Zeca Veloso carrega no sobrenome uma das heranças mais que simbólicas da cultura brasileira. No entanto, quem se aproxima de sua música percebe, logo nos primeiros acordes, que ele não está ali para perpetuar algo já sabido, mas para construir sua própria persona, plena de delicadezas e afirmações muito particulares. Sua trajetória ganhou os holofotes em “Ofertório”, projeto ao lado do pai, Caetano Veloso, e dos irmãos Moreno e Tom. Foi ali que o público se rendeu à música “Todo homem”, que se tornou hit e provou seu talento nato à composição. De lá para cá, Zeca optou pelo caminho da maturação silenciosa. Enquanto o mercado pedia pressa, ele escolheu o tempo da inspiração, ou melhor, o “tempo de Deus”, como ele mesmo define. O resultado dessa espera é o elogiado “Boas novas”. Mais do que um álbum de estreia, é um manifesto onde o artista mergulha em uma estética profundamente brasileira, consolidando-o como uma das vozes mais autênticas de sua geração. Agora, Zeca prepara-se para um passo desafiador: subir ao palco com o novo repertório. A estreia de sua turnê no Rio de Janeiro SERÁ NO PRÓXIMO SÁBADO (04 de abril), quando se apresenta no Queremos! Festival. Nesta entrevista exclusiva ao NEW MAG, o cantor fala da expectativa para o show, reflete sobre o rótulo de “nepobaby”, aponta para quais os nomes da MPB gostaria de dividir o microfone e revela se já sofreu preconceito por ser cristão.
Você fará a grande estreia de sua turnê nacional no Rio de Janeiro, em um momento em que o álbum “Boas novas” está sendo bastante elogiado pela crítica e pelo público. Como é levar esse repertório para o palco pela primeira vez? Como você encara essa nova fase que se abre na sua carreira?
Há um grande frio na barriga para esse primeiro show no Queremos! Festival. Isso acontece porque não temos muito tempo para ensaiar. Tivemos alguns encontros, mas os ensaios de fato ainda vão começar. O tempo é curto, mas os arranjos estão sendo escritos pelo Lucca Noacco, que trabalhou em “Desenho de animação” e “Carolina”, do álbum. O Kassin o trouxe para o projeto. Precisei viajar para cumprir alguns compromissos, e a banda começou a ensaiar sem mim. Eles já estão tocando o repertório. Será a primeira vez que subo ao palco para um show meu com banda completa. Nunca tive essa experiência de cantar com um som tão cheio, sendo que minha voz costuma ir para lugares mais delicados. Existe o frio na barriga, mas vamos dar o nosso melhor. Vai dar tudo certo.
Você foi pressionado para lançar seu primeiro álbum mais rapidamente, mas decidiu levar o tempo necessário para fazer “Boas novas” do seu jeito. Hoje, com o álbum pronto e bem recebido, você acha que respeitar o seu tempo acabou sendo fundamental para chegar nesse resultado?
Acredito muito no caminho espiritual da inspiração e da produção desse projeto, em todos os níveis. Foi um tempo necessário para que as ideias amadurecessem e para que eu também amadurecesse nesse processo. Assim consegui fazer o álbum como ele já apontava que seria. Foi o tempo certo das coisas, o tempo de Deus.
A geração Z tem consumido cada vez mais música brasileira, tanto lançamentos atuais quanto repertórios mais antigos. Como você enxerga essa adesão e esse interesse entre os mais jovens?
Vejo de forma muito positiva. É algo que buscamos. O álbum traz essa proposta de dialogar com a música brasileira, reunindo diferentes gêneros, épocas e referências. Há uma intenção clara de olhar para o Brasil. A música “Todo homem” tinha uma construção mais influenciada por uma estética americana, embora inserida em outro contexto no repertório. Já “Boas Novas” reforça esse olhar mais voltado para dentro. Apesar de “Todo homem” ainda ser a canção mais ouvida, existe esse caminho sendo construído.
Recentemente, um dos maiores sucessos no streaming foi o resgate que o rapper BK fez com uma música da Evinha. Na parceria com a cantora, ele trouxe de volta o clássico “Cacos de Vidro” e o apresentou a um novo público. Pensando nisso, você tem vontade de revisitar algum clássico da MPB e, se sim, com qual grande nome da música brasileira você gostaria de dividir esse encontro?
Sim, certamente, mas é difícil escolher um só. Colaborações com artistas que admiro são sempre muito bem-vindas, tanto com obras conhecidas quanto com joias menos exploradas. Seria um prazer gravar com Djavan e com Jorge Ben Jor. Eles e Tim Maia são referências importantes para mim.
Você faz parte de uma geração que inclui artistas como Tim Bernardes, Zé Ibarra e Dora Morelenbaum, que vêm se destacando nos últimos anos. Assim como seu pai integrou um movimento importante como a Tropicália, como você vê os companheiros de geração?
Acompanho todos. São amigos próximos e artistas que admiro muito. Considero todos grandes músicos. Estou seguindo um caminho próprio, mas estamos juntos nesse movimento. Aprendo bastante com eles.
No álbum “Noturno”, Maria Bethânia gravou “O sopro do fole”, uma música sua, e, posteriormente, você também lançou sua própria versão, com um desenvolvimento maior, incluindo uma outra parte da canção. Como você enxerga esse processo de revisitar e expandir uma obra que já havia ganhado a interpretação de uma grande cantora?
Compus a primeira parte entre 2020 e 2021 e enviei para ela em uma versão à capella, apenas com a melodia e a letra. Ela gostou muito e decidiu gravar. Ao preparar “Boas novas”, percebi que a música pedia uma continuação. Escrevi a segunda parte em um momento marcado pela morte de Marília Mendonça, o que influenciou o processo. A música ganhou esse novo trecho e acabou sendo a primeira que gravei no disco.
No show que virou álbum de Caetano Veloso com Maria Bethânia, o cantor incluiu um louvor em meio a um repertório que trazia temas ligados à diversidade religiosa, incluindo religiões de matriz africana, e até mesmo uma música em que ele fala do fato de ser ateu, como “Milagre do Povo”. Como você recebeu essa escolha do seu pai de incluir um louvor no show?
Foi uma escolha interessante e ousada. Havia certa resistência do público, mas isso faz parte da proposta. Sou cristão, mas não costumo cantar louvores nos meus shows. No contexto do show dele, essa decisão ganha ainda mais força, considerando sua trajetória artística. O resultado ficou muito bonito.
A atriz Isabelle Drummond comentou recentemente que já viveu situações de preconceito por ser evangélica no meio artístico. No seu caso, inserido no universo da música, já sofreu preconceito por conta da sua fé?
Já sofri preconceito sim. Em geral, acontece de forma mais velada, embora às vezes possa ser de maneira mais aguda. Essa tem sido a minha experiência.
Você já falou que está do lado de quem te chama de “nepobaby”. Olhando hoje, como enxerga esse rótulo: ele funciona mais como uma brincadeira, uma forma de cobrança ou também como uma responsabilidade de corresponder a uma trajetória familiar?
Vejo como uma mistura desses fatores. Existe cobrança, responsabilidade e também um tom de brincadeira. Encaro de forma leve. Reconheço que é uma grande oportunidade, acompanhada de uma grande responsabilidade.
Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e Elisa Maciel (imagem)





