Sinfônica e suntuosa

novembro 1, 2025

Marisa Monte traz ao Rio turnê orquestral na qual revisita sua trajetória e reitera a relação criteriosa com seu ofício

Para um cantor, apresentar-se ao vivo acompanhado por uma orquestra sinfônica é uma prova cabal de talento. E a responsabilidade aumenta no caso de um artista pop. Tudo precisa estar sincronizado nos mínimos detalhes. O canto não pode ralentar o andamento e nem atravessar a melodia, num perfeito conluio de sonoridades, timbres, afinações e – por que não? – silêncios. Do alto de 36 anos de carreira fonográfica, Marisa Monte sai pela primeira vez em turnê com uma orquestra.

E, com a chegada da “Phonica” ao Rio de Janeiro na noite da última sexta-feira (31), a artista demonstrou não somente ser a mais competente cantora daquela geração que soltou suas vozes na virada entre as décadas de 1980 e 1990 como firma-se como dona de um dos mais burilados timbres femininos do país. E isso é corroborado no seu show orquestral, no qual é acompanhada por 55 integrantes sob a batuta precisa e vibrante de André Bachur, além do Quarteto Fantástico que ampara a ela e a seus violões, formado por Dadi Carvalho (violões), Alberto Continentino (baixo), Pupilo (bateria) e Pedrinho da Serrinha (percussões).

Tendo conciliado as facetas de intérprete e compositora a partir do seu segundo CD, “Mais” (1991), Marisa constituiu desde então um cancioneiro que a colocou em igual patamar a hitmakers  como Lulu Santos e Michael Sullivan. E os hits da artista estão, para deleite do público, entre os 27 números que compõem o roteiro, aberto com “Vilarejo” e “O que você quer saber de verdade”, pinçadas, respectivamente dos álbuns “Infinito particular” (2006) e do que traz a referida canção no título, lançado em 2011.

– A gente teve uma semana difícil – desabafou a cantora diante do público que lotou a Brava Arena Jockey, em referência à ação policial mais letal realizada no Rio de Janeiro quatro dias antes. – Somos muitos, muitos corações que não perderam a capacidade de amar e de sofrer pelo Rio – complementou, atacando em seguida com “Universo particular”.

A canção foi seguida por “Carnavália”, tema de abertura do álbum lançado pelos Tribalistas, trio formado por ela, Brown e Arnaldo em 2002. O show faz de fato um apanhado quase completo da discografia da artista, excluindo somente o álbum de sambas, “Universo ao meu redor” (2006), e incluindo apenas uma canção da leva de “Portas” (2021): “Feliz, alegre e forte”, lançada como single naquele ano, quando Marisa saiu em turnê.

Marisa Monte à frente da orquestra composta por 55 instrumentistas

De resto, Marisa abre o seu universo particular de canções que marcaram a vida do seu público – e a dela própria. Seu segundo álbum é representado por “Diariamente”, “Beija eu” e “Ainda lembro”; o terceiro, “Cor de rosa e carvão” (1994), por “Maria de Verdade”(numa bela introdução realçada por banjos), “Ao meu redor”, “De mais ninguém” e por “Maria de Verdade”, num arranjo orquestral dos mais suntuosos e vibrantes da noite.

Já o álbum “Crônicas e declarações de amor” é representado por “Amor, I love you”, com direito a vídeo de Arnaldo Antunes recitando Eça de Queiroz (1845-1900), “Gentileza” e “Não vá embora”. Comumente afeita a incluir algo inédito em seus shows, Marisa cumpre a premissa com “Sua onda”, lançada no início de outubro e muito bem recebida pelo público.

Desde “Tudo veludo’, show com que fez sua estreia solo nos palcos, Marisa sempre trabalhou com conceitos estéticos e artísticos. Com o passar do tempo, seus shows ganharam ares de grandes espetáculos. Desta vez, a artista mostra-se a serviço da música e de suas variantes que, no caso, englobam suas canções, seu canto e a sonoridade como um todo.

E a Marisa intérprete vem à tona em seis dos números: na supracitada “Diariamente”, de Nando Reis; “Magamalabares” (Carlinhos Brown), “Panis et circenses” e “Cérebro eletrônico” (num delicioso arranjo disco), ambas de Gilberto Gil (sendo a primeira com Caetano Veloso) – estas três representantes do álbum “Barulhinho bom” (1996) –, no samba-enredo ‘O canto das sereias” (única do álbum de estreia da cantora, “MM”) e em “Carinhoso” (Pixinguinha e João de Barro), gravada por Marisa para documentário sobre Paulinho da Viola.

Como dito, tudo está lá. E o que ficou de fora não compromete em nada o resultado: um espetáculo arrojado, preciso e precioso, e cujo proscênio traz uma cantora na sua plenitude. Marisa Monte pode ser sinfônica. E, para ficarmos na seara do ph, sua persona artística, forjada ao longo de 36 anos de uma carreira muito bem elaborada, é (sim)phonica e, com o perdão da expressão, ph*d@.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e imagens), Cria.mov (imagem alto)

Visão geral do espetáculo: artistas e iluminação a serviço das canções

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