‘Temos uma sociedade muito careta’

abril 4, 2025

Prestes a estrear cinebiografia de Ney Matogrosso, Jesuíta Barbosa conta como criou seu personagem, fala sobre visibilidade e sexualidade e comenta os remakes na TV

Quando terminou de ver uma sessão exclusiva à equipe do filme “Homem com H”, Jesuíta Barbosa ouviu de um comovido Ney Matogrosso o elogio: “Você trabalhou, hein!”. O papel na cinebiografia do astro, que chega no dia 1º de maio nos cinemas, promete mesmo ser um dos mais emblemáticos e marcantes na carreira do ator. Nesta entrevista ao NEW MAG, ele confessa que ainda não consegue entender o que foi aquele momento na sua vida. “Comecei a chorar compulsivamente”, recorda. O artista fala ainda sobre as delícias e cuidados em interpretar um dos nossos maiores intérpretes e lembra que tem a mesma idade que Ney tinha quando iniciou sua trajetória na música com o Secos e Molhados. E se Belchior (1946 – 2017) já traduzia a potência do astro no verso “Um rapaz delicado e alegre que dança e requebra, é demais”, o ator aprofunda essa avaliação e ressalta a maneira como Ney expunha sua sexualidade nos anos 70 e como isso abriu portas para artistas homens até hoje. Atento e caprichoso em cada resposta, Jesuíta também não sabe dizer nada por dizer, mas aqui ele fala.

Como você chegou até o papel do Ney? Imaginou que poderia interpretá-lo algum dia?

Eu tinha uma paquera com o trabalho do Ney já havia um tempo. Ele sempre foi muito criativo, tem um trabalho que atinge crianças, adultos e adolescentes, com tantos anos de carreira. Sempre tive a pretensão em me aproximar desse artista de alguma forma. Mas teve um trabalho específico, quando eu fiz uma drag chamada Shakira do Sertão (da série “Onde nascem os fortes”), e escolhi uma música do Ney, “Mal necessário”, que desenhava a personagem e ela cantava. Foi quando consegui recriar uma música que gostava dele e entender como isso impactou a personagem e o público. Gostaram muito dessa versão e ela virou tema da personagem. Mas o convite veio mesmo do Esmir (Filho, diretor do longa). Fizemos um teste uns dois anos antes de começar a produção. Estavam fazendo testes de elenco, eu mandei o meu e deu certo. 

Pelo que vi, o Ney esteve próximo da produção do filme. Como foi ter o biografado assim presente ao longo do processo?

A gente teve alguns encontros específicos antes de filmar. Fui até a casa dele. Esse dia foi bem importante para mim. Ficamos uma tarde inteira conversando. Essa apresentação do espaço que ele habita foi sensacional. Porque você vai conhecendo aquela pessoa de forma figurativa também, vê objetos que ele escolhe para ter, fotos e referências. Era importante ter o Ney vivo, como esse corpo que age e que fala. Mas ao mesmo tempo sabia que essa criação da personagem seria figurativa. É um dos tantos Neys possíveis de se interpretar. Às vezes tinha uma pergunta que eu queria muito fazer, ou uma curiosidade, e mandava pelo WhatsApp. Ao mesmo tempo, tive muito respeito pelo mistério que é interpretar a vida de alguém. Fiquei entre ter a pessoa disponível e uma pesquisa imagética, tentando encontrar o ideal. 

É importante esta percepção, para a interpretação não cair numa imitação. Para que seja o seu Ney. 

O que mais me chamou para fazer a personagem foi saber o que era a energia do Ney naquela época. Um jovem no anos 70. Eu fiz ele dos 20 aos 50 e pouco anos, um espaço de tempo grande. Mas a mim interessava muito principalmente a época dos Secos e Molhados. Ele tinha 33 anos, a idade que tenho e que gravei. Sabia que ele tinha uma energia e uma urgência que é diferente do que ele é hoje. Ele é calmo, muito ponderado, tem uma fala mansa e uma cadência. Precisava saber como era naquela época, para achar, na diferença, alguma resposta. Ele era mais impulsivo, tinha uma vontade de modificar a vida dele, de fazer algo diferente, que ele não sabia direito o que seria. Esse Ney que aparece ali é muito mais cheio das dúvidas e incertezas da juventude.

Na história do Ney, teve algo que lhe surpreendeu particularmente?  

O fato de ele ter esperado, de forma natural, o momento certo, para dizer algo como artista, e se preparar para isso até os 33. Então responder a si mesmo o que queria fazer. Hoje em dia temos a necessidade de ter uma resposta muito cedo do que se é, ou do que você quer ser como profissional. Ainda mais na arte. O Ney, naquela época, não. Ele dizia que sabia que algo iria acontecer e que teria o momento certo. Tenho uma profunda admiração por isso. Com 33 hoje, tenho muitas perguntas sobre mim. Sei que posso esperar para que elas aconteçam por si só, que não preciso ter uma resposta única para cada questão. 

Sobre a sessão em que assistiram juntos ao corte final e tanto se emocionaram. Como foi este momento? 

Eu não tinha assistido ainda. O filme tinha mais de 3 horas no primeiro corte, e foi diminuindo. O que aconteceu naquela sessão até hoje me é estranho, porque percebi durante o filme que consegui sentir uma beleza em olhar para uma obra, uma junção de fatores, de artistas e criações, e ao mesmo tempo a figura representada ali viva ao meu lado. Em um momento comecei a chorar compulsivamente, até agora não entendi muito bem se era sobre o filme em si ou sobre o Ney estar ao meu lado, assistindo comigo. 

Há a força artística de ele ter aberto portas, também pela questão da sexualidade, em expô-la livremente nos anos 70, para além do artista no palco.

Essa satisfação sexual no Ney sempre existiu. Ele sempre teve uma certeza dos quereres. Aí falo de desejo e do sexo enquanto realização. Ele sempre teve um corpo muito fiel ao seu desejo. Até hoje em dia o movimento físico do Ney é muito fiel ao canto dele. Ele nunca negou nenhuma sensação sexual. A banda também é muito resultado disso, claro que com as composições do João (Ricardo) e todo o restante. Mas o visual da banda é muito do Ney: a viagem, a dança, o movimento, a presença dele no palco. Os Secos e Molhados têm uma relação físico-sexual do Ney muito presente. Naquela época, era difícil. A postura dele, em plena Ditadura Militar, fez este sucesso. As pessoas estavam pedindo por uma liberdade, que fosse na maquiagem ou no movimento. O trio conseguiu reunir tudo isso. Uma necessidade social de libertação, mas que tinha uma leveza. Tem muito dessa pureza que também habita a questão sexual. 

Você, como ator e celebridade, também nunca escondeu a sua sexualidade. O Ney e outros artistas abriram essas portas para vocês hoje?  

Vejo a postura artística do Ney, antes de entender somente a sua sexualidade. Ela aparece porque ele quer apresentar alguma coisa e dizer algo. Junto dessa intenção, vem a inteligência, aí vem as vontades, desejos, ansiedades e medos. Neste movimento, aparece também a intenção sexual. Isso é completamente diferente de uma ideia mercadológica do que é o sexo, o homem ou o galã. Isso é uma ideia de mercado, em que se pode ganhar mais dinheiro, se tiver tal postura. Ele sempre fez uma arte a partir de si e não da escolha social. Isso sempre me interessou. Nunca deixei de apresentar e fazer nada, se não tivesse uma intenção, vontade e desejo, e o meu corpo não tivesse ali completo. 

Por isso é tão louvável, por apresentar sua sexualidade, sem pensar no lado mercadológico. Hoje, já fala-se em representatividade.

Ele abriu essa possibilidade de visão. Até hoje ele faz isso. É um portal que ele abre nos anos 70 e até hoje está disponível. Para que as pessoas possam usufruir disso. Quando abre esse universo possível de ser habitado, ele faz de uma forma que isso não se fecha mais. O Ney tem 83 anos agora e continua ali como um centro de força disponível para que outros artistas e pessoas possam habitar. 

Você já teve a dúvida se deveria ou não expor a sua sexualidade? 

A dúvida sempre existe. A gente está motivado a viver também pela dúvida. Existe o benefício dela. E ela que faz você também poder escolher. Existiu a dúvida em mim, tanto na minha juventude, antes de me fazer artista, como depois. Percebemos que temos uma sociedade ainda muito careta e violenta. Você vai entendendo de que forma você vai estar ali. Tem a ver com a sua família, com a sua cidade, a sociedade que você convive. Mas acho que consegui de alguma forma manter uma fidelidade a mim. 

Nestes anos, houve também pontos que ganharam mais espaço no debate social: a visibilidade bissexual, a sexualidade fluida…  

Precisamos falar sobre visibilidade trans. Precisamos falar de onde é mais arriscado, mais violento de estar. A bissexualidade é possível de se conversar e importante. Mas tem instâncias que são mais importantes e urgentes de serem colocadas em pauta. Que a gente cuide melhor disso. A discussão é mais necessária onde ela é urgente. 

Perdemos agora o Cacá Diegues, com quem você trabalhou em “O grande circo místico”. Como foi ser dirigido por ele? 

A importância do Cacá já existia na minha concepção do que eu estava fazendo e em trabalhar com cinema, entendendo que ele é um representante da retomada. Tinha uma vontade minha muito grande de estar presente e fazer algo bonito. O poema do Jorge de Lima é muito bonito, porque vem de um poema, antes mesmo de o Chico Buarque musicar. O poema fala sobre uma família que a mídia não consegue traduzir. É algo que não pode ser dito, um mistério. Ele diz muito sobre cinema também. E o Cacá estava ali traduzindo o cinema em si, contando uma história, mas querendo deixar uma herança. Ele tinha um respeito muito grande para que a gente pudesse encontrar nossa intenção criativa. Ele ficava nos ensaios perguntando como eu ia fazer. Ele não estava impondo nada. Não queria que você seguisse uma norma. A vontade era traduzir uma coisa que você trouxesse. Quando o diretor consegue manter essa possibilidade criativa, é muito bom. Ele dizia “Deixa ele fazer, ele faz como quiser”. Ela era muito generoso. Sempre foi. 

Você esteve no remake de “Pantanal”, que foi um sucesso. Agora temos “Vale tudo” também voltando. Como você vê este momento atual da TV, revisitando estes clássicos? 

A televisão tem a oportunidade de traduzir. O que está acontecendo é isso. Uma obra que foi sucesso já vem com uma ideia muito boa, que o autor colocou ali uma intenção interessante. Então a TV consegue colocar aquilo traduzido de uma outra forma, contemporânea. Aí que mora o sucesso do que foi “Pantanal”. As pessoas queriam assistir novamente. Estava ainda na memória, mas a vontade do público em ver alguma coisa recriada e traduzida é o que mais interessava. De que forma conseguimos discutir outros assuntos. 

Você vai de obras populares, como uma novela no horário nobre, para filmes mais cults. Como transitar entre esses dois lados? Qual imagem quer passar como ator? 

Comecei estudando teatro. Foi minha primeira referência de comunicação, de falar com o público. Entender a diferença de uma personagem do teatro para o cinema me interessa muito mais do que o que acabou acontecendo, que foi fazer uma novela e ter uma grande exposição. Isso foi um resultado natural do que comecei ali no teatro. Às vezes o público é enorme, em outras, é específico. O que me interessa é conseguir dizer alguma coisa e de alguma forma modificar um pensamento que está estagnado, tirar isso do lugar. 

Mas há o perigo de estar entre o reconhecimento e a fama. É preciso tomar cuidado para que a exposição suba a cabeça? 

Sim, temos que entender quantidades e volumes. Às vezes o volume está alto. A quantidade de pessoas que dizem sobre o que você é, ou não é, é muito grande. Então você precisa dosar aquilo. Entender se é real. Se aquilo diz sobre a sua vida. Sempre tentei entender isso a partir de mim. Se eu precisava de mais silêncio, ou não dar atenção ao que pensavam de mim. Isso diz mais sobre as pessoas do que sobre você. Nunca me movi muito pela superexposição. 

Você é de Pernambuco, que tem um protagonismo no cinema, mas é ainda fora do eixo cultural Rio-SP. Foi difícil entrar no mainstream? O Brasil ainda está focado neste eixo? 

A internet tem um papel fundamental nessa modificação do trabalho hoje em dia. Temos uma possibilidade de comunicação mais rápida hoje, que é perigosa também. Porque abre-se portas para uma falta de estrutura. Ela faz a gente pensar menos, porque é rápida. Mas dá a possiblidade do trabalho, de encontrar pessoas e se comunicar com comunidades e lugares. O Rio e São Paulo continuam sendo o lugar onde o dinheiro está. Mas da criação, não. O Recife sempre foi um berço de revolução, de pensamento, ele foi uma capitania, onde os estados se encontravam. Nunca olhei para São Paulo ou Rio como lugares que eu ia aprender alguma coisa. Em Fortaleza, onde morei, aprendi bastante, assim como no Recife e no meu interior (cidade de Salgueiro). A gente é resultado da cultura que a gente tem, e da memória também. 

Quais são os seus próximos projetos para este ano? 

Estou estudando e vou voltar a fazer teatro, isso vai ser uma felicidade agora. Poder criar dentro de uma produção teatral. Estou iniciando uma pesquisa com o Marcio Abreu (diretor e dramaturgo), aqui em São Paulo.

Créditos: Danilo Perelló (texto e entrevista) e Victor Pollak (imagem)

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