‘Eu vou agora diminuir o ritmo’

novembro 28, 2025

Tony Ramos fala sobre aposentadoria, redes sociais e política. E ainda conta detalhes do dia em que operou o cérebro

Homem de fé, temente a Deus e à força e o engrandecimento que só o trabalho e o estudo trazem, Tony Ramos não para. Não para de produzir personagens inesquecíveis, não para de agradecer as bênçãos que alcançou com o fruto do seu talento, não para de admirar sua companheira de 56 anos, Lidiane Barbosa… Em cartaz com a peça “O que só sabemos juntos”, onde, ao lado de Denise Fraga rompe um hiato de 20 anos longe dos palcos, ele grava cenas finais da novela das 7 “Dona de Mim” e se prepara para estrear em 2026 a nova novela das 9, “Quem ama, cuida”, de Walcyr Carrasco. Os projetos vão ainda mais longe. Logo após a novela vai fazer um longa-metragem com Antônio Fagundes e direção de José Alvarenga e já planeja se apresentar nos palcos de Portugal em 2027. Isso tudo apenas um ano e meio após ter se submetido a duas cirurgias no cérebro por conta de hematomas subdurais. Mas, nesta conversa exclusiva com NEW MAG, Tony revela que tomou uma decisão: começou a diminuir o ritmo. Agora não vai mais acumular projetos, se está em uma novela não filma e não faz teatro. Uma coisa de cada vez. Mas parar, jamais! Neste bate-papo ele fala ainda sobre a entrada de influencers na dramaturgia, sua relação com as redes sociais, posicionamentos políticos e, claro, seu amor pela eterna companheira.

Você ficou 20 anos fora dos palcos. O que te chamou pra fazer essa peça?

Eu sou um ator que começou com teatro, portanto faz parte da minha vida, da minha respiração, do meu sangue. Tanto que, quando estou de folga o que eu adoro fazer, além de ir ao cinema, é ir ao teatro. É do meu cotidiano. Só que eu não queria que fosse apenas uma comédia. Não que não goste de fazer comédia, amo e já fiz várias, mas mesmo na comédia, acho importante que o espectador saia com reflexão, pensando sobre sua vida e o comportamento humano como um todo. É uma coisa muito delicada. Para mim, fazer teatro tem que, de alguma forma, propor ao espectador que ele saia com motivos para dialogar sobre aquilo que ele assistiu.

Mas com essa volta você pretende não deixar se afastar mais por tanto tempo dos palcos, certo?

Não responderia agora confortavelmente para não mentir. Porque a peça ainda tem muita coisa pra ser feita. São Paulo quer que a gente retorne, por exemplo. Mas não posso porque tem a próxima novela que vou fazer a partir de fevereiro. E Denise tem dois filmes para fazer. Mas a peça não quer parar. Temos convites para Salvador, Fortaleza, para retornar a Porto Alegre, Curitiba… E tem ainda a ida para Portugal. Querem muito que a gente vá em abril de 2027. Então agora estou pensando apenas em terminar “Dona de Mim”, estou gravando os flashbacks, cenas lindas, e em dezembro gravo as cenas finais, quando meu irmão, cheio de culpa, começa a ter pesadelos comigo. A novela é um grande sucesso.

Você não para nunca, já cogitou se aposentar?

Eu já sou aposentado pelo INSS (risos). Me aposentei com 36 anos e 7 meses de trabalho, de contribuição. Cumpri a lei e a minha missão. Do ponto de vista do INSS sou aposentado e do ponto de vista da minha profissão, não. Não penso nisso. Adoro trabalhar, sou grato a Deus pela minha saúde e pela permissão de trabalhar. É evidente que não vou querer fazer tudo ao mesmo tempo, televisão, teatro e filme, como fiz ano passado. Eu vou agora diminuir o ritmo. Tenho um filme que vou fazer com o Antonio Fagundes e direção de José Alvarenga, mas vai ficar lá pro final de 2026, após a novela. Mas é isso, vou tocando a vida. O que me encanta é poder trabalhar, com a permissão de Deus Nosso Senhor.

Com a peça já em cartaz você teve, como disse, um ‘improviso de vida’. Fez duas cirurgia no cérebro, mas em pouco tempo voltou aos palcos. Esse episódio não te assustou?

Não. Vou dividir essa resposta de duas maneiras. Primeiro, não lembro de nada. Falei pra Lidiane “estou com dor de cabeça, uma dor chata, bem na testa. Vou tomar uma analgésico e aguardar o carro vir me apanhar”. Ela falou: “Deita na nossa cama. Quando o carro chegar eu te aviso”. A partir daí não lembro de mais nada, eu desfaleci, desmaiei. Só me lembro de ter acordado na UTI, mais nada. Acordei com Dr. Paulo Niemeyer Filho, que me operou, ao lado, e eu conversando com ele. Então o susto só veio quando minha mulher, com calma, me contou como foi tudo. Ela me contou depois que a ambulância veio, me colocaram na maca e me levaram pro hospital. Como já está escrito pelo poeta ‘a vida é um sopro’. Mas você está falando com um homem de fé, com um homem abnegado e de perseverança.

Mas não te fez refletir sobre a morte, a sua existência…

E tudo isso é normal que você faça após um susto grande. Como foi na pandemia, quando todo mundo falava como ia ser depois de um novo normal. E eu não acredito em novo normal, acredito em voltar à normalidade, encarar a vida sabendo que existe uma finitude. Mas isso não me obriga a pensar na finitude 24 horas. Pensar na finitude é saber que ela virá, mas não quer dizer que você tenha que estar obcecadamente voltado para ela. Quando meu médico falou “volta à luta meu rapaz”, eu voltei, mas com responsabilidade. Nos primeiros dias não saí gravando e fazendo teatro de qualquer maneira. Eu tinha um aquecimento, fazia os exercícios vocais e após o espetáculo ia direto pra casa, ficar quietinho, com uma comida bem leve…

E obedecia tudo o que Lidiane mandava?

A palavra não é obedecer. Eu atendia aquilo que ela propunha (risos). Assim como ela me atende ao que eu proponho. Entre nós não há obedecer, não há obrigações.

Esse é o segredo?

São 56 anos de casados, CIN-QUEN-TA e seis anos de afeto, de respeito, de amor, de vontade de se tocar, de estar junto, de se abraçar. Isso é outra bênção!

Na peça vocês falam sobre o excesso de telas. mas você não é uma pessoa que se relaciona com redes sociais… Como lida com as novas tecnologias?

Não é que não me relacione com redes sociais, eu nunca tive. Lido com as tecnologias levando a minha vida normalmente, não cedendo a pressões, a modismos e não cedendo a nenhum tipo de guru. Não sigo gurus, não sigo ninguém que queira me ditar normas. Mas é importante deixar claro em uma conversa séria como esta que não estou fazendo nenhum juízo de valor, mas o que me move são as questões filosóficas da vida e isso eu só encontro em um bom livro. Não há possibilidade de encontrar numa internet. Mas é bom essa nossa conversa para que você alerte o seu leitor que eu, Tony Ramos, não tenho nenhum tipo de rede social! Às vezes aparece alguém fazendo um anúncio com minha imagem e tenho que avisar que não sou eu. Nunca anunciei remédio, plano de saúde, bebida alcóolica… eu bebo, adoro meu vinho, uma cervejinha… mas jamais faço propaganda de álcool, de remédio, de plano de saúde. Tudo isso a divisão jurídica da Globo vai em cima, mas aproveito essa entrevista para avisar que não sou eu, nunca fiz e não farei, ponto.

E como você vê os influenciadores conseguindo papéis por conta do grande número de seguidores que possuem?

É como eu virar cantor. Não sou cantor, aí os músicos vão dizer “o que esse camarada está fazendo aqui”. Eles não têm esse direito, como eu não tenho o direito de dizer que um cantor não pode virar ator. O mercado e o tempo é que vão dizer. Se uma influenciadora ou influenciador é convidado para fazer um papel não é só porque tem seguidores. É porque algum escritor ou diretor quer experimentar aquela personalidade em uma novela. Ele pede licença no Sindicato dos Atores e se der certo, deu. Qual o problema? Não pode tolher. Quem regula é o mercado.

Politicamente falando, você nunca subiu em palanques, a não ser o da ‘Diretas Já’…

‘Diretas Já’ não era, na verdade, um palanque, era um clamor, uma busca pela absoluta democracia, pelo direito de votar. Não era partidário, então fiz com prazer, sim. Eu acho que um artista popular tem que saber muito da história de um candidato pra ser propagandista dele. Mas atenção: por quê um artista popular não tem direito de apoiar um político? Ele tem, mas também terá que ter a ombridade de saber receber críticas quando errar ao apontar alguém que não deu certo. Se der certo, palmas para todos. Particularmente, acho que usam muito a expressão ‘em cima do muro’ e um dia eu disse para um colega meu: “estar em cima do muro é uma das melhores coisas que existem porque você pode olhar pra frente, pros lados, pra trás e saber onde estão errando”. Então eu, como artista popular que sei que sou, não apoio ninguém, apoio propostas, plataformas, eu apoio o meu país. Não tenho nenhuma obrigação de apoiar ninguém e não quero. É por isso que o voto é lindo, ele é absolutamente indivisível, ímpar e pessoal. E mais do que nunca, secreto.

Como você se resume neste quesito?

Eu me resumo assim: um homem tolerante, sem preconceitos. absolutamente democrático, libertário e que sonha com a liberdade das escolas públicas funcionando, aumentando o poder do ensino, pagando melhor os professores e dando condições ao grande povo brasileiro de acesso aos hospitais porque temos um excelente SUS. O SUS é maravilhoso, lamento as enormes filas, as enormes esperas, mas como atendimento é lindo. Então quero ser esse brasileiro, que sonha ver a criança brasileira, principalmente a carente, tendo a ocupação escolar. Muitos dirão que é um sonho absurdo, utópico, mas a utopia só é feita a partir de quem se conforma e eu acho que é possível sonhar com a utopia e ela se tornar possível com a vontade política. E eu, do alto da minha idade, 77 anos indo pros 78, sonho cada vez mais com um país maior, de respeito e de respeito a quem é muito carente. Essa é minha meta, minha bandeira e é assim que eu voto.

Créditos: Bianca Portugal (texto) e Divulgação/TV Globo (imagem)

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