Prevenção necessária

novembro 30, 2025

A conscientização é essencial para frear casos de ISTs no Brasil, explica o psiquiatra Jorge Jaber em seu artigo desta semana

Temos destacado, neste e em outros espaços, a importância de dois fatores para a evolução da saúde pública brasileira: informações corretas, colhidas em fontes confiáveis, e maior envolvimento da sociedade com a questão – que, no final das contas, é de interesse geral. Acreditamos firmemente que transmitir conhecimentos sobre as enfermidades e suas causas e sintomas é um passo crucial rumo à prevenção, base de qualquer política para a área, e que somente com o engajamento coletivo, cada um contribuindo dentro das suas possibilidades, esse processo caminhará com mais celeridade.

Uma forma de se unir a esse esforço é colaborar com campanhas como o Dezembro Vermelho, que começa amanhã, Dia Mundial de Luta contra a Aids, buscando a conscientização sobre a doença e outras IST´s (infecções sexualmente transmissíveis), com ênfase, principalmente na necessidade de estimular o diagnóstico precoce dessas enfermidades. Em especial, da Aids, que, apesar da queda relevante no índice de mortalidade – de 5,7 para 3,9 por 100 mil habitantes entre 2013 e 2023 –, continua merecendo atenção, pois ainda apresenta índices preocupantes no Brasil.

Em 2023, por exemplo, tivemos cerca de 38 mil novos casos registrados e mais de 10 mil vidas perdidas no país – quase 30 por dia, portanto. Não há dados específicos sobre o perfil das vítimas nos últimos três anos, mas ao longo das mais de quatro décadas de epidemia, a maior parte delas estava na faixa entre os 20 e 49 anos, ou seja, adultos jovens ou de meia-idade, em sua grande maioria, homens. Pessoas, portanto, em plena idade produtiva, com muito a oferecer à sociedade, o que nos leva a outro impacto de uma doença perfeitamente evitável: o econômico.

Sim, além da dor por essas ausências precoces, as IST´s exigem recursos, tanto para o atendimento quanto para as campanhas de prevenção. Só em 2019, o custo estimado do tratamento de pessoas com HIV – ou seja, que convivem, sem sintomas, com o vírus – e com Aids – o estágio mais avançado da infecção – ultrapassou os R$ 2 bilhões. Os medicamentos antirretrovirais, indispensáveis para manter o HIV sob controle, respondem pela maior fatia dos gastos: só entre 2019 e 2022, eles representaram uma despesa de mais de R$ 6,6 bilhões aos cofres do Sistema Público de Saúde.

Poderíamos citar outros números, como os afastamentos do trabalho por licenças médicas ou aposentadorias precoces, mas seria desnecessário. A percepção da Aids como um problema de saúde pública já está enraizada entre nós, embora muitos ainda insistam em ignorar as medidas básicas de prevenção, como usar preservativo em relações sexuais não monogâmicas. Mais produtivo é pensar no que podemos, a nível individual ou coletivo, fazer para minimizar os efeitos desta tragédia, da qual, vale lembrar, não estamos totalmente livres.

O sexo seguro é uma resposta óbvia, e não se limita ao uso da camisinha, que, embora seja sempre desejável, não protege contra todos os riscos. Há medidas complementares de prevenção, principalmente no caso de pessoas sem parceiros fixos, como fazer exames regularmente, evitar, com vacina e outros métodos, infecções como as hepatites e, para casais recentes, discutir a conveniência da testagem para HIV e outras IST´s, para, aí sim, desfrutar de relações sexuais com tranquilidade, sem a sombra de uma doença que, mesmo não mais sendo uma sentença de morte, ainda provoca estragos.

Outro trabalho importante e acessível a todos é o de conscientização, e não somente divulgando o Dezembro Vermelho e informações sobre as IST´s – formas de contágio, prevenção e onde procurar tratamento, entre outros pontos. É preciso, também, lutar contra o preconceito que ainda envolve as pessoas que adquirem qualquer doença sexualmente transmissível. Pintadas como promíscuas, pouco confiáveis ou dadas à boemia e ao uso de drogas, elas não raro têm o equilíbrio emocional abalado, o que acaba se refletindo no próprio combate à infecção. Um círculo vicioso que é urgente romper.

Outra ação simples – e positiva até para portadores de outras enfermidades – é doar sangue. Nossos estoques estão quase sempre abaixo do desejado, especialmente nos tipos sanguíneos mais raros, e no final do ano, época de festas e viagens, a demanda costuma crescer por conta dos muitos acidentes de trânsito. A doação é segura, e útil tanto em casos de emergência quanto em cirurgias eletivas e tratamentos de rotina como os de anemias graves, câncer e problemas renais, entre outros. Um gesto de amor ao próximo e à vida, uma das muitas formas de apoiar a saúde pública no Brasil.

Jorge Jaber é psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina

https://clinicajorgejaber.com.br/novo/

Crédito da imagem: reprodução / Internet

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