O Nany vem de Nani Venâncio, atriz e musa revelada pela novela “Pantanal, em 1990. O People vem mesmo de galera, e não da canção imortalizada por Barbra Streisand, diva LGBTQIA+. “Não tenho esse refinamento”, desconversa Nany People num lampejo de modéstia que foge do padrão (ainda que ela se diga despadronizada) esfuziante que é uma das marcas desta artista que cativou o público desde o Resumo da Ópera, boate de José Victor Oliva que marcou época em São Paulo. Do palco à TV foi um pulo, e Nany passou por diferentes emissoras até estrear, aos 53 anos, na Globo. Parte dessa trajetória é narrada a Flávio Queiroz em “A saga continua”. O lançamento vai congestionar, na próxima segunda (07), a Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. Antes, ela estreia nesta sexta (04), seu novo solo, “Ser mulher não é pra qualquer um”, em única apresentação no Teatro Gazeta, em São Paulo. “Meu negócio é palco”, reconhece ela nesta entrevista, por telefone, ao NEW MAG. A seguir, Nany fala sobre perseverança, pertencimento, engajamento e critica a ambiguidade de parte da sociedade, que vai da intolerância à broderagem. E, de quebra, rasga seda (pura, claro) a Fafá de Belém, Lilia Cabral e a Ney Matogrosso. Essa é Nany People. Recuse imitações.
São 60 anos de vida e 50 de carreira… Qual desses marcos você valoriza mais?
A vida com certeza. Até porque sem ela não haveria carreira. A vida vai, e a carreira fica. Minha geração já passou por poucas e boas. Nascemos num mundo analógico e, hoje, estamos no tempo da fibra ótica. Sou resistente e estou celebrando a minha existência.
A vida de Nany People deu um livro. O resultado te agradou?
Muito, tanto que fiz dois. Entre o primeiro e esse passaram-se dez anos e muita coisa aconteceu de lá para cá. Entrei para a Globo aos 53 anos, fiz minha primeira turnê internacional… Aí o Flávio Queiroz (autor da biografia) chamou minha atenção para esse tanto de coisas e disse que não poderíamos passar batido por elas.
Qual o momento mais difícil de ser revisitado?
O da pandemia. Uma das minhas maiores tristezas foi a de perder uma grande amiga que, depois de ela perder o pai, veio a falecer no dia do aniversário do filho. As pessoas iam morrendo sem que pudessem ser veladas e, quando podiam, eram só por um parente, e o corpo ali enfiado num saco. Um horror aquilo!
A cena política tem aberto espaço à diversidade, sobretudo em São Paulo. No restante do país, ainda é tímida. A carreira política te atrai?
A política já me cantou várias vezes, mas não entro nessa. Meu negócio é palco, não palanque Sou partidária das opiniões e da divergência entre elas, mas não tenho vocação para o “toma lá, dá cá”. O tirar da merenda para por na Educação. Não sei fazer isso. Temos aí uma extrema direita possessiva, e a única forma de ir contra ela é através da informação e da instrução. A educação é o melhor green card (visto permanente) que alguém pode obter.
O palco é o seu palanque então?
Meu compromisso é com o teatro. As pessoas me encontram nos aeroportos e perguntam aonde vou fazer show. A Rogéria dizia que o teatro é a estrela-guia das nossas vidas, e ela tinha mesmo razão.
“Homem com H”, cinebiografia do Ney Matogrosso, lotou salas de cinema. O grande público está mais propenso às diferenças?
Ney nunca foi segmentado. Ele sempre foi prestigiado e aplaudido em razão do grande artista que é. Lembro do (Eduardo) Dussek dizendo que, no nosso tempo, todo mundo transava com todo mundo e ninguém pensava se era gay, bi ou o quê. A sociedade está hoje mais permissiva. Há entre héteros esse negócio de broderagem em que um cara pega no pau do outro e ninguém transa. Ficam no pisca-pisca e ninguém sinaliza? Acho isso uma canalhice.
Maria Bethânia declarou ao Estadão não ser prisioneira de nada. A frase cabe bem para você, não?
Quero ser tudo aquilo com que simpatizo (e fala trecho do texto de Fernando Pessoa declamado por Bethânia em “Drama, luz da noite): “São-me simpáticos os homens superiores por serem superiores/E são-me simpáticos os homens inferiores por serem superiores também”… Sou uma exceção à regra no país que mais mata LGBTs no mundo, e onde muitas mulheres trans não terminam o ensino ginasial. Não tenho um padrão e já nasci cancelada. Minha mãe foi quem me blindou, me encorajou e me empoderou. Sou a minha própria Parada (LGBT+).
Você se aproximou da Parada do Orgulho LGBT+ após longo hiato. Como foi essa reaproximação?
Há 27 anos que não ia à Parada. Lá atrás, disse que havia um oba-oba muito maior em torno da festa do que pela causa em si. Reconheço que muitas das conquistas relacionadas aos direitos civis da população LGBT começaram ali. A do reconhecimento da união civil (entre pessoas do mesmo sexo) é uma delas.
Fafá colocou o Brasil em contato com a Cultura do Norte do país. Em que momento da tua vida a Fafá te conquistou?
A Fafá é um grito humano de liberdade para pessoas fora dos padrões. Tenho cinco divas na vida: Hebe, Rogéria, Fafá, Lília (Cabral) e minha mãe. Como uma mulher vinda do Norte, ela é uma autêntica amazona, dona do seu galope. A primeira lembrança que tenho é a de vê-la num show em Poços de Caldas (MG) cantando “Emoriô” (João Donato e Gilberto Gil) no meio do povo. Quando a homenageei num show, ela apareceu de surpresa e cantamos juntas. Na ocasião, ela me disse para meter o pé na porta e jogar a chave fora (risos). Ela me legitima a ser quem sou (e cita a canção de “A gaiola das loucas”): I am what I am (sou o que sou).
Vamos então falar da Lilia? O que nela mais te cativa?
A Lília foi a responsável por eu vir para São Paulo. Em 1984, assisti a duas peças que me marcaram: “Piaf”, com Bibi Ferreira, e “Feliz ano velho” (inspirada no livro de Marcelo Rubens Paiva). Nesta, tinha uma menina que se dividia entre 11 personagens. Era a Lília. Dali em diante, acompanhei tudo o que ela fez. No Carnaval de 1989, diante do sucesso de “Vale tudo”, me fantasiei de Aldeíde Cadeias (trocadilho com Aldeide Candeias, personagem de Lília na novela). Ela saiu da EAD (Escola de Artes Dramáticas) e, quando saí de Minas, em vez de ir para o Rio (de Janeiro), fui para São Paulo.
E quando vocês se conheceram foi emocionante, né?
Quando recebi o e-mail do Lauro Macedo com o convite (para atuar em “O sétimo guardião), achei que fosse golpe. Havia combinado de vir ao Rio com um amigo. Ele se atrasou, e viajamos separadamente. Havia uma paralização na estrada, o meu ônibus passou e o dele ficou. Cheguei ao Rio sozinha. Quando fomos apresentadas, mal consegui balbuciar que a admirava desde “Feliz ano velho”.
Ser mulher não é para qualquer um?
Ser mulher vai além da capacidade. A mulher abraça, acolhe, põe no colo e se mantém resiliente nos seus propósitos, apesar das chibatadas. O pensamento masculino é voltado para o “eu”, o “meu”, o “comigo”, e a mulher olha para o todo. É aquela história: não se nasce mulher, torna-se.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto e perguntas) e Moisés Pazianotto (imagem)





