Espontaneidade, versatilidade e sinceridade são marcas registradas dela. Além é claro, de seu talento — que ela tem de sobra. Luana Piovani construiu uma carreira singular no Brasil e agora amplia seu impacto também para Portugal. Natural de São Paulo, começou como modelo ainda na adolescência e estreou na televisão em 1993 na minissérie “Sex Appeal”, da Globo, aos 16 anos. Ao longo dos anos 1990 e 2000, participou de produções como “Quatro por quatro”, Suave veneno” e “O quinto dos infernos”, além de ter se destacado em programas de comédia e minisséries, consolidando-se como uma das atrizes mais reconhecidas de sua geração na teledramaturgia brasileira. A atriz também construiu uma presença sólida nos palcos. No teatro infantil, arrebatou plateias em montagens como “O pequeno príncipe” e “Mania de explicação”. E, depois de oito anos, ela voltará a fazer uma peça no Brasil. No dia 08 de janeiro, estreia no Teatro BDO Jaraguá, em São Paulo, Cantos da Lua — um espetáculo que une teatro, música e stand-up com o qual vai celebrar seus 35 anos de carreira. Ela também chamou atenção do público com a terceira temporada de “Luana é de lua”, disponível no Universal+, em que aborda diversos temas com franqueza e bom humor. Em entrevista por telefone ao NEW MAG, Luana fala de sua volta ao teatro, de seu programa de TV, dos desafios da maternidade, revela se já sofreu etarismo e fala dos preparativos para o carnaval de 2026, onde vai desfilar pela Império Serrano, escola da Série Ouro do Rio de Janeiro.
Em “Luana é de lua” você falou sobre prazer feminino logo no primeiro episódio. Como você se prepara para levar ao ar temas que costumam ser tabu na TV?
Não tem preparação exatamente. A preparação é montar o quebra-cabeça, desenhar o programa: o que quero falar, quais são os temas. A gente pensa em sete temas para fazer cinco, oito para fazer seis, escolhe, pensa nas pessoas, começa a montar o elenco. Mas eu só escolho temas que me atravessam, então eles já estão dentro de mim. É uma conversa mesmo. O que faço é ler sobre cada pessoa que vai participar, óbvio. E, no fim, quem aprende sou eu. Eu não me preparo, eu recebo. A coisa que eu mais tenho orgulho no programa não são nem os temas, apesar de também ter orgulho deles, mas os convidados. Eu junto uma galera muito potente. Não aguento mais ver as mesmas caras na televisão. Chamo pessoas incríveis, que não precisam ser comerciais, só precisam ser incríveis. E pessoas incríveis não estão preocupadas em perder contrato. Elas sabem que existem para mudar o mundo.
No episódio sobre esporte, você chegou a jogar tênis de mesa com atletas. Como foi essa experiência?
Adorei, mas não deu nem para o cheiro (risos). Achei que elas iam pegar leve, mas eu não vi a bola. Elas são demais. O legal é que todo mundo sai transformado do programa, não só quem assiste, mas também quem faz.
Ainda nesse episódio, se falou sobre igualdade no esporte e a presença feminina. Como você vê isso?
Não existe igualdade em lugar nenhum. Mas é curioso que, na última Olimpíada, o Brasil teve mais mulheres medalhistas do que homens. E isso é bastante óbvio: a mulher tem muito mais inteligência emocional. Em esporte de alta performance, com muita pressão, se você não tiver inteligência emocional, a performance não brilha.
Você foi revelada ao grande público na minissérie “Sex Appeal”, de Antônio Calmon. Lá você teve como colegas de elenco Danielle Winits, Camila Pitanga e Carolina Dieckmmann. Como você vê o trabalho das suas colegas de geração atualmente?
Estou um pouco longe desse circuito, não me acho apta a falar do trabalho de todas. Mas sou muito atenta ao teatro e tenho visto bastante a Danielle. Ela fez um trabalho muito potente com o Gerald Thomas (diretor), que já entrevistei há muitos anos. Vi fotos, comentários da estreia, achei muito interessante. Sempre aplaudo quem tem coragem de ir aprender no palco.
Você também se destaca no teatro infantil…
Tem tempo que não faço teatro infantil. Aqui em Portugal é difícil fazer qualquer coisa, teatro infantil, então, é mais difícil ainda. Para fazer teatro tem que ser no Brasil, que tem mais leis de incentivo, onde as pessoas gastam mais dinheiro com marketing. O Brasil é um país bem mais capitalista. Portugal é um país socialista. O dinheiro é entendido de outra maneira. Eles ainda estão engatinhando no capitalismo. Você vê, por exemplo, em relação à rede social, as campanhas, o marketing, tudo é bem mais antiquado e num ritmo mais lento do que o brasileiro.
Certa vez, em uma peça você notou que um menino não olhava para o palco e depois descobriu que ele era cego. Esse episódio deixou você mais atenta quanto às diferenças e a tornar seu trabalho mais inclusivo?
Na verdade, não, porque eu já fazia esse trabalho. Essa apresentação era para uma organização social, então isso sempre esteve muito presente para mim. O que esse episódio me mostrou foi que as pessoas absorvem as coisas de maneiras diferentes. Ele ficava com a cabeça baixa porque, como não enxergava, colocava a atenção nas orelhas.
Você disse em uma postagem no Instagram uma vez que “nem sempre uma mãe sabe o que fazer”. Quais foram, ou ainda são, os maiores dilemas que você enfrenta na maternidade?
O maior dilema é lidar com a carga emocional e a responsabilidade de criar os filhos sozinha. Tomo todas as decisões, estou sozinha nos momentos mais urgentes. Sou muito privilegiada, tenho uma rede de apoio gigante: meus pais se mudaram para cá três meses depois da minha separação, tenho amigas. Mas, ainda assim, é pesado. À noite, com as crianças, sou eu.
E agora falando sobre paternidade, como é para você ver uma sociedade que exalta a figura de pais que “colaboram” dentro de casa e invisibiliza mães que não tem nenhuma rede de apoio?
É muito triste. Por isso eu estou nessa batalha: podcast, programa, rede social, ativismo. Estou fazendo a minha parte como ser humano, mulher e artista. É difícil, mas sigo aqui, no fronte.
Aos 49 anos, você sente que já sofreu preconceito por conta de sua idade?
Já houve um vislumbre disso. Pensaram em remontar “Mulher invisível” e acharam que eu estava velha demais para o papel, cogitaram trocar a atriz. Ainda bem que essa ideia não foi para frente, porque jamais daria certo.
Muito se fala nos dias de hoje que as pessoas precisam ser espontâneas. Ao longo da sua trajetória, você sempre se destacou justamente pela sua espontaneidade, por falar o que pensa. Como você lida hoje com as críticas e com a exposição que vem junto com isso?
Quase não ouço as críticas. Elas raramente chegam até mim, sou bem blindada. E, na verdade, não acho que as pessoas tenham que ser espontâneas. Elas têm que ser éticas. Se todo mundo fosse ético, uma pessoa pode ser espontânea, outra pode ser dissimulada. Mas sendo ética, está tudo bem. A ética está muito ligada ao caráter.
Olhando para os próximos anos, quais os sonhos que você ainda pretende realizar?
Quero aprender francês e italiano, isso é uma meta de vida que ainda não cumpri. E quero seguir criando meus filhos. Foi para isso que vim para Portugal. Quero acabar de criar meus filhos, e, pelos meus cálculos, ainda tenho uns dez anos pela frente.
E os projetos para 2026?
Estou nos preparativos para a estreia da minha peça, “Cantos da Lua”, que vai para São Paulo em janeiro, no Teatro BDO Jaraguá. Depois, retomo a temporada da peça em abril. Em fevereiro vou desfilar na Império Serrano.
Como estão os preparativos para desfilar?
Estou aqui entre conversas com o carnavalesco, com o Henrique Filho, falando sobre fantasia, ainda pisando em ovos, mas vai ser um dia de cada vez. O samba-enredo é uma homenagem à Conceição Evaristo, imagina! Vai ser muito bom!
Quem você chamaria hoje de Banana de Pijama?
O idiota que assediou a ministra Anielle Franco (durante a Cop-30, em Belém), o Mamãe Falei. Um super banana de pijama.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e Faya Neto (imagem)





