‘Pessoas estão entorpecidas pela dor’

dezembro 10, 2025

Padre Júlio Lancellotti fala de novo projeto que reúne condomínios em rede permanente de apoio a pessoas em situação de rua em SP

Boas iniciativas merecem sempre um olhar atento — especialmente quando nascem de uma urgência social. Nesta quinta-feira (11), em São Paulo, será lançado o “Condomínio do Bem”, projeto capitaneado por Padre Júlio Lancellotti que aproxima condomínios, empresas do setor imobiliário e moradores das pessoas que vivem em situação de rua e enfrentam fome, frio e abandono.

Idealizado pelo sacerdote em parceria com Marcio Rachkorsky, advogado especialista em condomínios, o programa parte de um gesto simples: contribuições mensais, recorrentes e com total transparência, destinadas às frentes de atuação mantidas pelo padre — da padaria solidária a programas de educação, passando por acolhimento, cuidados básicos e redução de danos.

— O projeto todo tem três fundamentos: espiritualidade, saúde e educação — explica Padre Júlio em entrevista ao NEW MAG, que alerta: — A população em situação de rua em São Paulo aumentou, e é uma população cada vez mais atingida pelos efeitos de viver na rua.

O “Condomínio do Bem” mira não apenas o socorro imediato — essencial —, mas também reconstrução. Entre as ações previstas estão a produção diária de pães, formação profissional, apoio básico para sobrevivência, sala de aula para o ensino de jovens e adultos e ambientes de aprendizado, além de capela e instalações de bem-estar, acessadas por pessoas encaminhadas via Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Durante a conversa, Padre Júlio relatou também o que vive todos os dias: abordagens do poder público que, em vez de facilitar, criam novos obstáculos.

— Estávamos entregando um lanche no final da novena e fomos abordados pela Guarda Civil Metropolitana e pela Polícia Militar querendo saber se havia ordem por escrito para alimentar. Eles dizem que as pessoas estão na rua porque são alimentadas, quando na verdade elas são alimentadas porque estão na rua. — diz o padre, que completa: — O motivo fundamental de alguém estar em situação de rua não é um alimento. São muitos outros: desemprego, problemas na família, perdas, frustrações, conflitos.

Mesmo depois de tantos anos, ele admite que ainda se surpreende:

— A gente percebe a pessoa muito fragilizada, muito prejudicada, e não é perceptível o motivo. No fundo, aquela pessoa está entorpecida pela dor e por não encontrar quem os ouve.

O “Condomínio do Bem” nasce como um compromisso permanente — não uma campanha sazonal. Um movimento que convida a sociedade a se responsabilizar pelo que acontece “logo ali”, como diz o próprio mote do projeto: “Fora da sua casa, tem alguém com fome e com frio.”

Créditos: Bruno Nunes (texto) e reprodução / Internet (imagem)

Posts recentes

Antagonismo complementar

Artistas abrem no Rio de Janeiro individuais em que vão além dos limites impostos pela tela