‘Cícero não sabia dançar’

agosto 13, 2025

Marina Lima e Adriana Calcanhotto revelam peculiaridades de Antonio Cícero em tributo ao poeta no Rio de Janeiro

“A música deu uma sensação de pertencimento a ele”. A frase refere-se a um dos mais importantes poetas surgidos na cena pop brasileira dos anos 1980 (e que só estrearia na literatura na década seguinte), Antonio Cícero (1945-2024). A fala foi proferida por aquela que o conheceu “lá nos primórdios”: Marina Lima, sua irmã caçula e parceira em clássicos do cancioneiro pop.

Marina participou, na noite da última terça-feira (12), do lançamento no Rio de Janeiro de “Fullgás” (Cia das Letras), edição com a poesia reunida de Cícero. O encontro contou ainda com outros dois importantes parceiros do compositor, Adriana Calcanhotto e Arthur Nogueira. A conversa, no Estação NET Botafogo, foi mediada pela poeta Alice Sant’Anna, responsável pela edição.

— Com as canções, e até ele conhecer você (Adriana), Suzana (de Moraes) e o Waly (Salomão), a música deu uma sensação de pertencimento a ele. Ele saía para dançar comigo em discoteca, imagina? – observou Marina revelando uma característica do irmão: — O Cícero não sabia dançar. Ele ficava dançando de longe, brincando para eu rir. A música trouxe para ele um lugar no mundo, (um lugar) de alegria.

O comentário levou Adriana a revelar outra peculiaridade do amigo e parceiro. Houve uma época em que o letrista quis estudar música, certamente movido pela mesma curiosidade que o levou a aprender idiomas basilares do pensamento filosófico.

— Lembro de uma época em que ele quis estudar música. Assim como ele aprendeu grego e alemão, ele queria ler (partituras), mas depois desistiu Quando ajudei o Marcelo (Pies, viúvo de Cícero) com os livros, vi a quantidade de livros legais que ele tinha sobre música. Mais do que ouvir música, ele leu muito sobre música – comentou Adriana, que leu, na ocasião, poemas elaborados a partir de melodias compostas por ela, como “Inverno”, dedicado a Suzana de Moraes (1940-2015), sua ex-companheira.

Um dos textos lidos por Marina foi “Canção da alma caiada”, tema inaugural da parceria entre os irmãos. A canção, gravada por Maria Bethânia, foi censurada por trazer o verso “Eu não me enquadro na lei”. Marina lembrou, inclusive, o período em que o artista sentia-se como “um peixe fora d’água” na juventude e o quão importante foi a música para dar-lhe um lugar de pertencimento:

— Para ele, o mundo foi muito complexo. A música ter trazido a ele o fato de ser conhecido, ser popular e tocar no rádio foi um alívio para ele. Ele percebeu que havia um lugar para ele no mundo.

Lugar este indelével e em nada fugaz.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e reprodução/instagram (imagem)

Cícero por eles: Arthur Nogueira, Marina Lima, Adriana Calcanhotto e Alice Sant’Anna

 

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