‘Sem memória não se constrói um país’

outubro 17, 2025

Walter Salles fala do seu novo projeto no audiovisual e da parcimônia com IA, celebra a força do cinema e revela que a relação com seu ofício não mudou depois do Oscar

O cinema é antes de tudo um documento. O registro de um tempo e dos fatos que o legitimaram. Quando o olhar por trás da câmera é sensível e arguto, o cinema eleva-se à obra de arte. Assim é o cinema de Walter Salles.  É assim desde suas primeiras incursões pela sétima arte, em documentários sobre grandes da nossa música como Chico Buarque e Maria Bethânia, culminando na consagração com o Oscar de Filme Estrangeiro a “Ainda estou aqui” numa trajetória que inclui ainda obras-primas como “Terra estrangeira” e “Central do Brasil”. “Sem memória a gente não constrói um futuro”, constata o diretor nesta entrevista exclusiva e feita de forma presencial no Rio de Janeiro. Sim, o  diretor foi conferir, no Festival do Rio, o novo documentário de Mini Kerti, e NEW MAG pediu para fazer algumas perguntas e ganhou, de lambuja, a entrevista a seguir. O diretor que será homenageado neste sábado (18), pela Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, fala aqui de seu novo projeto, uma série documental sobre o craque Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, o Sócrates (1954-2011), e de suas ressalvas em relação à Inteligência Artificial, lamenta a polarização no país, aplaude a migração de atores à direção e diz que ter um Oscar não mudou a relação com seu ofício: “um músico continua se encantando com a música se ele consegue escutar a si”. E, sob esta ótica, Walter Salles é um maestro.

O fato de ter agora um Oscar mudou algo na tua percepção sobre o cinema e na relação com seu ofício?

Tento me escutar e manter-me fiel a mim mesmo. Isso não muda nada. O importante é você manter o respeito e o encanto pelo seu trabalho. É como na música: um músico continua sendo músico e continua se encantando com música se ele consegue escutar a si mesmo. Acho isso importante em qualquer forma de expressão artística, a começar pelo cinema. Estou tentando isso e tenho procurado ver grandes filmes.

Já está trabalhando num novo projeto?

Estou terminando um documentário sobre o Sócrates, que vai tratar também sobre democracia e, claro, sobre futebol.

Será um documentário ou uma obra de ficção?

Volto ao documentário e ao começo da minha carreira. Será uma série em capítulos.

“Ainda estou aqui” trata do resgate da nossa memória e da nossa dignidade enquanto nação. A ditadura desgraçou a América Latina como um todo. Como recebeu a notícia sobre a confirmação do assassinato do pianista brasileiro Tenório Jr pela ditadura argentina?

Conheci a história do Tenório graças ao cinema. O Fernando Trueba tem um filme chamado “Atiraram no pianista” que conta o que aconteceu. Alguns dias antes de instaurado o golpe na Argentina, já havia todo um aparato de uma milícia chamada Triple A (sigla para Alianza Anticomunista Argentina) já atuando e com a Operação Condor (que uniu as ditaduras do Brasil, Chile, Uruguai e Argentina) já instaurada por lá a partir da tomada do poder no Chile pelo (general Augusto) Pinochet. A partir dali, foi um efeito dominó. O governo na Argentina cai em 1976 e, quatro dias antes, Tenório Jr faz um show com Vinicius (de Moraes) e, naquela noite, sai do Hotel Normandy para comprar alguma coisa e nunca mais volta.

Essa confirmação tão aguardada traz alívio ou indignação?

Essa confirmação de que ele foi executado por forças que prenunciavam o golpe militar chega 49 anos depois e dá a essa história um fechamento que é ao mesmo tempo dilacerante e, por outro lado, nos mostra o que foi exatamente uma ditadura militar. É algo muito revelador também. Foi extraordinário ver o encontro entre as netas do Tenório e o cientista que recebeu os restos mortais dele (num evento no auditório do BNDES no Rio de Janeiro). Foi bonito ver a Vera Paiva (uma das filhas do deputado Rubens Paiva)  falando em nome dos desaparecidos numa noite coroada por um show em celebração à arte do Tenório. Foi emocionante ver Caetano (Veloso) e (Gilberto) Gil cantando “Soy loco por ti, America”, e Joyce (Moreno) que cantou lindamente também.

Precisamos, como no poema do Vinicius, velar os nossos mortos….

Sim, exatamente. Sem memória não se constrói um país. Sem memória a gente não constrói um futuro. E as netas do Tenório destacaram exatamente isso: a importância da memória e da democracia. Um país precisa traçar seu próprio destino, e é o que a gente está vivendo hoje no Brasil.

Você assistiu recentemente ao documentário “Três obás de Xangô”. O que tem te tocado mais no nosso cinema?

O “Três obás de Xangô” me deixou com vontade de viver naquela década e ainda mais na Bahia (risos), pelo fato de aquela sociedade ser porosa. Vivemos hoje num mundo tão binário! As pessoas recusam o que é levemente diferente. E no “Três obás” você tem exatamente o oposto: uma sociedade porosa que te leva a transcender daquilo que você é. É um filme extraordinário. É primeiramente sobre a cultura afro-brasileira e sobre três nomes incríveis (Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carybé). Enfim, é um filmaço que nos leva àquele tempo. O cinema tem um pouco disso: nos transporta a outros lugares que não o do tempo presente.

Inteligência Artificial te fascina ou te preocupa?

Nem uma coisa nem outra. Eu a uso muito pouco. Há pouco tempo fui pesquisar sobre um amigo que é escritor, para saber sobre seus livros, e a Inteligência Artificial me indicou livros que ele não havia escrito e falou que ele havia colaborado para jornais aos quais nunca colaborou. É preciso olhar para a IA com o pé atrás. É um pouco como a Wikipedia em que, a cada semana, alguém reescreve aqueles verbetes. Estamos num momento para relativizar as coisas. Precisamos saber se certas informações aconteceram ou não. A Inteligência Artificial vai nos trazer questões éticas e morais que achávamos que já estavam resolvidas. Vamos ter de rediscutir um monte de coisas e sempre duvidar dela. Vamos ter de atualizar aquela máxima: agora vai ser “Duvido, logo existo”. Estamos numa boa hora para isso.

Não foi utilizado nada de IA em “Ainda estou aqui” por exemplo…

Recusamos essa possibilidade para a reconstituição de época, justamente por se tratar da reprodução de uma época analógica. Tínhamos de respeitar o humano. Estávamos tratando até do viés político pela ótica do humano e pela do existencial. Não faria sentido usar IA num projeto em que optamos por usar Super-8 e 35mm para termos aquelas texturas. Não podia ser um filme que abraçasse a inteligência artificial.

Como vê o fato de grandes atrizes como Glória Pires e Juliette Binoche aventurarem-se agora pela direção de filmes?

Isso acontece no cinema desde lá de trás, desde os anos 1930, 40, 50 você tem atores extraordinários que vão para a direção. Na Argentina por exemplo você tem o Leonardo Favio, que é um grande diretor e que, entre os anos 1950 e 60, fez alguns dos melhores filmes daquelas décadas naquele país. Nos EUA isso é ainda mais comum. Gosto muitíssimo do primeiro filme do Sean Penn. Chama-se “The indian runner” e é baseado numa música do Bruce Springsteen, do álbum “Nebraska”, que, para mim, é o grande álbum dele.

O que te encanta exatamente nesse filme?

É um ótimo filme, extremamente bem dirigido e com atores extraordinários Foi nesse filme que vi pela primeira vez o Viggo Mortensen que é um talento incrível. Então, essa migração já vem de décadas e no cinema independente é muito mais comum, inclusive nos Estados Unidos.

A TV caminha para um futuro de mais interatividade. Como você vê o futuro do cinema?

Esta resposta merece um seminário que pode tomar no mínimo uns três dias (risos).

E o que diria àquele jovem que foi estudar cinema nos EUA e voltou ao país com a cabeça povoada por sonhos e ideias?

Diria a ele para assistir a mais e mais cinema!

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e reprodução/internet (imagem)

 

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