Libelo pelo direito de existir

outubro 14, 2026

Personalidades prestigiam “A cor púrpura”, que volta aos palcos para celebrar os 40 anos do filme que o inspirou

Celie, protagonista de “A cor púrpura”, passa seu casamento escravizada às tarefas domésticas e submissa às regras impostas pelo marido, opressor e misógino. A consciência do seu apagamento é adquirida aos poucos até explodir em música. Suzana Santana, intérprete da personagem, brilha no número e, ao fim dele, foi ovacionada pelo público que lotava, na noite da última terça-feira (13), o Teatro Multiplan, no Rio de Janeiro. A manifestação, com a plateia de pé, foi um dos pontos altos da sessão especial do espetáculo, que voltou à cidade para celebrar seus sete anos e os 40 do filme que o inspirou.

Sim, “A cor púrpura’ está de volta à cidade. O espetáculo é dirigido por Tadeu Aguiar (um dos mais competentes diretores de musicais da atualidade) e traz elenco coeso e potente que defende com brilho as canções, cujas versões para o português são assinadas pelo jornalista Artur Xexéo (1951-2021), nesta que foi sua derradeira contribuição para o teatro.

O retorno da produção aos palcos foi reverenciado por nomes importantes da Cultura, reunidos ali pelos promoters e empresários Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho. O bailarino Thiago Soares, os atores Larissa Maciel, Babu Santana, Emiliano D’Avila e João Victor Gonçalves, o Mau Mau de “Quem ama cuida”, estavam entre os presentes.

A emancipação da mulher negra nos Estados Unidos onde a segregação étnica era ainda latente é uma das bandeiras levantadas pelo espetáculo, cuja dramaturgia é assinada por Marsha Norman com músicas originais a cargo de Brenda Russell, Allee Willis e Stephen Bray.

Há outras feridas expostas por seus autores e uma delas diz respeito à opressão sofrida por Celie (Suzana) pelo marido que, segundo a norma vigente, não podia ser contrariado e cometia atos violentos quando algum serviço não estivesse a contento.

Esses tempos não estão tão longe de nós, brasileiros e latino-americanos, quanto parecem. E assistir ao musical – um libelo por direitos básicos como o de poder manifestar-se – traz um sopro de esperança para que, a 11 dias do segundo turno das eleições, direitos conquistados nas últimas quatro décadas não virem letras mortas.

Se você perdeu a temporada anterior esta é a oportunidade para ver um espetáculo arrebatador nos âmbitos artístico e técnico, sem falar dos temas por ele abordados, atemporais e – por que não? – pertinentes nesses tempos de revisionismos históricos.

“A cor púrpura” mostra o quão asfixiante torna-se um ambiente – qualquer que seja ele – desprovido de liberdade. E mostra-nos também que vidas humanas importam – todas elas.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e André Neto (imagens)

 

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