Declaração de amor ao Brasil

outubro 7, 2025

Regina Casé e Walter Salles aplaudem documentário de Mini Kerti sobre Dona Onete e exibido no Rio de Janeiro

Emicida procurava uma voz carregada de ancestralidade como a de Clementina de Jesus (1901-1987) para entoar um cântico de domínio público na faixa “Eminência parda”, lançada pelo rapper. Ele só encontrou o que buscava em uma voz brasileira: a de Dona Onete. O episódio é relembrado pelo compositor em “Dona Onete – Meu coração neste pedacinho aqui”, documentário de Mini Kerti exibido no Festival do Rio na noite da última segunda-feira (06). 

E a cineasta conseguiu dois grandes feitos: o primeiro deles, o de fazer um retrato fidedigno e completo (ou o mais perto disso) desta que é uma baluarte da música universal, estando tanto à altura de uma Cátia de França quanto ao da cubana Omara Portuondo. O outro feito foi o de levar à exibição grandes nomes do nosso cinema como os cineastas Walter Salles, Andrucha Waddington e Ana Maria Magalhães (uma das musas libérrimas do Cinema Novo),  além dos atores Regina Casé e os irmãos Chico e Enrique Diaz. 

Artista revelada tardiamente, Ionete da Silveira Gama tem mostradas  as facetas que forjaram a mulher que ela é hoje,e cujo aniversário de 85 anos foi registrado pela equipe de filmagem. Estão lá a professora primária,que guarda ainda as cartas dos seus alunos; a sindicalista que clamou pelo reconhecimento dos trabalhadores rurais e – talvez o mais importante na gênese da cantora – a folclorista, que resgata as raízes de estilos como o carimbó e até mesmo o lundu. 

E Mini Kerti vai mais além do que pintar um retrato da sua personagem; faz um grito de alerta pela preservação do bioma e da cultura amazônicas. O filme traz ainda as participações de Fafá de Belém, Dira Paes e de Gaby Amarantos que, no seu encontro com Onete, traça a genealogia da música nortista, estabelecendo os tambores como pilares e destacando a guitarrada como uma criação genuína daquela região. 

E a trajetória desta personagem singular é acompanhada desde o município de Igarapé Miri, aonde é levada ainda criança após deixar a Ilha do Marajó, sua terra natal, até ela ganhar o mundo, em viagens pela Europa e pela Oceania – e cujos vídeos de arquivo só enriquecem a narrativa. 

O canto de Dona Onete é turvo como as águas dos rios amazônicos. E a grandeza desta artista e mulher é revelada pela visão em nada turva de Mini Kerti, diretora sensível e eclética, capaz de ir do rock do Barão Vermelho (tema de um dos seus documentários) ao tecnobrega cheio de molejo de Dona Onete. 

E o coração do público treme,treme, treme de orgulho e no compasso da guitarrada. 

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Divulgação/Festival do Rio (imagens)  

Regina Casé e Walter Salles
A diretora Mini Kert
Plinio Profeta e Tainá Müller
Chico Diaz

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