Depois de virar fenômeno no Brasil com o primeiro solo teatral de Débora Falabella, a peça “Prima facie”, da australiana Suzie Miller, abre um novo capítulo — desta vez em Moçambique. A adaptação local, dirigida por Expedito Araújo, estreia no dia 04 de dezembro no Instituto Guimarães Rosa — Maputo, dentro da Embaixada do Brasil. A montagem marca também os 30 anos de carreira do ator, diretor e produtor cultural brasileiro, que vive no país e desenvolve projetos sociais ligados ao teatro.
O monólogo, que acompanha uma advogada confrontada por uma crise pessoal após sofrer violência sexual, mantém sua espinha dorsal: expor a fragilidade do sistema judicial e reabrir debates sobre normas sociais, relações de poder e o papel da mulher na sociedade. Para sublinhar o caráter universal da experiência, a versão moçambicana trará algo inédito — onze atrizes, de quatro países diferentes, se revezam em cena.
— A escolha pela montagem busca esclarecer que as situações de violência baseada no gênero não são localizadas e que a dor de quem as vive é algo tão humano que a geografia perde relevância — explica o diretor.
A montagem, que fica em cartaz até 07 do próximo mês, também vai promover debates pós-espetáculo com especialistas de justiça, gênero e com o próprio elenco. A dramaturga Suzie Miller — que acompanha de perto as adaptações internacionais da peça, especialmente em países onde as produções raramente conseguem arcar com direitos autorais — autorizou a realização sem custos.
A autora, que foi advogada antes de se dedicar à escrita, conta que a peça nasceu de um incômodo antigo:
— A ideia por trás de “Prima facie” tem estado presente na minha mente desde os meus dias de faculdade de Direito, anos antes de eu ser dramaturga.
Ela comenta que o texto permaneceu guardado até encontrar um ambiente social capaz de acolhê-lo.
— À luz do movimento global #MeToo (contra o assédio e agressões sexuais), a peça pôde acontecer — diz a autora.
A vivência jurídica, segundo Suzie, ajudou a revelar o descompasso entre experiência feminina e estrutura legal.
— O sistema legal é moldado por uma experiência masculina — afirma Suzie, lembrando que gerações de juízes e legisladores homens consolidaram normas que não dialogam com a realidade das mulheres.
Por isso, acrescenta, os tribunais acabam colocando a vítima como uma culpada.
— A avaliação da inocência ou culpa concentra-se em saber se o investigado acreditava razoavelmente que existiu consentimento por parte da vítima. As mulheres, mesmo sendo vítimas, acabam frequentemente no banco dos réus — diz a dramaturgia, que faz uma observação: — As mulheres que testemunham em casos de agressão sexual simplesmente não são acreditadas, até mesmo por outras mulheres.
A autora, traduzida para mais de 30 idiomas e com montagens em mais de 40 países, vive um momento especialmente destacado na carreira. Seu trabalho mais recente, “Inter alia”, estrelado por Rosamund Pike e dirigido por Justin Martin, lotou sessões no National Theatre, em Londres, Inglaterra, entre julho e setembro de 2025 e já tem temporada confirmada para o West End, considerado a Broadway inglesa.
A primeira grande ascensão internacional de Miller, porém, veio justamente com “Prima facie”: a montagem de 2022 protagonizada por Jodie Comer chegou a Broadway, venceu o Tony de Melhor Atriz e levou três prêmios no Olivier Awards, consolidando sua circulação global. E agora, é a vez de Moçambique testemunhar a força da montagem.
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