Johnny Massaro vive momento de grandes – e boas – expectativas. E marca, este ano, dupla presença no Festival do Rio. Ele assina roteiro e direção de “Consolo”, curta que parte de uma situação inusitada para discutir masculinidade, sexualidade e os tabus que ainda cercam esses temas. Já na série “Delegado”, ele interpreta um jovem cujo idealismo é colocado à prova ao assumir uma delegacia na periferia do Recife.
— “Consolo” tem um olhar debochado sobre determinadas construções do masculino, e torço para que possamos, com isso, questionar cada vez mais os homens sobre como se conciliar com o feminino e com nós mesmos — pontuou Johnny na última segunda-feira (05), quando os dois projetos foram apresentados no festival.
“Consolo” acompanha Manoel, taxista que encontra um consolo sexual na sala de casa em pleno Carnaval. O objeto, ainda melado e de tamanho considerável, desencadeia uma jornada tragicômica que abala seu imaginário e sua masculinidade. O elenco reúne Emílio de Mello, Lara Tremouroux e Clarissa Kiste. Para Johnny, a sexualidade ainda carrega conflitos que merecem ser observados com atenção:
— Recentemente vi uma frase maravilhosa que me marcou: o sexo já é um tabu vencido, e o próximo tabu a ser vencido é a morte. Essa deve ser a minha próxima temática. Mas antes disso, nessa questão da sexualidade, talvez sobretudo a masculina, considero que muito do horror que visitamos hoje vem de uma perversão da energia masculina, de uma não conciliação com essa energia — observa.
Ao falar sobre o próprio olhar atrás das câmeras, Johnny também evita estabelecer antecipadamente o que pretende provocar no público. O diretor prefere manter aberto o espaço para a descoberta.
— Estou buscando esse olhar, na verdade. Não gostaria de determinar o que se pode esperar, porque eu mesmo não sei o que posso esperar. Melhor do que esperar, eu quero me surpreender com o que pode ser.
Na série “Delegado”, que estreia no dia 30 deste mês no Canal Brasil, o artista encara um desafio diferente. Na produção, ele é Felipe, jovem de classe média que assume uma delegacia disposto a executar seu trabalho com correção. Aos poucos, as contradições da instituição, os métodos da equipe e a ascensão de um novo líder do tráfico colocam seu idealismo em xeque.
A preparação começou há cerca de quatro ou cinco anos, em um processo conduzido por Leonardo Lacca, diretor da série ao lado de Marcelo Lordello. Entre os trabalhos realizados, a construção do sotaque pernambucano, já que Johnny era praticamente o único ator do Sudeste em um elenco majoritariamente nordestino.
— Fizemos um trabalho de fato de alfabetização desse sotaque e visitamos delegacias de polícia. Estava contando recentemente que conheci o responsável por uma delegacia, que era bailarino e hoje é delegado.
A pesquisa também ajudou o ator a compreender as contradições de Felipe, personagem idealista que passa a ocupar uma posição de autoridade:
— O meu personagem é um cara supersensível, idealista, mas que vai parar numa delegacia e ser responsável por ela. Ele vai ter essa contradição entre as expectativas e a realidade.
Apesar da narrativa estar concentrada em Pernambuco, Johnny acredita que a série consegue ultrapassar o recorte regional ao abordar questões que dizem respeito ao país como um todo.
— Mais do que esse recorte da cultura nordestina em si, desejo que a série seja muito mais do que isso, porque ela fala de um Brasil muito profundo, com todas essas camadas, que obviamente estão concentradas nesse recorte escolhido, a delegacia em Pernambuco, mas que transcende esse lugar — arremata.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e Claudio Andrade (imagem)





