por Rodrigo Fonseca*
Prestes a voltar às novelas no folhetim de Aguinaldo Silva para a Globo (“As Três Graças”), Miguel Falabella levou ao Festival de Gramado seu filme mais polêmico… e de maior aposta no lirismo… até agora: “Querido Mundo”. “Eu vou de Pasolini a K-Pop, eu me interesso por tudo e jamais posso fugir do que eu sou”, disse Falabella à imprensa, numa coletiva em que abordou detalhes da adaptação da peça teatral homônima, de 1993, que ampliou seu prestígio como dramaturgo.
Amparado por uma trilha sonora à moda Nino Rota (o compositor de Fellini), assinada por Plínio Profeta, “Querido Mundo” é uma love story com risos inesperados. Há um signo onipresente na trama, escrita por Falabella, a partir do texto dele e de Maria Carmen Barbosa (1947-2023): ruínas. Há sucata, afetiva e física por todo lado. Já na arrancada, a queda de uma ponte, numa noite de tempestade (de tons expressionistas) une os mundos de Elsa (Malu Galli) e Oswaldo (Eduardo Moscovis).
Ela sonhava em ser arqueóloga, mas não teve a chance de se formar, sob vetores brutais de um casamento infeliz. Ele é um engenheiro com erros de álgebra, aritmética e geometria em seu currículo de fracassos. Numa noite de Ano Novo, eles acabam por trombar no Rio de Janeiro, nos escombros de um prédio abandonado por seus construtores. Naquele “não-lugar”, um esboço de romance vai nascer, entre tropeços e desabafos.
Num papo com NEW MAG, Falabella disseca sua nova aventura na telona como realizador de longas, depois de “Veneza” (2019) e de “Polaroides Urbanas” (2008).
O que significa reencontrar seus personagens, 32 anos depois de sua criação, só que agora em outro lar, o cinema?
Eles se transformam. Não queria voltar a eles na linha popular que havia na peça. Eu preferi fazer algo que fosse uma caixinha de música, delicada. É um filme em preto e branco, no qual posso expressar o que quero. As pessoas adoram nos colocar em prateleiras, mas, aqui, tento sair delas, sem deixar de ser eu mesmo. Eu fiz uma ‘ofensa’ ao Brasil com o sucesso estrondoso do ‘Sai de Baixo’ e do Caco Antibes, porque as pessoas não conseguem estender seus olhares, muitas vezes, para além do que a gente já fez. ‘Querido Mundo’ não é uma comédia rasgada, é um filme para falar ao coração.
O quanto da tua Ilha do Governador está ali?
A Ilha não sai de mim e me deu esse olhar abrangente. Minha mãe era professora de Literatura Francesa na UFRJ o que me deu acesso à cultura, mas no subúrbio, com a cadência única do falar do povo.
A peça foi escrita por você e Maria Carmen Barbosa, que partiu em 2023. Como foi rever o texto sem ela?
Ela era uma frasista maravilhosa, que tinha um lado popular muito forte. O filme é uma homenagem a ela.
José Wilker (1946-2014), com quem você trabalhou no passado e que foi um dos curadores do Festival de Gramado, disse, à época da estreia comercial de seu primeiro longa como diretor (“Polaroides Urbanas”), que você é “o pronome pessoal do caso reto da gramática dos afetos”. Que afeto é esse?
Eu gosto de gente. Dou trela para todo mundo. Vou à feira e falo com as pessoas. Gosto de gente que gosta de gente.
*enviado especial ao 53º Festival de Gramado





