‘Nunca briguei com nenhuma cantora’

setembro 12, 2025

Nelson Motta brilha como DJ e fala de suas paixões e colaborações, que vão do jornalismo à música, e revela projeto sobre Anitta

Se um gato tem sete vidas, Nelson Motta tem muitas mais. Nelsinho, como é conhecido, injetou dinamismo e jovialidade no então engessado jornalismo cultural, provocando mudanças definitivas por onde passou, do jornal impresso à TV. Não satisfeito, abriu frentes na música – como letrista de parceiros como Dori Caymmi e Lulu Santos , na literatura e na indústria fonográfica, produzindo álbuns de nossas mais importantes cantoras. Quando tudo parecia estagnado, enveredou pela dramaturgia teatral.  E, aos 80 anos, mostra-nos duas outras facetas na seara musical: a de curador do Festival Doce Maravilha, cuja terceira edição acontece no fim deste mês e a de DJ. Ele comanda as carrapetas,nesta sexta (12), na festa Noites Tropicais.   “Vejo que o DJ tem o poder na ponta dos dedos”, reconhece ele, o cara por trás do lendário Frenetic Dancing Days. Em entrevista ao NEW MAG, ele conta histórias – e faz isso como poucos – que envolvem desde o grupo Secos e Molhados ao Jornal Hoje, indelével na grade da TV Globo. E fala, claro, das cantoras, de Elis Regina (1945-1982) a Anitta, passando por Maria Bethânia a Marisa Monte. “Não me interesso mais pela entrevista em que a pessoa fica falando da própria vida”, revela ele, fio-condutor da vida inteligente à TV brasileira. Bom, tomara que ele goste desta.

E não é que Nelson Motta tem aos 80 anos um novo barato: discotecar?

E esse barato aconteceu por acaso, como tudo na minha vida. Patrícia Parenza inventou uma festa para 50+ em Porto Alegre e me chamou para tocar. Eu tava quieto no meu canto, mas ela veio com o papo de que seria só meia horinha e que rolaria uma graninha… O que isso pode ter de ruim? Topei e o mais legal: tomei gosto. E olha que nunca gostei de dançar. Nas vezes em que trabalhei na noite, ficava na cabine do DJ, mas tive um tremendo professor: Dom Pepe, o DJ dos DJs. Fomos amigos desde os meus dez anos. Ele foi pioneiro juntamente com Ademir e Big Boy, todos craques. Hoje, vejo que o DJ tem o poder na ponta dos dedos.

African Bar: você, Dom Pepe e Liège Monteiro formaram um power trio. Qual a lembrança mais marcante dessa época?

A casa funcionou por apenas quatro anos e virou lenda. A proposta veio do Alberico Campana, meu amigo desde os tempos do Beco das Garrafas. A casa era ótima,u m antigo restaurante na Venâncio Flores. No primeiro andar, fizemos um piano bar decorado com bambus e panos com estampas de zebras, tigres e leopardos. Brincávamos que o estilo era african-normando (risos). No segundo andar ficava a pista. Foi pelas mãos do Dom Pepe que o samba-reggae chegou no Rio. Ninguém sabia o que era. Tínhamos ainda percussionistas que acompanhavam as músicas ao vivo. As pessoas piravam. Vou usar percussionistas também na festa de hoje.

Qual a maior loucura feita ou vista na época do Frenetic Dancing Days?

Certamente foi esquecida devido ao meu estado (risos). A casa funcionou por apenas quatro meses e virou a lenda das lendas. Cazuza era menor de idade e ia. Dizia que o João Araújo (pai de Cazuza) iria me matar, e ele desdenhava. Não tinha isso de dia mais fraco no Dancing. A casa lotava de domingo a domingo. O ingresso era acessível, e a casa enchia. O patrão e o empregado se encontravam ali. Juntamos todas as tribos num lugar só. Chegou a um ponto em que as pessoas iam para ver as Frenéticas. O show das meninas tinha apenas quatro músicas, que eram repetidas para satisfazer o público, e o show cresceu. As meninas gravaram e estouraram.

A curadoria do Doce Maravilha mostra, no melhor dos sentidos, o quão eclético é o seu gosto musical. Caretice não tá mesmo com nada, né?

Com nada! Essa ideia foi pensada por mim juntamente com o Luiz Oscar Niemeyer, amigo querido e parceiro em muitos outros projetos. O plano era o de realizarmos um festival só de música brasileira. Sempre defendi que a maior qualidade da nossa música está na diversidade. O plano original era o de o festival acontecer nos anos 1990, quando a MPB estava renascendo, mas a ideia ficou guardada esses anos todos. A primeira edição foi aquele susto: caiu aquela chuvarada causando vários transtornos. A segunda edição, no Jockey, foi melhor. Choveu também, mas estávamos preparados. Foi só Maria Bethânia entrar no palco para parar de chover.

Falando nela, “Noite de um verão de sonho”, parceria com Xixa, sua mãe, é das coisas mais lindas já feitas por você na música. Como a canção chegou na Bethânia?

Fui pego de surpresa. Minha mãe era próxima da Tia Léa (a empresária Léa Millon), que cuidou dos baianos todos. A música foi mostrada a ela, que providenciou a gravação e levou a fita à Bethânia e ao Waly (Salomão). Certo dia, minha mãe me disse que Bethânia iria gravá-la. Duvidei e me surpreendi. O jeito como a canção foi sentida por ela me comoveu muito.

Há um folclore em torno de “Bem que se quis” que teria sido mostrada primeiramente à Marina. Fato ou lenda?

Essa história vai ainda mais longe: quem primeiro me pediu essa versão da música do Pino (Daniele) foi a (cantora portuguesa) Eugênia Melo e Castro. Comecei e não terminei. Eugênia gravou o disco sem a canção. Tempos depois, por alguma razão,  terminei. Mostrei à Marina que gostou, mas achou a canção com um apelo muito comercial.

E aí foi mostrada a Marisa Monte?

Que gostou dela de cara. E a Marina não só adorou a gravação da Marisa como foi a peça-chave para a canção estourar no país. Ela sugeriu a Lúcia Veríssimo que a usasse como tema da sua personagem na novela “O Salvador da Pátria”. A Lúcia empurrou a gravação goela abaixo no (diretor de TV) Paulo Ubiratan. A música tocou adoidado na novela.

Vem dessa leva a de Veleno, gravada pela Marina em “Fullgás”?

Essa música me chegou num momento engraçado. Estava numa boate em Roma quando, no fim da noite, começou a tocar uma canção antiga, com o propósito de expulsar as pessoas dali. Achei a canção belíssima e me senti como em “La Dolce Vita” (risos). Procurei saber que música era aquela. Fiz a versão e mostrei primeiramente à Gal (Costa),que implicou com o verso que diz que “meus seios têm todo um veneno”. Levei então à Marina, que deixou a música ainda mais bonita.

Carlos Lira, que era um frasista gaiato, dizia que, entre um terrorista e uma cantora, é mais fácil negociar com o terrorista. Cantoras são de fato difíceis?

Trabalhei com várias delas e, creia, nunca briguei com nenhuma. E olha que trabalhei com Elis Regina, hein! E a aproximei do Tim Maia. O plano era o de ele mostrar algumas canções, mas o que aconteceu? Ela ficou louca pela voz dele e quis o dueto (em “These are the songs”),o que foi importante para ambos.  Nesse tipo de trabalho, deixo meu gosto pessoal de lado e sigo uma cartilha pautada pela humildade e pela paciência. O álbum não é meu, mas da cantora, e isso é uma cláusula pétrea. E o produtor tem de agir como um samurai, defendendo a artista de todos os perigos.

Nelsinho na época do Hoje

Indo agora para a TV,na época do Hoje, aos sábados, vocês não chegavam à emissora tão cedo, e Alice Maria ameaçava proibir vocês de saírem na sexta à noite, e você mandava essa: Não proíbe que é pior… Fato ou lenda?

Não lembro se falei isso, mas poderia. Alice Maria era uma profissional muito competente e muito rigorosa. Ela  tinha de lidar comigo, com Scarlet (Moon), com Marisa Raja Gabaglia e Marcia Mendes: todos jovens e loucos, imagina você…

Você e Scarlet instauraram na TV o bate-papo descontraído quando o país vivia sua abertura política. Hoje há mais show do que talk na TV?

Hoje a oferta é imensa, e você precisa peneirar para encontrar algo com qualidade. Não me interesso mais pela entrevista em que a pessoa fica falando da própria vida, mas por debates em torno de fatos políticos ou das hard news. É isso que me interessa hoje na TV.

Você que veio do Manhattan Connection, como vê hoje atrações como o Papo de Segunda?

Adoro o “Papo de segunda”e todos os que passaram por lá: Porchat, Emicida, João Vicente… Adoro o Chico Bosco, um cara cabeçudo, poeta e filósofo, capaz de falar sobre tudo com propriedade e de um jeito palatável. Sou fã.

Você viajou no avião do Roberto Carlos e entrevistou Bethânia na casa dos pais, em Santo Amaro. O quão longe foi por uma pauta?

Até a Cidade do México. Era 1973 e quis registrar por lá o show do Secos e Molhados (grupo que revelou Ney Matogrosso). Era a consagração internacional de um grupo revolucionário. Vendi a pauta ao Fantástico e lá fui eu.Encarei 17 horas de viagem. Não havia internet, celular, e as pautas eram feitas ainda em película e tinham de ser levadas à emissora. E encarei outras 17 horas de viagem na volta. Foi uma loucura A Marília (Pêra, sua mulher na época) quis me matar (risos).

Perdia a notícia e não perdia a amizade?

Esse sempre foi meu lema. Nunca fui obsecado pelo furo de reportagem. Preferia requentar um assunto a me indispor com alguém. Minha qualidade estava na forma como a notícia seria dada.

Na época em que o diretor de palco Pepe morreu, alguns veículos de imprensa se referiram a ele como Dom Pepe num sinal de que o jornalismo cultural começava a dar sinais de descuido. Como vê o futuro do jornalismo cultural?

(Nelsinho fica em silêncio) O grande lance é não descuidar da qualidade. Há muita oferta, demanda, os tempos são outros e vão mudar. O lance é o de atentar para a qualidade do trabalho.

Você fala muito nas tuas crônicas sobre a desconstrução do machismo em razão de ser pai de mulheres. Como vê iniciativas para a desintoxicação do homem?

Gosto de ver pelo viés da comicidade. Adoro essa série do Fábio Porchat em que ele contracena com o Rafael Portugal vestido como um pau. Os dois brilham, e a proposta é muito didática. A mudança na mentalidade é gradual e lenta. As novas gerações já nascem mais descontaminadas, e a tendência é a de o machismo se diluir com o tempo.

Glauber e Tim Maia nos livros, Simonal e Tom Jobim no teatro.. Qual história falta ainda contar?

Quero falar do funk carioca. Penso num musical que passe pelo Mr.Catra, um personagem interessantíssimo, e culmine em Anitta e em Ludmilla.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e reproduções/internet (imagens)

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