‘Investigador dos corações’

janeiro 11, 2026

O legado de Manoel Carlos é celebrado por três grandes da teledramaturgia: Maria Adelaide Amaral, Miguel Falabella e Thereza Falcão

“Um diferencial de qualidade à teledramaturgia nacional”.  A definição é daquela que prima (e muito) pela qualidade, a novelista e dramaturga Maria Adelaide Amaral. As palavras não foram escolhidas por ela por acaso e servem bem para falar de Manoel Carlos, que saiu de cena no último sábado (10), aos 92 anos, deixando um repertório muito bem elaborado de novelas, séries e adaptações literárias à TV.

–  Era um prazer assistir às novelas do Manoel Carlos pela qualidade e consistência dos diálogos e pela delicadeza da trama, com um conhecimento profundo da alma feminina – destaca Maria Adelaide em depoimento exclusivo, gravado por áudio, ao NEW MAG. A escritora destaca também o olhar e a sensibilidade do escritor à alma feminina: – Ele escrevia lindamente para mulheres e fez da Helena um arquétipo em suas novelas. Ele criou personagens e protagonistas extraordinários. A teledramaturgia só tem a perder.

Maria Adelaide e Maneco se conheceram em São Paulo, onde o diretor e futuro novelista nasceu e iniciou sua carreira na TV, em emissoras como Tupi e Record. Poeta bissexto, ele reunia-se na Biblioteca Municipal de São Paulo com companheiros de geração num conluio do qual faziam parte nomes como de Fernanda Montenegro e do hoje saudoso dramaturgo e diretor Flávio Rangel.

– Manoel Carlos marcou época na televisão de muitas maneiras. Ele foi pioneiro. El tinha uma solidez intelectual e um conhecimento do veículo raros. Quando ele começou a escrever novelas, já estava pronto para fazer as obras-primas que fez – sentencia ela.

Miguel Falabella tinha 17anos quando estrelou sua primeira novela na TV Globo. O folhetim em questão era “Sol de Verão”, uma das primeiras tramas definitivamente autorais de Manoel Carlos e levada ao ar em 1982. Se os primeiros passos como dramaturgo seriam dados por Falabella nos palcos, não tardaria para ele enveredar pela escrita televisiva, em humorísticos como “Tamanho família” e “TV Pirata”.

Os folhetins novelescos seriam abraçados pelo autor no fim daquela mesma década, em tramas assinadas inicialmente em parceria com a hoje saudosa Maria Carmem Barbosa (1947-2023). Aventurando-se pelo terreno da teledramaturgia, Miguel continuou a ter por Maneco o respeito daquele que galgara do lugar de aprendiz para o de colega de ofício.

– Estreei em televisão numa novela dele, e Manoel Carlos era, sem dúvida alguma, um maravilhoso contador de histórias e investigador dos corações humanos – reconhece o ator e escritor também com exclusividade para o site.

Coautora com Alessandro Marson de duas novelas de época exibidas pela TV Globo – as excelentes “Novo Mundo” (2017) e “Nos tempos do imperador” (2021) – e do remake de “Elas por elas” (2023), Thereza Falcão aponta para a ousadia do autor como uma de suas marcas indeléveis. A dubiedade de certos personagens é outra característica salientada pela escritora, também ouvida pelo site.

–  Manoel Carlos sempre foi um autor de grande complexidade humana. Deu voz a personagens femininas fortes, belas, interessantes. Escreveu histórias ousadas e envolventes, com protagonistas que transitam entre atitudes dúbias. São pessoas comuns nas quais podíamos nos ver – destaca a autora, chamando atenção a uma das tramas do novelista em especial: “Por Amor” é uma aula de trama, inesquecível!

A aula está encerrada, mas os ensinamentos deste mestre ficam perpetuados na legião de personagens por ele criados e que levaram o povo brasileiro a ver-se na tela da TV.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagem)

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