A alegria é a prova dos nove. Assim apregoou Oswald de Andrade (1890-1954). Ela pode ser também transformadora. E uma ferramenta no combate a patologias que podem ir da adicção a transtornos relacionados aos estilos de vida num mundo cada vez mais hiperconectado.E o ator e humorista Evandro Santo sabe muito bem disso.
Criador de tipos antológicos como Christian Pior, alçado ao estrelato pelo hoje extinto “Pânico na TV”, Santo aliou-se ao Grupo Vencer e, num trabalho desenvolvido juntamente com o psicoterapeuta Wanderley Moreira, conhecido na internet como Moreira Terapeuta, criou uma metodologia calcada no que chama de Alegria Mental.
E o que é a alegria mental afinal? Um de seus pilares está relacionado à reconexão com algumas de nossas essências primordiais, elencadas em sete princípios básicos. Há muito que o comediante queria trabalhar com saúde mental e esse pontapé lhe foi dado por essa questão relacionada aos limites do humor, que pauta discussões em diferentes âmbitos sociais.
— A questão sobre os limites do humor virou uma grande “business”. Ao mesmo tempo em que as pessoas discutem esses limites, percebo que elas estão cada vez mais medicadas e entristecidas. Cadê a alegria? Cadê a sapequice?—indaga o humorista, revelando que precisou vencer um dilema pessoal: — Se sou do humor, não podria ir para a saúde mental. Se sou da saúde mental, não poderia ir para o humor.
E o humor pode ser mais que terapêutico, libertador, como Santo já percebeu nos encontros. Neles, os pacientes – muitos deles mulheres – deixam os celulares de lado. Conexão digital só a da equipe de filmagem, que registra as sessões para municiar as famílias dos pacientes.
— A Alegria Mental ajuda no processo terapêutico porque muitas coisas que são ditas num momento de descontração podem acabar omitidas dos terapeutas num ambiente mais formal. Numa interação com um palhaço, numa brincadeira, você acaba soltando verdades e pérolas e, sob este aspecto, o artista também é necessário num processo de recuperação — aponta Santo, que bebeu nas metodologias desenvolvidas por grupos pioneiros como o Doutores da Alegria.
O humor é terapêutico, libertador e revolucionário. E Santo vivenciou isso na própria pele no tempo em que trabalhou no “Pânico”, período de extremo aprendizado como ele recorda:
— No “Pânico” aprendi sobre a indústria da Televisão. O que é e o quão difícil é fazer um programa que pode estar magnífico numa semana e, na semana seguinte, você precisa manter esse padrão de qualidade. Era difícil, árduo, mas, dadas as circunstâncias, tive muito mais ganhos do que perdas.
Tendo iniciado no humor em 1992, Santo criou desde então uma série de tipos. E Christian Pior é certamente o mais popular deles. O nome artístico, corruptela do nome-grife Christian Dior, acabou por inspirar outra persona artística: Hugo Gloss, alterego de Bruno Rocha da Fonseca. E, Santo não poupa elogios ao pupilo, aliás.
— O Hugo é um cavalheiro. Ele é inteligente, sagaz, simpático, sabe fazer o jogo social pois tem paciência e informação. Quem não lê Hugo Gloss? Ele não esqueceu das suas raízes e, por isso, vai tão longe. Ele se tornou essencial – incensa sem pegar para si o status de muso.
O humor tem hoje sua casa forte na internet. Santo sabe que os tempos mudaram e que a primazia da TV sobre o gênero não é mais aquela. E ele fala com conhecimento de causa que testemunhou o fim de uma hera na TV. E não só ele…
— Tanto o Paulo Gustavo quanto o “Pânico” foram os últimos suspiros do humor na TV. O “Pânico” sempre será lembrado como o grande legado do humor no Brasil, estando hoje no mesmo panteão onde estão também Os Trapalhões,a “TV Pirata” e o pessoal do Casseta (e Planeta), sem falar de referências como o Jô (Soares) e o Chico Anysio.
A alegria não é somente a prova dos nove, como apregoou Oswald. Ela é também uma prova de resistência. E Evandro Santo está aí para provar isso.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagem)





