‘Novela não é para um nicho’

dezembro 5, 2025

Brilhando como Nara Leão nos palcos, Zezé Polessa fala sobre a musa da bossa nova, a vitória no processo contra um jornalista e como imagina a TV do futuro

Atriz de interpretações intensas e marcantes, Zezé Polessa mergulha de corpo e alma em tudo o que faz. Atualmente está em cartaz em São Paulo com a peça ‘Os olhos de Nara Leão’, um musical dirigido por Miguel Falabella, em que, sozinha em cena, dá vida a um dos maiores nomes da música brasileira. Por conta da entrega no palco, como atriz e cantora, optou por um dia a dia mais tranquilo e hoje evita sair com os amigos após as apresentações. “A vida do ator-cantor exige uma disciplina de atleta”, explica ela, em conversa exclusiva com NEW MAG. Sem saudosismos, mas apenas fazendo constatações, Zezé afirma que no mundo de hoje tudo está muito diferente. Em sua análise, ela aponta os grupos de discussão, que interferem na narrativa das novelas com menos de um mês no ar, e recorda os tempos de humor mais anárquico do teatro besteirol. Neste bate-papo, ela ainda revela que não se vê envolvida com um homem que não seja artista e discorre sobre o desgaste que lhe causou o processo que moveu por ter sido injustamente responsabilizada pela morte de um motorista da TV Globo.

Nara foi uma mulher tímida e transgressora ao mesmo tempo. Como se deu seu encontro com esta personagem?

Esse encontro está sendo muito positivo. A trajetória dela foi construída com muito amor e dedicação. É uma artista que sempre ouvi, mas sobre quem sabia muito pouco. Daí que fiquei impressionada e surpresa ao ler a biografia escrita sobre ela pelo Tom Cardoso (“Ninguém pode com Nara Leão”). Ela foi uma mulher que se envolveu com teatro, com cinema e com diferentes movimentos musicais. Ela era inibida no trato, mas, nas entrevistas, dava opiniões com segurança e tranquilidade, falando o que ninguém tinha coragem de dizer. Por outro lado, tinha aversão à fama e, durante o exílio, pôde ter uma vida comum apesar da dor. Nara ainda é um enigma para mim.

E como é voltar a trabalhar com o Falabella, desta vez num musical escrito e dirigido por ele?

Acho que nosso primeiro encontro foi em “Mephisto”, onde fomos dirigidos pelo (José) Wilker. Anos depois, ele me dirigiu em “Florbela” (no qual Zezé viveu a poeta portuguesa Florbela Espanca), que era um monólogo lindo. E fizemos juntos “O submarino”, cujo texto é assinado por ele juntamente com a Maria Carmen Barbosa. E tivemos ainda “Os monólogos da vagina”, uma peça libertária e à frente do seu tempo sem falar nos encontros na TV. O Falabella é um diretor que me conhece bastante.

E você que sempre cantou bem volta a estrelar um musical. Como é esta volta?

Nunca me identifiquei com esse formato de musical tipo superprodução da Broadway. É bonito de ver, mas, por outro lado, correse o risco de fazer algo caricato, e isso não é a minha praia. Sempre me identifiquei com esse formato mais despojado e próximo da gente, como foi com “Receita de Vinicius” (sobre Vinicius de Moraes), que fizemos no CCBB.

Você está muito serena em cena. A maturidade te colocou neste lugar?

A vida do atorcantor é muito dura. Ela te exige uma entrega e uma disciplina de atleta. É um pouco aquela história: cala a boca e vai dormir (risos). Agora estou mais calma, mas, lá atrás, gostava de sair com os amigos após as apresentações, o que seria muito desgastante se fosse uma atriz de musicais. Com este projeto, viajei pelo Nordeste e fui a Belém (no Pará) e foi muito bom. O artista vai aos lugares e não necessariamente consegue vêlos. Então, desta vez, pude fazer tudo com mais calma.
Você costuma pensar o que Nara cantaria nos dias de hoje?

Pois é… Achei tão bacana aquele ato que reuniu os artistas na Praia de Copacabana (contra a anistia aos envolvidos na tentativa de golpe do 08/01). A Nara certamente estaria ali. Até porque, pelo que vi, eram poucas as cantoras presentes (Maria Gadu e
Marina Sena no Rio de janeiro). Acho que a Nara estaria muito envolvida com as questões indígenas, relacionadas aos Direitos e às demarcações de terras. Não seria
surpresa se ela subisse ao palco usando um cocar.

Você consegue separar bem a persona artística da pessoa física, resguardando, assim, a vida pessoal….

De certa forma sim. Sempre fui cordial no trato com as pessoas. Venho de uma família classe média. Meu pai era profissional liberal. A grana era contada, e sabíamos que, se saíssemos dos trilhos, a coisa desandava. Havia também um acordo tácito de que todos tínhamos de cuidar da casa, mas quanto a cozinhar, só fui aprender mesmo depois. Sou discreta no âmbito social, mas no palco, não.

E, por isso, deve ter sido difícil você ter sido responsabilizada pela morte de Nelson Andrade Lopes, que trabalhava de motorista na TV Globo. Você entrou com ação na esfera criminal contra o jornalista que te acusou, não?

Ganhei a ação, mas não na esfera criminal. Até queria, mas a sentença iria levar de 4 a 5 anos até sair, e eu queria resolver a questão de forma rápida. Além de ter sido acusada injustamente, o que me causou um desgaste enorme, o requinte de crueldade com que a notícia foi um horror. Quando saiu a sentença e o jornalista (Leo Dias, então colunista em O Dia) teve de se retratar, a retratação não teve o mesmo destaque da notícia, publicada com a mesma chamada de antes.

Como se deu o episódio afinal?

O profissional era já um senhor e não era quem costumava me levar às gravações. Ele me buscou às sete da manhã pois tinha de estar às 9h na externa. Chegamos ao local e não havia ninguém da equipe e do elenco. Perguntei se o endereço era aquele, e ele me garantiu que sim. Confirmamos com a produção pelo rádio até que, tempos depois, veio a informação de que o endereço estava errado. No trajeto, o trânsito havia piorado e o atraso foi ainda maior. De lá, segui para o Projac de carona com o maquiador. Então não teve nada daquilo de eu dar um ataque ao chegar ao Projac.

E ficou constatado que o motorista era cardiopata, não?

Sim, ele sentiu os sintomas no Projac e foi para o (hospital) Lourenço Jorge, onde esperou muito tempo até ser atendido. Fiz questão de ir à delegacia e de falar com a família dele. O fato de eu interpretar na época uma vilã colaborou para o episódio ganhar a dimensão que teve. Meu filho (João) disse que se eu estivesse interpretando a Naná (sua personagem em Top Model) a Opinião Pública teria ficado do meu lado.

A Naná não foi sua porta de entrada na TV, mas fez com que o público te acolhesse…
E você acredita que o papel seria da Bruna Lombardi? Acontece que, por se tratar de uma mulher com um padrão de beleza diferente, acabei convidada para o papel. Foi minha primeira novela e lembro que isso me assustou na época.

Imagino que, pelo contato com as crianças, tenha lembranças divertidas….

Gravávamos mais na casinha da praia, a do personagem do Nuno (Leal Maia, pai das crianças). E, volta e meia, por causa do tempo ruim, as gravações eram suspensas, e as crianças sugeriam de irmos ao Mc Donald’s. “Mas vocês acabaram de almoçar”, argumentava, no que a Carol Machado rebatia: “E precisa de fome para ir ao Mc Donald’s?’ (risos).

A TV está mais careta hoje?

Tudo está muito diferente hoje. Há essa coisa de os grupos de discussão começarem a opinar mais cedo, quando a novela está há apenas um mês no ar. E o público fica contra um ou outro personagem… O que fizeram com a Fernanda (Montenegro) e com a Nathalia (Timberg, na novela “Babilônia”) foi intolerante. E por causa de um beijo? Não um beijo erótico, mas um beijo de afeto! A novela não é para um nicho, mas para todo mundo.

Uma série como ‘Tamanho Família’, exibida pela hoje extinta Manchete, seria cancelada, não?

Era tão gostoso de fazer… O elenco tinha Suely Franco, Diogo Vilella E os textos eram do Mauro Rasi e do Vicente Pereira (nomes do que ficou conhecido no teatro como Besteirol). Ensaiávamos pela manhã e gravávamos à tarde. O Ariel Coelho fazia um comerciante vindo de um país chamado Esbórnia (risos). O humor era mais anárquico.

Você foi casada com colegas como Daniel Dantas e Paulo José. Estar entre atores facilita a dinâmica do relacionamento?

Sabe que, depois do Paulo, tive alguns namorados músicos? Não me vejo embarcando numa história com alguém de fora do segmento artístico. Meu tesão vai por aí. De fato, admiro muito os atores. Acho que, de certa forma, conseguimos estar muito presentes na vida cultural e política do país.

E como vê o futuro da TV?

Ainda mais inclusivo do que está, com mais PCDs (Pessoas com Deficiência) e com mais mulheres escrevendo. Assisto a um ou outro capítulo de “Dona de mim” e acho a novela muito boa, bem escrita e com uma proposta muito legal.

Créditos: Christovam de Chevalier (perguntas); Bianca Portugal (texto) e Priscila Prade (imagem)

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