Na adolescência, Diogo Nogueira acalentou o desejo de profissionalizar-se como jogador de futebol. Quis o destino que ele se firmasse em outro campo: o da música, com a qual convive desde que o samba é samba. Filho do cantor e compositor João Nogueira (1941-2000) – baluarte do samba de raiz no país – Diogo viu no quintal de casa grandes nomes da música, de intérpretes a compositores. Ele não tinha mesmo escapatória, e, para alegria de seus muitos fãs, a música o pegou de jeito. Com uma trajetória de quase duas décadas, Diogo é,aos 44 anos, referência no quesito e inspiração às novas gerações. Viajando o país para promover seu mais recente trabalho, “Sagrado Vol.2”, spin-off do álbum de 2023, ele aporta neste domingo (17), na Cidade das artes Bibi Ferreira, no Rio de Janeiro, com a “Grande Roda”,com a qual reaviva a memória do Clube do Samba, projeto que viu nascer também no quintal de casa. “Sou defensor da boa música”, explica o artista nesta entrevista ao NEW MAG. A seguir, Diogo fala do pai, de cujo convívio foi privado aos 18 anos, celebra a“ voz muito potente” de Sandra Sá, com quem divide uma das faixas do novo álbum, incensa a dedicação da amada, Paolla Oliveira, à Heleninha de “Vale tudo” e, labutando na TV à frente do “Diogo na Cozinha’ (GNT), fala do gosto pela culinária. “Sou sim um gourmand”, reconhece. A roda está aberta e todos são bem-vindos. Com a palavra, Diogo Nogueira!
O Clube do Samba foi criado pelo teu pai com o intuito de resgatar a música brasileira num tempo em que as discotecas davam as cartas. Tempos depois, você o resgatou num caminho crescente. Esperava esse acolhimento? O Clube voltou para ficar?
O Clube do Samba nasceu no quintal de casa, com meu pai reunindo amigos e grandes nomes da música brasileira no intuito de reforçar não somente a importância do samba como a da cultura brasileira. Eu e minha família, que tocamos juntos o Clube do Samba, fomos muito bem acolhidos pelos brasileiros e pelos cariocas, em particular, assim como meu pai foi lá atrás. E sim, o Clube do Samba, agora reconhecido como Patrimônio Cultural e Imaterial da cidade, junto com o projeto Clubinho do Samba, vieram para ficar.
Você volta à sacralidade do amor e suas múltiplas vertentes em seu projeto mais recente. Em tempos polarizados, é possível redescobrirmos o equilíbrio entre o sagrado e o profano, tão latentes na nossa cultura?
O sagrado e o profano caminham juntos. Não tem sagrado sem profano, não tem profano sem sagrado. Por exemplo, você vai com o seu amor à Grande Roda, mas lá vocês acabam tomando uma cervejinha, comendo uma comidinha gostosa depois… Essas coisas são costuradas pelo profano no sagrado.
O projeto traz a participação de Sandra Sá em uma das sete faixas. O que motivou a escolha de uma intérprete tão plural quanto ela?
“Coisas do Amor (Me Chama)” foi pensada em uma época que eu estava ouvindo muito Tim Maia. E a voz da Sandra, uma grande amiga de nossa família, era a única outra voz que eu conseguia ouvir nessa faixa além da voz do Tim Maia. Ela tem uma voz muito potente, uma voz com um suingue preto brasileiro, que se conectava muito com este samba.
Em quase 20 anos de carreira você se mantém fiel a si num mundo onde o consumo da música foi do analógico ao digital. Bater metas e número de acessos chega a interferir nas escolhas em relação à condução da sua carreira?
Sou defensor da boa música. Meus lançamentos são baseados em muita pesquisa, trabalho, buscando sempre trazer minhas raízes e as raízes do samba. Números de acessos são uma consequência.
Você mostra seu apreço pela culinária no Diogo na Cozinha e, num dos programas, disse preparar as receitas “no olho”. Como é a sua relação com a gastronomia? Você se considera um gourmand, por exemplo?
Eu adoro cozinhar e saborear um bom prato. A comida e o ato de cozinhar também estão ligados para mim a estar com minha família, com meus amigos, jogando papo fora, assim como é no programa. Gourmand, pelo dicionário francês, é aquela pessoa que gosta da boa alimentação e come por prazer. Então, sou sim um gourmand.
Paolla Oliveira é uma atriz que se supera a cada novo desafio e está brilhando como Heleninha. Como avalia a relação dela com o ofício? Você chega a bater o texto com ela e a dar pitacos?
A Paolla faz tudo que se propõe a fazer com muita energia e amor. Inspiro-me muito nela. Nossa rotina, com meus shows e as gravações dela, é bem corrida, mas sempre que estamos juntos conversamos e assistimos juntos aos capítulos da novela.
Você tinha 19 anos quando seu pai partiu. Houve algo que gostaria de ter vivido juntamente com ele e que não foi possível? Você o evoca em momentos mais reflexivos ou de solidão?
Quando eu era mais novo, a morte do meu pai era algo muito difícil para mim. Eu sofri muito. Hoje, já consigo compreender a passagem dele por aqui, entender que era o tempo que ele precisava para cumprir sua missão na Terra. Hoje, ele está presente de outra forma. Carregamos ele na memória.
De “Carcereiros” para cá, você fez incursões pela arte de interpretar, sendo convincente e bem-sucedido. Pensa em investir mais neste filão?
Eu sempre gostei muito de cinema, televisão e artes cênicas. Recentemente, atuei na série “Desejos S.A” e adorei. Se novas oportunidades aparecerem, por que não, né?
Você já foi presenteado com canções inéditas por grandes nomes do samba e da MPB, como Chico Buarque e Ivan Lins. De quem gostaria de receber uma canção e que ainda não foi possível?
Pergunta difícil de responder… Tenho alguns nomes dos quais gostaria não somente de receber canções como de ter suas participações em projetos. Quem sabe em um próximo lançamento?
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Bruna Sussekind (imagem)





