O carisma de um ator pode cativar o público. Mas para um artista ser de fato abraçado pela audiência ele precisa de outros atributos. A perspicácia é um deles. Conhecer as minúcias da personagem é outro. E Chay Suede é aquele ator para quem enxergar a coloratura de um papel é mais do que um recurso de construção; um prazer – para ele e para o público. Esta alquimia é evidente a cada novo papel do ator na TV – e seus fãs contam os dias para vê-lo na pele do advogado Pedro em “Quem ama cuida”. E ela se dá também a cada vez que ele sobe ao palco do Cultura Artística, em São Paulo, para apresentar o solo “Peça infantil – A vida e as opiniões do cavalheiro Robert Chay”, dirigido por Felipe Hirsch a partir da dramaturgia desenvolvida por este juntamente com Caetano W. Galindo. “O que a gente quer é ser conquistado pela personagem”, explica Chay, por telefone, nesta entrevista ao NEW MAG. A seguir, o ator fala do desafio de estreear no teatro com um projeto arrojado, celebra a parceria com Letícia Colin na próxima novela das 21h, opina sobre novela vertical, confessa a timidez diante do ídolo Caetano Veloso e revela se pretende seguir no cinema os passos de colegas como Wagner Moura. “O que quero é ter bons personagens”, desconversa.
Você encara o palco sozinho, em quase duas horas de peça, com um texto cujo discurso é rebuscado. O que foi mais difícil neste processo?
Colocaria dois níveis de dificuldade. O primeiro deles foi o de decorar o texto, por se tratar de um texto difícil e caudaloso, com quase 50 páginas de texto corrido, imagina só. Isso me levou a uma técnica para decorar, diferente da que uso nas novelas e no cinema. Não existe exatamente uma regra, existem atalhos. Uma preocupação constante foi a de dar sentido às sentenças e à construção das imagens trazidas pelo texto. É preciso permitir que o público tenha uma construção visual e isso se dá em diferentes níveis na cena. Existem as imagens faladas e as visuais, e todas elas têm de ser compreendidas.
Sim, o espectador se depara com duas narrativas: a falada e a que é exibida nas imagens do cenário da Daniela Thomas, uma criadora e diretora incrível. O que foi mais rico no contato entre vocês?
Tivemos muito contato em “O banquete” (filme dirigido por Daniela e lançado em 2018) e ficamos muito próximos. E quando o Felipe (Hirsch) sugeriu o nome dela para o cenário da peça, acatei na hora. A Daniela é muito objetiva naquilo a que se propõe e, já no começo do processo, estabelecemos que a narrativa seria a que é apresentada, sem uma disputa entre o que é dito e o que é exibido no cenário. O texto exige atenção, e o cenário não poderia roubar a atenção do público, e isso foi ventilado desde as primeiras conversas, com a Daniela conseguindo um equilíbrio interessante entre essas duas forças.
A peça mistura fatos biográficos reais a ficção. Nesses tempos em que notícias falas pululam nas redes sociais e no whatsapp, esse jogo deve ter sido divertido, não?
Essa é a intenção da gente. Queríamos fazer uma pseudo-ficção, um pseudodocumentário. A ideia era fazer também da minha imagem um material dramatúrgico, que se desenrola e ganha novos contornos. Isso em andamento com a narrativa, que leva à cena um estilo de obra literária. Esse processo foi todo muito rico e, através dele, chegamos a um resultado estético do qual gosto muito.
Pessoas próximas sugeriram mudar o nome da peça por implicarem com Peça Infantil. O que fez com que a ideia original prevalecesse?
Sim, houve toda essa discussão. A ideia do título surgiu lá no início do processo, é anterior à ideia da peça. O texto foi sendo escrito, novos caminhos surgiram, e o título sobreviveu (risos) e ganhou novos contornos.
E você concilia as apresentações com as gravações de Quem ama cuida. O que o Pedro, seu novo personagem, te traz de mais desafiador e instigante?
Ele é um personagem muito interessante. Ele tem adoração pelo pai (papel de Antonio Fagundes), um grande advogado em São Paulo. Ele segue a carreira do pai e, quando os dois passam a trabalhar no mesmo escritório, ele descobre facetas do pai que desconhecia. Eles quase brigam e se afastam, e isso passa a ser um dos dilemas na vida dele, o de buscar o equilíbrio entre essas duas vertentes do pai com as quais ele tem de lidar.
A Letícia Colin, seu par na novela, é muito aguerrida em tudo o que faz. Ela é aquela colega que te desafia ou é sua comparsa na cena?
O sarrafo da Lelê é alto, e ela consegue estabelecer esse padrão no ambiente onde ela trabalha. E ela faz isso por ser generosa com os colegas e por querer da gente também o melhor. A troca com ela se dá de forma genuína. Ao mesmo tempo em que ela se impõe desafios, ela provoca algo novo nos atores, e isso mexe com tudo na cena. Ela quer ver o colega desempenhando o seu melhor, e a gente vai se puxando. Ela é das atrizes que mais admiro hoje.
Mavi, seu personagem em “Mania de você”, foi rico em nuances e em camadas. O que um personagem precisa trazer para te conquistar?
Quando começo a desempenhar um papel, fico muito disponível àquele personagem. Fico aberto à possibilidade de ser conquistado pelo personagem. O que a gente mais quer é ser conquistado pelo personagem. Um bom texto traz informações subliminares, são cores invisíveis e o ator as vê com óculos 3D. Gosto de ver o que ninguém vê. O ator cria juntamente com o autor o que o personagem pode ser. As nuances podem te levar às improbabilidades, a esse lugar do inesperado. Gosto quando o personagem lida com conflitos, e o público gosta também.
A novela vertical te atrai como meio de expressão?
Muito. O melodrama me interessa, mas a novela não pode existir apenas como um melodrama achatado. Não se trata somente do recorte da tela. O formato precisa ser interessante para o expectador. não basta verticalizar fisicamente e ter uma trama insossa.
Você é muito fã do Caetano. Já pensou em fazer um trabalho ligado a ele ou a partir do cancioneiro dele?
Nunca pensei nisso! O fato é que fico nervoso quando estou perto dele. Uma vez passamos uma madrugada conversando na casa dele, e falamos sobre tudo, sobre cinema, assunto que ele conhece bem, e sobre novela, do que ele também gosta. Caetano é muito inteligente e capaz de conversar sobre tudo e com muita liberdade.
Rodrigo, Wagner e Selton seguem caminhos no cinema internacional. Pensa em investir nesse filão?
Penso como uma possibilidade para os próximos anos, quem sabe? Não estou em busca deste objetivo e ele nem é uma prioridade. O que quero é ter bons personagens que possam me levar a isso. O projeto em si me interessa mais do que a carreira internacional.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Gabriel Garol (imagem)





