‘Quero ser dono da minha carreira’

janeiro 30, 2026

Armando Babaioff celebra a longevidade de "Tom na fazenda" e fala da sua construção como ator, do autoritarismo crescente e defende a cultura como item de primeira necessidade

O palco e Armando Babaioff estão amalgamados há tempos. Ele é aquele tipo de ator que vai fundo no que se propõe realizar. E nunca abandonou os palcos  — mesmo depois de alcançar reconhecimento em novelas como “Páginas da Vida”, “Ti ti ti”, “Sangue bom”, “Bom sucesso” e, mais recentemente, em “Dona de mim”, todas da TV Globo. Com uma carreira pautada pela independência artística, o artista acumula papéis em montagens premiadas e também se destaca como produtor de espetáculos. Entre eles, “Na solidão dos campos de algodão”, que contou com a direção de Caco Ciocler, e claro, “Tom na fazenda”, que completa 9 anos em cartaz em 2026. “Gosto de produzir meus trabalhos”, diz o ator em entrevista por telefone ao NEW MAG sobre a peça — e faz todo sentido. “Tom na fazenda” já foi apresentado na França, na Inglaterra, na Bélgica — só para citar alguns países — e está em cartaz até domingo (1º de fevereiro) no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, antes de seguir para outras cidades do Brasil. Na conversa, o ator também fala da sua preferência por atuar mais no teatro do que no audiovisual, lembra o nada fácil início da carreira e sugere de a indústria cultural brasileira  avançar para garantir mais oportunidades.

“Tom na fazenda” está prestes a completar 9 anos em cartaz, levando ao teatro mais de 200 mil espectadores. Você esperava que a peça ficasse todos esses anos em cartaz? Quais dificuldades você enfrentou no início e hoje foram superadas?

Na vida que tive, não esperava nem conseguir passar pela metade do que passei como ator. Venho de uma família muito simples. Comecei no teatro numa escola pública em Jacarepaguá, aos 11 anos de idade. Foi ali que tudo começou. Meus pais achavam a carreira de ator muito instável e diziam que não podiam me ajudar. Eles queriam que eu fosse militar, eu nunca quis. Como precisava estudar, falei: preciso fazer alguma coisa que pelo menos me interesse. Estudei na Faetec, me formei técnico em Construção Civil, cheguei a trabalhar por um ano na área. Mas o que eu realmente queria fazer era teatro. Viver isso que estou vivendo agora é uma coisa que foi plantada lá atrás. É muito tempo de uma vida dedicada a esse ofício, a esse trabalho, a essa coisa que sempre foi um sonho. Apesar de serem nove anos em cartaz, essa peça ainda realiza sonhos daquele menino de 11 anos. As dificuldades mudam de lugar, mas continuam existindo. O que posso dizer agora é que, depois de nove anos de estrada, a gente finalmente consegue um patrocínio, que vem do Ministério da Cultura e da Petrobras, através da Lei Rouanet. Isso faz toda a diferença. Antes, a grande dificuldade era circular pelo Brasil, viajar para cidades mais distantes e para o interior. Agora eu consigo sonhar com isso. Este ano, além do Teatro Carlos Gomes, a gente vai passar por 22 cidades dentro de um projeto de 30 cidades brasileiras. É uma turnê nacional, que sempre foi o meu grande sonho.

Como foi levar a peça a outros países e ser a primeira montagem latino-americana a ocupar o Théâtre Paris-Villette, em Paris?

Isso foi uma abertura de portas, não só para a gente, mas para o teatro latino-americano como um todo. No Théâtre Paris-Villette nunca tinha pisado uma peça latino-americana. Depois de “Tom na fazenda”, outros espetáculos acabaram vindo, porque se comprovou que existe interesse pelo teatro da América Latina. Na Bélgica, por exemplo, o diretor do teatro me disse que o que motivou o convite foi o fato de o espetáculo servir como uma resposta artística ao avanço da extrema-direita na Europa. Isso mostra que é um espetáculo que se comunica globalmente. E o mais interessante é que a peça não fala de política. Ela fala de humanidade. A gente se apresenta da mesma forma em Paris, em Bruxelas, no Reino Unido ou em São Luís do Maranhão, Belém, Fortaleza… A história se repete em todos os lugares.

Atrizes como Kelzy Ecard e Soraya Ravenle já participaram da peça, que hoje tem Denise Del Vecchio no elenco. Por que essa personagem despertou o interesse desses grandes nomes e como aconteceu o convite?

O texto é muito bom. Falando da arquitetura do texto, ele é muito bom. É um prato cheio para qualquer atriz. É um texto que melhora a gente como ator, porque nos obriga a olhar para dentro. Mas, na verdade, não fui eu que cheguei nessas atrizes. As atrizes é que chegaram no personagem. Isso acontece por afinidade, por pessoas que compartilham pensamentos parecidos. Sempre foi muito orgânico. A Denise Del Vecchio, por exemplo, é uma operária do teatro brasileiro. Me identifico muito com a consciência que ela tem do ofício e com a trajetória de vida dela. Nós fizemos juntos uma turnê de cinco meses pela Europa, com 45 apresentações em 27 cidades. Isso cria uma vivência muito única e fortalece muito o trabalho.

O espetáculo aborda a homofobia e a opressão dentro da família. Quando você começou a encenar a peça, Donald Trump ainda iniciava seu mandato e Bolsonaro nem havia sido eleito. Como você vê o avanço do autoritarismo nesses anos?

“Tom na fazenda” é uma esponja. De acordo com o lugar onde a gente apresenta, a peça ganha contornos diferentes. Em Edimburgo (capital da Escócia), um americano me disse que aquela história era exatamente a vida dele: ele teve que fugir de uma fazenda no interior do Alabama por viver numa família extremamente preconceituosa e homofóbica. Isso mostra que não é um problema só do Brasil. É uma questão mundial. O espetáculo não fala de política, mas a discussão do autoritarismo sempre vem à tona, porque ele fala de humanidade, de relações familiares, de opressão. Onde quer que a gente vá, essa conversa acontece.

Em “Tom na fazenda” você aparece completamente nu em cena, em um contexto dramático e extremamente delicado. Como você lida com a nudez no teatro?

Não é a primeira vez que isso acontece numa peça de teatro. É só uma cena e ela está num contexto muito agressivo, no sentido de desespero do personagem. Passa longe da sexualidade. É uma exposição do luto, do medo, do interior daquele personagem. Não é uma nudez gratuita. O público entende perfeitamente o porquê daquilo acontecer dentro da narrativa.

“A primeira noite de um homem”, dirigida por Miguel Falabella, foi um divisor de águas na sua carreira. Qual a importância dessa peça na sua formação artística e no reconhecimento que você conquistou a partir dali?

Quando você decide ser ator, precisa ser estrategista. Nunca tive acesso a cursos pagos nem a conexões. Meus pais não tinham como me ajudar. Aquela foi uma oportunidade que apareceu na minha frente e eu me agarrei nela. Eu usei “A primeira noite de um homem” para pavimentar a minha estrada. Sem cair no deslumbramento, sem cair nesse lugar de celebridade. Aquela experiência me ajudou a entender exatamente o que eu queria com essa profissão e como queria construir a minha carreira.

Você geralmente trabalha com diretores que tiram os atores da zona de conforto, como o próprio Falabella, o Rodrigo Portella, ou Caco Ciocler — que também são atores. Isso acontece propositalmente, é algo intuitivo para você ou mera coincidência?

É proposital, sim. Todos os projetos que eu participo eu produzo de alguma forma. O Caco dirigiu um espetáculo que eu produzi, o Rodrigo eu conheço há mais de 20 anos, fazemos parte da companhia Quantum, e “Tom na fazenda” veio como um resgate, um projeto autoral que construímos juntos. Gosto de produzir meus trabalhos, de pensar elenco, direção, figurino, cenário. Esses projetos são autorais, e a escolha de diretores que desafiam o ator faz parte dessa lógica de construção. Não é coincidência. É uma forma de garantir que o trabalho cresça, que a experiência do ator seja intensa e transformadora.

Você lida com a sua orientação sexual de forma aberta e honesta. Em algum momento teve medo de perder oportunidades profissionais por se assumir?

Sigo a minha coerência. Quando você tem coerência, ninguém questiona.

Falando especificamente sobre televisão, você acredita que atores LGBTQIA+, negros, indígenas e pessoas com deficiência ainda enfrentam dificuldades para conquistarem papéis de protagonistas? Como você vê esse movimento?

Antes de tudo, a gente precisa falar de indústria cultural. Cultura é dinheiro, é retorno financeiro. O Brasil é uma potência cultural com 200 milhões de habitantes. O que falta é investimento, estrutura e acesso desde a infância. As crianças precisam ter contato com teatro na escola. O teatro já discute todas as temáticas há milênios. O que a gente precisa é de suporte. O resto, os artistas fazem.

Você geralmente foca a sua carreira mais no teatro do que na televisão. Por que isso?

É porque eu quero ser dono da minha carreira. Não gosto de ser dependente das escolhas dos outros. Sou muito arredio, gosto de questionar as coisas, de provocar. Nem sempre os convites na televisão me permitiram explorar esse lado, que é coerente com o que penso. O teatro me dá liberdade. É a casa do ator, onde você experimenta, se aprimora e desenvolve ferramentas que depois usa na televisão e no cinema. No audiovisual, você precisa acertar, não há tempo de experimentar; no teatro, você tem repetição, tempo de pesquisa. Eu acredito que quanto mais eu repito, melhor ator eu me torno. E “Tom na fazenda”, mesmo depois de nove anos, é esse exercício constante: cada ator novo que entra me dá um estímulo, uma chance de olhar para mim e melhorar.

Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e reprodução / Instagram (imagem)

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