O tempo sempre foi um tema central na vida e na obra de Claudia Mauro. Depois de quase vinte anos guardado na gaveta, o primeiro texto teatral escrito pela atriz ganhou finalmente os palcos. “Tempo que existe em mim” fica em cartaz até 25 de setembro no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro.
A atriz tinha 35 anos quando escreveu a peça. Mas só agora, aos 56, transformou o texto em um monólogo e trouxe questões que vive hoje: a menopausa, a transformação do corpo e o etarismo.
— É um espetáculo que revisita quem eu era e dialoga com quem eu sou agora — conta Claudia ao NEW MAG.
A ideia para fazer a montagem remete a uma conversa da atriz — que também é bailarina — com Ney Latorraca (1944-2024), amigo e inspiração, que, de acordo com ela, também vivia num turbilhão de afazeres.
— O Ney falava: “Você precisa escrever um monólogo para você, uma mulher louca, rodando numa barra (de poledance), falando da sociedade”. Ele tinha esse humor dele, e cheguei em casa e escrevi. Esse estímulo foi fundamental. O espetáculo é dedicado a ele — afirma a artista.
Não à toa, a personagem tem muito da própria Claudia em cena. No palco, ela dá vida a uma mulher ansiosa desde o seu nascimento, e que segue correndo contra o relógio:
— Brinco que sou ansiosa desde a barriga da minha mãe. Nasci antes da hora, de oito meses, gorda, com 3,7 quilos, em pleno carnaval (risos). E essa ansiedade atravessa a personagem e a mim mesma.
O espetáculo, dirigido por Alice Borges e Rogério Fanju, traz lembranças pessoais, passagens autobiográficas e momentos de dança. Claudia compartilha histórias da infância com a irmã, da mãe que lhe cantava músicas, das buscas espirituais, da culpa que tantas vezes recai sobre as mulheres.
— Conto coisas verdadeiras da minha vida que se entrelaçam com a da personagem. É como se fosse o tempo dentro da cabeça dela, que também é o meu tempo — explica.
Esse diálogo com a própria vida não é novidade na carreira da artista. O espetáculo “A vida passou por aqui”, inspirado na história da mãe, está prestes a completar dez anos e segue em cartaz no Teatro Fashion Mall, no Rio. Mas, se lá o tom é o drama misturado ao humor, o caminho de agora é outro: um mergulho performático e íntimo sobre existir, segundo a artista.
— Enquanto “A vida passou por aqui” é teatro raiz, esse monólogo mostra meu lado mais ligado à performance, à dança, a esse corpo que se movimenta em cena. É um outro lugar da minha trajetória.
Entre reflexões sobre envelhecimento, crenças, espiritualidade e até a ideia de acaso, Claudia conduz o público com humor e poesia.
— A peça fala de uma mulher que não tem tempo para nada, porque trabalha, cuida do filho, da mãe, do amigo, do cachorro. Isso é muito de hoje, mas sempre foi meu ritmo também. O texto questiona: e se não existisse relógio? E se não existisse calendário? Que idade a gente teria dentro da gente?
O resultado tem emocionado espectadores de diferentes idades:
— As pessoas se identificam muito. Todos lidamos com ansiedade e com essa busca por compreender a nossa breve existência. O público ri e chora porque, no fundo, é sobre nós mesmos.
Além de “Tempo que existe em mim” e “A vida passou por aqui”, a artista tem outros projetos em andamento. Entre eles, a peça “Na próxima estação”, escrita, como antecipado aqui, para seu marido, Paulo César Grande, e para o ator Giuseppe Oristânio — que está na fase de captação de recursos e deve estrear em 2026 — e “Takotsubo – Coração partido”, na qual ela também assina a montagem em parceria com Mônica Guimarães — sucesso atualmente em cartaz no Teatro Fashion Mall.
Créditos: Bruno Nunes Costa (texto) e divulgação (imagem)





