O Síndico tá ‘on’

março 10, 2026

Musical sobre Tim Maia volta à baila em novo formato e reacende farol luminoso sobre o saudoso cantor

Uma obra não exatamente acaba quando nela é colocado o ponto final. O autor pode  reescrevê-la. Ou até mesmo recriá-la. Isso comumente ocorre na literatura, mas pode se dar no teatro. É o que se dá com “Tim Maia – Vale Tudo, o musical”. O espetáculo, que aporta agora no Teatro Casa Grande, Rio de Janeiro, após temporada em São Paulo não é mais aquele que viajou o país a parir de 2011. Concebido a partir da biografia homônima sobre o cantor escrita por Nelson Motta, a encenação, desta vez dirigida por Pedro Brício, volta à cena com novos formato e proposta.

Se a dramaturgia original, desenvolvida pelo próprio Nelsinho, alternava música e fatos biográficos (muitos deles anedóticos) do personagem-central, a de agora apresenta o cantor sob a ótica de um doc-musical, num roteiro mais pautado por flashes e fragmentos da vida do artista e no qual a música é seu principal pilar de sustentação.

Os episódios anedóticos (e Tim era mestre neles) estão lá e foram (alguns) condensados num quadro cujo cenário traz letreiro com a inscrição “Tim Maia Comedy Show”. O cantor era um piadista nato, mas esta é apenas uma das facetas daquele que era (e ainda é) o dono de uma das mais importantes vozes masculinas da nossa música. E, através dela, imortalizou canções (dele e de outros autores) nas quais injetou doses cavalares (amém) de ritm n’ blues, legitimando uma sonoridade que abriria alas para o surgimento, nas décadas seguintes, do pop e do funk no país.

Emocionante: o dueto entre Elis (Elá Marinho) e Tim (Thór Junior) em “These are the songs”

A música de Tim Maia tem, nesta nova proposta dramatúrgica, o mesmo peso de seu personagem, a quem somos apresentados já no prólogo, da mesma forma que a seu intérprete, o excelente Thór Júnior, sobre quem já falamos aqui. O ator deixa claro que vai celebrar o legado do seu personagem, e esta é uma das premissas do espetáculo.

O espetáculo decola (e voa alto) a partir da cena na qual Cassiano (Dennis Pinheiro) mostra a Tim “Primavera (Vai chuva)”, primeiro sucesso do artista e marco inicial da injeção de soul na MPB. A cena é emocionante e seguem-se a esta outras tão cativantes quanto, muitas delas pautadas pela música – e nos encontros promovidos por ela entre o cantor/compositor e seus colegas de ofício.

Outro momento memorável é o do dueto de Elis Regina (Elá Marinho) com Tim em “These are the songs”, imortalizada no LP “Em pleno verão” (1970). E o roteiro elenca ainda encontros com Roberto Carlos (Tiago Herz), primeiro a gravar uma canção de Tim (“Não vou ficar”); Gal Costa (Mari Rosinski), ao lado de quem Tim gravaria “Um dia de domingo”, da safra Sullivan e Massadas; Sandra Sá (Suzana Santana, com quem canta “Vale tudo”) e Marisa Monte (Júlia Gorman) que, ao incluir “Chocolate” no repertório do seu show de estreia, “Tudo veludo”, foi peça importante para o resgate do cancioneiro do artista a partir dos anos 1990.

O aguardado encontro com Gal (Mari Rosinski) no Chacrinha, após forfait do cantor na gravação para o Fantástico

Na seara dos grandes encontros, outro momento emocionante é o que trata da realização de um antigo sonho de Tim: o de cantar, já no fim da sua vida, com Os Cariocas, conjunto vocal que, na virada dos anos 1950 para os 60, fez a cabeça de uma geração de jovens amantes da modernidade trazida pela bossa nova.

O musical faz jus ao bordão de ser “diversão garantida”, sem a necessidade de pedir o dinheiro de volta. Da mesma forma que não é preciso clamar por “graves, médios” nem agudos. Eles estão todos lá, nas pungentes vozes de um elenco que diz a que veio. A esse show, eles não podem faltar, não é mesmo?

Se a proposta da nova versão de “Tim Maia, Vale Tudo: o Musical” é a de celebrar a música e o canto primorosos de um dos maiores cantores brasileiros, ela se cumpre à risca. E vale – muito – assistir.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Cristina Granato (imagens)

Nelson Motta entre os netos Joaquim e Marina e a mãe deles, sua filha Joana
Carmelo Maia, filho de Tim, entre Liliana Rodriguez e Gottsha

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