‘Devo muito ao Walcyr’

setembro 26, 2025

Bianca Bin brilha no teatro e fala das relações com tecnologia e com Sérgio Guizé, da gratidão a Walcyr Carrasco e do seu posicionamento sobre maternidade e a escala 6x1

Desde cedo Bianca Bin encantou-se  pelo teatro, onde começou aos 12 anos, e esse amor  guiou seus passos até que, aos 16, ela rumou do interior à capital de São Paulo. Em 2009, a grande virada: em “Malhação”, interpretou Marina, papel que a apresentou ao público brasileiro. Depois, vieram a Fátima de  “Passione”, e Açucena, protagonista de “Cordel encantado”. Ao longo dos anos, fez papéis diversos, incluindo trabalhos marcantes em “Êta, mundo bom” (2016), “O outro lado do paraíso”, no seguinte. A atriz  tem se dedicado a trabalhos mais curtos no cinema, em séries e no teatro. Atualmente, ela está em cartaz em São Paulo com “Job” até este domingo (28) no Teatro Vivo, onde brilha como uma moderadora de conteúdo. Em entrevista exclusiva ao NEW MAG, feita por Zoom, a atriz fala sobre a personagem que encara grandes questionamentos acerca do uso da tecnologia no mundo de hoje, o porquê de não assumir mais trabalhos mais duradouros  e também fala sobre a pressão pela maternidade.  

O que te atraiu na Jane de  “Job” e o que te levou a encarar esse desafio?

A primeira coisa que me atraiu foi o texto. Assim que li, me interessei por aquela dramaturgia. E a de “Job” é muito atual. Foi o que mais me chamou atenção. A minha personagem é diferente de todas as outras que já fiz, e o discurso dela é tão contundente, tão racional sobre a tecnologia, que me fez repensar minha relação com tecnologia e minha ideologia sobre ela. E o mesmo pode acontecer com o público. É uma peça que também me surpreendeu, com um plot twist no final que ninguém espera. E o Edson Fieschi, que é o meu parceiro de cena e produtor da montagem, foi um grande atrativo para mim, ele também produziu “Prima facie” (com Débora Falabella), outra dramaturgia muito pontual e muito específica.

A peça tem uma carga emocional forte e toca em temas sensíveis como saúde mental, ansiedade e os limites no uso das redes sociais. Você consegue se identificar com a Jane em algum desses aspectos?

Trabalho com arte e jamais trabalharia com moderação de conteúdo. Inclusive, antes desse trabalho, eu nem sabia que existia essa profissão, tamanha a minha alienação em relação a esse universo tecnológico. Jane é uma moderadora de uma big tech e seu trabalho consiste em excluir todo o conteúdo impróprio que ainda circula pela internet, tudo que é ilegal, ilícito, violento. A personagem se alimenta disso durante um dia inteiro. Ela vive de ver coisas terríveis que nos faz perder a fé no ser humano. E aí entra um discurso muito importante também: não é a tecnologia que faz as coisas ruins, são as pessoas que são ruins. Quando alguém ataca uma pessoa num post, é porque esse alguém é uma pessoa ruim. Não é sobre o aparelho, não é sobre a tecnologia, e é muito contundente o discurso dela, muito racional, faz muito sentido. E essa mulher de tanto que ela lida com esse conteúdo, tem um surto. Faço psicoterapia há um tempo e a minha psicóloga falou que trata alguns moderadores e que normalmente eles desenvolvem síndrome do pânico. Ela é uma personagem desafiadora para mim, de muitas camadas e esse assunto é muito atual. O trabalho é o propósito de vida para ela. Ela diz: “preciso voltar, não tenho escolha, sou a linha de defesa da internet”. Hoje é a nossa casa, é o lugar onde a gente vive. As piores coisas do mundo vêm à tela do meu computador.

A peça acontece em um cenário quase clínico: apenas duas pessoas em um consultório. Isso exige mais da atuação?

Adoro contracenar com o Edson. A nossa troca é muito genuína, é muito verdadeira, um grande encontro. Tudo facilita essa relação de coxia, de bastidores, de sala de ensaio, como ela se estabelece, facilita muito o jogo de cena, a troca durante o espetáculo entre os atores. Me senti superconfortável neste processo. Devo isso muito ao nosso diretor, Fernando Philbert. Tive que mergulhar nesse mundo (da moderação), tive que pesquisar,  ler muita coisa ruim, chegou uma hora em que precisei cuidar de mim. Graças a Deus eu me cuido, acredito no autoconhecimento, no autocuidado. O fato de ser num consultório de terapia foi até um facilitador. Posso dizer que ali eu tinha alguma familiaridade com o universo da terapia, já tinha experiência. Porém, o que me deixou mais segura foi o fato de ter sido muito bem acolhida pelo Fernando e pelo Edson. Quando sinto que tenho segurança para criar, o terreno é amoroso, afetuoso, aí me entrego e dou o meu melhor. E o Fernando é cirúrgico nas escolhas. Primeiro que é muito cafona esses diretores carrascos, não quero trabalhar mais com nenhum deles, está cada vez mais fora de moda isso.

Você já teve que deixar algum projeto por causa de algum diretor assim? 

Não, fui até o fim. Quem foi embora foi ele (risos)!

Você teve papéis de destaque em novelas do Walcyr Carrasco, como seus personagens de “O outro lado do paraíso” e “Êta, mundo bom”. Qual a importância do Walcyr na sua carreira?

Confio muito no trabalho dele, Sou uma grande admiradora da sua história, da escrita, da inteligência dele. Parece que ele sempre tem cartas na manga, nunca está despreparado, sempre tem muitas ideias e ele vai sem medo de “queimar”. As novelas dele nunca são monótonas, as histórias não se arrastam. Muita coisa acontece. Isso é genial. Devo muito a ele, inclusive o meu marido (Sérgio Guizé), meu grande parceiro.

Você e Guizé se conheceram nos bastidores de “Êta, mundo bom” há quase 10 anos. Como foi reencontrá-lo em cena agora em “Êta, mundo melhor”?

Trabalhar com um parceiro de vida é muito bom, é mais fácil ainda, porque a gente se conhece no silêncio, em cada olhar. E é muita intimidade, tudo fica mais fácil, divertido, leve, prazeroso. Sou grande admiradora do trabalho do Sérgio, ele me ensina muito, o trabalho dele me afeta, me encanta, também o considero um grande ator mesmo. O que ele faz como Candinho é, para mim genial.Parece que esse personagem foi escrito para ele.

Você ficou muito conhecida por seus papéis em novelas, e recentemente fez uma participação em “Êta, mundo melhor”. O que levou você a se afastar de trabalhos mais longos e focar em projetos mais curtos, como filmes, séries e teatro?

Foi por causa da escala 6×1. Agora, quero estabelecer uma relação mais saudável com o meu trabalho e geralmente eles não conseguem me garantir duas folgas, pelo menos duas folgas semanais. Em novelas sempre fiz grandes personagens, o que significa um grande volume de texto, cenas, até na minha folga tinha que decorar 50 páginas de texto. A minha questão é só mesmo as folgas semanais. Ter qualidade de vida, uma relação saudável, saúde mental, relação saudável com o trabalho, não romantizar a estafa. Em tempos de workaholics, quero nadar contra essa corrente, apesar dos meus privilégios. É claro que sei que sou muito privilegiada por poder fazer essa escolha hoje, mas ela está focada diretamente na minha saúde. Fiquei dez anos também fazendo novelas, e, agora aos 30, pensei: que espécie de atriz eu quero ser aos 40? Uma atriz que só fez televisão, ou uma atriz que fez televisão e também teatro, cinema? Escolhi diversificar. É essa atriz que quero ser, diversificada, que passeia pelos três veículos. E o teatro é a base, a essência, e foi ele que me trouxe para a profissão.

Por falar em redes sociais, o meme “Você não imagina o prazer que é estar de volta”, que surgiu na novela “O outro lado do paraíso” através da sua personagem Clara, continua vivo até hoje. Como você lida com essa repercussão? Isso diverte, incomoda ou já virou parte da sua relação com o público?

Eu amo! Até hoje as pessoas me pedem e eu gravo vídeos. Cheguei a compartilhar o vídeo de uma pessoa que foi ver a peça e falou: “vocês não imaginam o prazer que é estar aqui!”. Faz quase oito anos que essa novela passou, e as pessoas ainda me abordam com essa frase. Ainda é falado, virou um grande meme, viralizou muito. Virou meme até no “Big Brother Brasil”. É um grande orgulho para mim, uma honra, mais um débito com Walcyr Carrasco, devo isso a ele.

Por falar em “Big Brother”, você toparia participar de um reality show?

Jamais! Assim, também não posso cuspir para cima. Hoje eu digo que não. Amanhã já não sei, mas hoje não (risos)!

Existe uma cobrança constante para que mulheres estejam sempre “dando conta de tudo” — carreira, relacionamentos, e muitas vezes, a maternidade. Você sente pressão para ser mãe? Como você vê essa expectativa?

Tem muita pressão, e a sociedade sempre vai pressionar. Sempre vão ter pessoas que não concordam. Têm pessoas que me chamam de preguiçosa. Em nenhum momento parei de trabalhar, essas pessoas falam por falar, por ignorância, por desconhecerem a minha verdade, a minha realidade. Mas tenho certeza, e isso eu até disse uma vez numa entrevista, que sustento, banco o incômodo de não agradar a todos com as minhas escolhas. Preciso agradar a mim, sou a minha própria história. Estou fazendo essas escolhas por mim. É fazer revolução, é ser revolucionário em tempos de burnout, de romantização, de estafa, de workaholics. Cada vez mais estou alinhada à minha essência, ao que acredito, desde a escolha de sair da cidade grande, de morar no interior, numa chácara. Para criar os bichos, com grama, para botar o pé na terra, mexer com jardim. Tudo isso vai também desintoxicando essa era tão ansiosa, tecnológica, rápida, e me traz de volta à frequência da minha essência. Somos natureza, somos humanos, precisamos aterrar.

Créditos: Bruno Nunes (texto e entrevista) e reprodução / Instagram (imagem)

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