
Quando Cazuza (1958-1990) deixou o Barão Vermelho em 1985, os demais rapazes da banda viram-se diante de alguns importantes dilemas. Um deles acabou por levar Roberto Frejat, então com 23 anos e já predestinado a guitar hero (um dos melhores do país, aliás) a assumir os vocais. Caju certamente não imaginava o bem que faria à carreira futura de Frejat. Aquele garoto que iria mudar o mundo não só tornou-se um ás da guitarra como, ao longo das últimas décadas, aprimorou – e muito – a forma de cantar.
Compositores são, muitas das vezes, cantautores. Acontece que Frejat é também mais do que isso. Um intérprete de canto e gosto arrojados é quem os fãs do artista encontram no show “Frejat em blues”, que fez, na noite da última terça (20), a primeira das quatro apresentações previstas para o Casa Grande. E o teatro – peça fundamental na redemocratização do país – ficou lotado para receber a nova proposta do artista.
Frejat e Cazuza tinham essa afinidade, dentre outras tantas, em comum: o gosto pelo blues, estilo musical egresso dos spirituals entoados pelos escravizados nas lavouras dos EUA. E os dois amigos acabariam por pavimentar, através da parceria musical construída por eles, um jeito de fazer blues á brasileira.
E é na água desse estilo, com DNA brasileiro, que Frejat bebe na nova proposta. Refestela-se, aliás. E sem ser autorreferente (modesto, escolheu poucos temas autorais), reverenciando nomes que abriram picadas para aqueles meninos do Barão (e instrumentistas como Celso Blues Boy) institucionalizarem um blues á brasileira. E a lista de referências é grande como o carisma e o brilho de Frejat.
O show é aberto com ‘Questão de posse”, de Luiz Melodia (1951-2017), uma das principais influências na formação musical de Frejat. O Negro Gato é lembrado ainda em três outras releituras – todas excelentes: “Pérola Negra”, “Farrapo humano” e “Pra aquietar”. Outra referência importante é a de Angela Ro Ro (1949-2025), celebrada com dois temas imortalizados por ela: a autoral “A mim e a mais ninguém”, lançada em 1979, e “Escândalo”, misto de tributo e retrato da artista pintado na década seguinte por Caetano Veloso, este, também presente no show com “Como 2 e 2”.
E há no altar de Frejat espaço para reverências a outros deuses. São saudados, ao longo do roteiro, mestres como Djavan (numa pungente recriação de “Esquinas”), Gilberto Gil (em surpreendente releitura de “Nova Era”), Rita Lee (“Cartão postal”), Jorge Ben Jor (“Ive Brussel”) e a dupla Jards Macalé (1943-2025)/ Waly Salomão (1943-2003), com “Mal secreto”, entre outros nomes e suas pérolas.
E Cazuza, claro, não poderia ficar de fora dessa festa. O Exagerado faz-se presente em quatro números – e todos eles muito vibrantes. São eles: “Bilhetinho azul”, “Não amo ninguém” (momento em que o guitarrista Rafael Frejat, codiretor musical do show, mostra que saiu aos seus), “Down em mim” e “Blues da piedade”, certamente o número mais aplaudido da noite.
E, por falar no poeta, outros ilustres representantes da cena pop e do BRock foram conferir a boa nova. João Barone, baterista dos Paralamas (banda que tem sua “Caleidoscópio” também no roteiro), Fausto Fawcett, Arnaldo Brandão, Dadi Carvalho e Torcuato Mariano estavam entre os convidados, arregimentados pelos empresários e promoters Liége Monteiro e Luiz Fernando Coutinho.
Show acalentado há tempos pelo artista, “Frejat em blues” nasce já com brevê para voar alto e chegar, assim, a mais teatros do país. E pode, muito bem, pousar nas plataformas de áudio e vídeo. Tripulação e condições não faltam: músicos excelentes, repertório primoroso e, à frente de tudo, um cara que, aos 63 anos, mostra-se um cantor tão potente quanto o estilo musical com que veste agora clássicos da nossa música.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Cristina Granato (imagens)





















