político e do apoio a causas sociais. O livro ainda dedica atenção ao espetáculo “Mora na Filosofia”, dirigido por Caetano Veloso em 1964. 

Depoimentos inéditos de nomes como Rodrigo Velloso, irmão da cantora, Gilberto Gil, Jards Macalé (1943-2025), Edy Star (1938-2025), Roberto Santana, Thereza Eugênia, Djalma Corrêa (1942–2022), e da própria Bethânia estão presentes na obra. 

— Escrever sobre os primeiros anos de Bethânia é revisitar um Brasil que também buscava se compreender. A trajetória dela no teatro político e nos palcos da Bahia mostra que, antes de ser uma cantora de sucesso, Bethânia já era uma artista completa, consciente da força simbólica da palavra e do gesto. A pesquisa é uma tentativa de recuperar esse momento fundador, quando sua arte começou a se misturar com a história do próprio país — declara Paulo Henrique. 

Crédito da imagem: Thereza Eugênia/ Reprodução (instagram)

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