E agora, José?

dezembro 22, 2025

O Mico do Ano vai para Zezé Di Camargo em razão do imbróglio com o SBT e com as filhas de Silvio Santos, e NEW MAG analisa o episódio

Uma emissora, seja ela de TV ou de rádio, existe com a finalidade de prestar dois serviços primordiais à população: informar e entreter. O espaço que ela ocupa, seja o de um canal de TV ou o dial no rádio, vem de uma concessão pública. E, para manter-se onde está, precisa honrar com uma série de pré-requisitos exigidos pelo Ministério das Comunicações.

Feito este preâmbulo, vamos a outro: um artista, seja ele de qual segmento for, é, antes de uma celebridade midiática, um cidadão com um diferencial em relação aos demais: tem uma tribuna no palco ou na tela (mesmo a pictórica) e precisa, por isso, atentar para seu discurso. E, atenção, mesmo num protesto silencioso há ali um discurso, ainda que completamente tácito.

Colocadas estas questões, vamos ao cerne desta pauta. O ano chega ao fim e, com ele, NEW MAG faz jus à tradição de brindar seus leitores com nossas eleições. As mais aguardadas são certamente as dos homens e mulheres mais belos e elegantes, que – muita calma nessa hora – serão conhecidos nos próximos dias. Uma escolha é tão aguardada quanto: a do Mico do Ano.

Bom, acho que será necessária outra explanação, às novas gerações, sobretudo. O mico em questão não é o substantivo masculino, mas a gíria, associada a algo que representa um mal feito, um tropeço, uma trapalhada. Ou, em se tratando de um artista de música, uma desafinação.

O ranking foi acirrado, com nomes que fizeram mais do que desafiar regras e leis do bom-senso, mas que ousaram infringir inclusive o Estado de Direito. Até remake de novela entrou no páreo, vejam vocês, mas um nome foi unânime; o do cantor e compositor Zezé Di Camargo.

Querido por dezenas de milhares de fãs, amealhados desde que ele e seu irmão Luciano ganharam as TVs e rádios do país na virada entre as décadas de 1980 e 90, Zezé Di Camargo pode ser apontado como um dos mais importantes nomes do segmento onde atua. E mais: tem, aos 63 anos, seu lugar no panteão dos que não precisam mais provar nada a ninguém.

Não precisavam, melhor dizendo. Tudo parecia tranquilo até que, na madrugada do último dia 15, uma segunda-feira, o artista postou vídeo no qual atacava as filhas de Silvio Santos (1930-2024) e o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) por terem recebido a autoridade máxima do Poder Executivo no país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no evento em que a emissora lançou seu canal exclusivo de jornalismo, o SBT News. Sentindo-se ultrajado, Di Camargo pediu, na ocasião, que o canal suspendesse a exibição do seu especial de fim de ano.

O vídeo, gravado e postado no calor do momento, é aberto com uma frase na qual a concordância verbal passou longe. “Todo mundo sabem (sic)”, declara o cantor no início da sua fala. O lapso acabaria por passar quase que despercebido em razão de outa escolha verbal do artista: a de que a emissora estaria “se prostituindo” ao receber uma autoridade política num evento onde também estiveram o prefeito Ricardo Nunes e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, filiados, respectivamente, ao MDB e ao Republicanos, partidos de centro e de direita.

O “tiro” não teve nada de certo, como na letra de um dos seus mais célebres sucessos. A postagem suscitou vídeos outros com críticas ao artista e em defesa das filhas do saudoso comunicador. Se o estrondo foi grande, o mesmo vale para o estrago provocado – e também para seu ricocheteio. Ele resvalou no próprio atirador, satirizado por comediantes e que acabou por ter, como pedido, seu especial retirado da grade. E mais: sua participação acabou banida de outras atrações da empresa. E pior:  emissoras podem adotar medidas semelhantes em solidariedade à concorrente.

Passada a tempestade, a bonança ainda não veio. O cantor foi ainda apontado como um dos principais beneficiados, juntamente com outros nomes do sertanejo, de receber cachês viabilizados através do uso da… Lei Rouanet, uma das principais vitrines às pedras atiradas por bolsonaristas. E agora, Mirosmar José?

Há uma máxima que diz que um artista leva muito tempo até consolidar seu nome juntamente ao público e à opinião pública. E que tudo pode ruir em razão de algum ato falho. Ainda mais nesses tempos em que as redes sociais alcançaram o patamar de “tribunais”. Zezé Di Camargo chegou a pedir desculpas, mas já era tarde. O estrago já estava feito.

O empresário do cantor é conhecido como Tubarão. E terá de nadar contra a corrente para contornar a situação.  O mesmo vale para a gravadora do artista. Um dos sucessos do cantor é “Preciso de um tempo”. Essa canção não poderia ser mais apropriada para o momento atual.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Lana Pinho/ Divulgação (imagem)

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