‘Sofri agressões físicas’

dezembro 12, 2025

André Gonçalves fala da nova peça, relembra homofobia nos tempos de Sandrinho de "A próxima vítima" e se declara para Danielle Winits

Talentoso ator, André Gonçalves foi descoberto ainda menino em uma favela do Rio de Janeiro, onde transformou a infância difícil em um percurso artístico sólido — passando pelos palcos, pela televisão e pelo cinema nacional. Desde que estreou na televisão em 1989 na minissérie “Capitães de areia”, André se tornou um rosto familiar do público, mas foi nos anos 1990 e 2000 que ele consolidou sua carreira em novelas marcantes da TV Globo como “Vamp” e “A próxima vítima” — onde interpretou um dos primeiros casais gays da teledramaturgia brasileira — isso sem falar em seus personagens em “Senhora do destino” e “Caminho das Índias”. Aos poucos, construiu uma trajetória que transitou também entre séries e cinema, chegando a interpretar figuras históricas como o ídolo do futebol Garrincha (1933-1983) nas telonas. No teatro, ele continua uma presença ativa. Atualmente está em cartaz com a comédia “TOC TOC – Obsessivamente Divertido” no Teatro dos 4, no Rio de Janeiro, onde a produção permanece em repertório até 18 de janeiro contando com humor e sensibilidade a história de personagens que convivem com transtorno obsessivo-compulsivo. E no mesmo palco, no dia 13 do próximo mês, André estreia ao lado da atriz Bruna Griphao a montagem “O dia seguinte”, comédia romântica inédita inspirada livremente no conto de Luis Fernando Verissimo (1936-2025). Em entrevista por telefone ao NEW MAG, o ator fala do trabalho no teatro, sobre contracenar com Ney Latorraca (1944-2024), da importância de projetos sociais em favelas, relembra ter sofrido agressões homofóbicas e faz uma declaração à esposa, a atriz Danielle Winits

Você está em cartaz com a comédia “TOC TOC”, que aborda de forma sensível e ao mesmo tempo bem humorada o Transtorno Obsessivo-Compulsivo. Como foi o processo de preparação para viver um personagem com TOC? Chegou a ver o filme espanhol que é uma versão de peça francesa?

Vi o filme espanhol há muito tempo, mas o processo que nos levou ao espetáculo foi totalmente coletivo, de criação em sala de ensaio. “TOC TOC” foi montado há dez anos, com direção do mesmo Alexandre Reinecke, que também é meu diretor agora. A comédia tem uma fórmula, um ritmo, e seguimos esse caminho. Não me inspirei muito no filme, não. Fui atrás do personagem mesmo, do original.

O que você aprendeu sobre o TOC que antes não sabia?

Descobri que eu tenho vários toques (risos). Muita coisa que a gente pensa que é TOC, na verdade, é só mania, mas algumas podem ser TOC mesmo. Na peça temos vários personagens com comportamentos diferentes. Um deles, por exemplo, é muito religioso e se benze o tempo todo. Também me benzo muito, não piso em buracos… São várias manias que a gente vai acumulando vivendo na cidade. Aprendi a lidar com isso e a entender o que é realmente TOC e o que é só mania.

“Vamp” está tendo um revival nas redes sociais, muitas pessoas relembram com carinho as cenas da novela, que contou com o saudoso Ney Latorraca no elenco. O que você acha sobre isso? Quais são as lembranças mais divertidas que você tem da época?

Acho muito legal esse revival. “Vamp” foi um dos trabalhos mais levados a sério feitos por adolescentes, nós tínhamos 14, 15 anos. O diretor, Fábio Sabag, que já faleceu, era um gênio e cobrava muita disciplina, estudo e dedicação. Aprendi muito com ele. Sobre o Ney Latorraca, tenho inúmeras lembranças. Sempre fui assistir às peças dele. Ele era referência para nós e extremamente generoso, dava toques, ensinava, ajudava. Eu era muito novo e ele já tinha uma estrada enorme.

Seu personagem Sandrinho, em “A Próxima Vítima” (1995), foi um marco na TV brasileira por ser um jovem homossexual em uma trama de horário nobre. Você já revelou ter sofrido agressões físicas nas ruas por causa desse papel. Como foi lidar com esse tipo de violência na época? O que essa experiência representou para você e na sua consciência social?

Foi uma pressão muito grande mesmo, tanto para mim, como para o Lui. Era 1995, e nós sofremos agressões, inclusive físicas. Em eventos, por exemplo, levamos até ovada. Mas, ao mesmo tempo, fomos muito amados. As pessoas lembram com enorme carinho do Sandrinho até hoje, muito por causa da relação forte entre ele e a personagem da Susana Vieira. Como cidadão, esse personagem só me ajudou. Sempre gostei de fazer papéis emblemáticos, que fazem o público pensar e diminuem a visão careta das coisas. O Sandrinho é um personagem ímpar na teledramaturgia.

O Lui Mendes, que fez par com você na novela, hoje tem um food truck. Você acha que o ator no Brasil precisa empreender e investir em outras áreas?

O Lui não tem só o food truck. Ele tem produtora, filmou uma série, já teve loja… ele é empreendedor. Também tenho minha produtora e já estou indo pro meu nono espetáculo. Penso que no Brasil todos precisam empreender, independentemente da profissão. Para o ator, especialmente. Quem está começando precisa entender que é importante preparar o futuro.

Você passou por dificuldades na sua vida antes de se tornar ator com carreira consolidada e reconhecido por todo o país. Você é religioso? De alguma forma a fé ajudou você a superar os momentos difíceis?

Sou bastante religioso. Tenho certeza absoluta de que a fé me ajudou, e ainda ajuda, a superar todos os momentos difíceis. Conheci o universo do candomblé lendo Jorge Amado em 1987, na adolescência conheci o budismo, mas exerço a religião católica, porque fui criado nela. A conexão com o sagrado é tão importante quanto estar vivo.

Você foi feirante e nasceu em uma comunidade do Rio de Janeiro. O que você acha das ações de grupos como Nós do Morro e AfroReggae? Como você vê o crescimento na TV de atores vindos de regiões periféricas do país?

Acho fundamental. Toda comunidade deveria ter algo como o Nós do Morro. Quando eu morava na Vila do João, lá em 1987, fiz um curso de Teatro do Oprimido com Augusto Boal, na associação de moradores. Isso mudou minha vida. Esses centros são essenciais e formam muita gente que está no mercado hoje. E a TV abriu muito espaço para atores da periferia. Isso é importante demais, oportunidade é o que todos precisamos.

Você e o ator Cassiano Carneiro estrelaram uma peça inspirada na canção “Vento no litoral”, do Renato Russo, intitulada “Aonde está você agora?”, que ficou anos em cartaz. Há algum projeto para você voltar a fazer a peça agora, 30 anos depois? E quais são os próximos passos na sua carreira?

Fico muito feliz com essa pergunta, porque “Aonde está você agora?” é um projeto pessoal meu. Eu mesmo encomendei o texto à Regiana Antonini. O Cassiano Carneiro é meu parceiro desde a Oficina da Globo. Fizemos anos de oficina juntos, antes mesmo de fazermos novelas como “Vamp” e “Renascer”. E, por coincidência, vou estrear um texto novo da Regiana no ano que vem, em janeiro. É um texto inédito, maravilhoso, chamado “O dia seguinte”, uma comédia romântica lindíssima. Quem vai dirigir esse novo espetáculo é o Rafael Ponzi, que também dirigiu “Aonde está você agora?”. Ele vai dirigir meu terceiro espetáculo. Quanto à peça antiga, não pretendo remontá-la agora. “Aonde está você agora?” eu só faria de novo se fosse no cinema, já não tenho mais idade para interpretar aquele rapazinho (risos).

Você é considerado um Don Juan, e teve relacionamentos que se tornaram conhecidos do público. Desde 2016, você está casado com a atriz Danielle Winits. Ela é a mulher da sua vida?

Com certeza. A cada dia que passa isso fica mais claro. A gente se ama muito e tem muita liberdade, de pensamento, de vida. Até falei com ela esses dias “caramba, a gente vai fazer 10 anos juntos”. Participamos do “Superchef”, vivemos muita coisa lado a lado. Sim, ela é a mulher da minha vida.

Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Instagram (imagem)

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