Bodas de pérola

novembro 14, 2025

Expedito Araújo celebra 30 anos de carreira com direção de "Prima facie", da dramaturga Suzie Miller, em Moçambique

Depois de virar fenômeno no Brasil com o primeiro solo teatral de Débora Falabella, a peça “Prima facie”, da australiana Suzie Miller, abre um novo capítulo — desta vez em Moçambique. A adaptação local, dirigida por Expedito Araújo, estreia no dia 04 de dezembro no Instituto Guimarães Rosa — Maputo, dentro da Embaixada do Brasil. A montagem marca também os 30 anos de carreira do ator, diretor e produtor cultural brasileiro, que vive no país e desenvolve projetos sociais ligados ao teatro.

O monólogo, que acompanha uma advogada confrontada por uma crise pessoal após sofrer violência sexual, mantém sua espinha dorsal: expor a fragilidade do sistema judicial e reabrir debates sobre normas sociais, relações de poder e o papel da mulher na sociedade. Para sublinhar o caráter universal da experiência, a versão moçambicana trará algo inédito — onze atrizes, de quatro países diferentes, se revezam em cena. 

— A escolha pela montagem busca esclarecer que as situações de violência baseada no gênero não são localizadas e que a dor de quem as vive é algo tão humano que a geografia perde relevância — explica o diretor. 

A montagem, que fica em cartaz até 07 do próximo mês, também vai promover debates pós-espetáculo com especialistas de justiça, gênero e com o próprio elenco. A dramaturga Suzie Miller — que acompanha de perto as adaptações internacionais da peça, especialmente em países onde as produções raramente conseguem arcar com direitos autorais — autorizou a realização sem custos.

A autora, que foi advogada antes de se dedicar à escrita, conta que a peça nasceu de um incômodo antigo: 

— A ideia por trás de “Prima facie” tem estado presente na minha mente desde os meus dias de faculdade de Direito, anos antes de eu ser dramaturga. 

Ela comenta que o texto permaneceu guardado até encontrar um ambiente social capaz de acolhê-lo.

— À luz do movimento global #MeToo (contra o assédio e agressões sexuais), a peça pôde acontecer — diz a autora. 

A vivência jurídica, segundo Suzie, ajudou a revelar o descompasso entre experiência feminina e estrutura legal. 

— O sistema legal é moldado por uma experiência masculina — afirma Suzie, lembrando que gerações de juízes e legisladores homens consolidaram normas que não dialogam com a realidade das mulheres.

Por isso, acrescenta, os tribunais acabam colocando a vítima como uma culpada. 

— A avaliação da inocência ou culpa concentra-se em saber se o investigado acreditava razoavelmente que existiu consentimento por parte da vítima. As mulheres, mesmo sendo vítimas, acabam frequentemente no banco dos réus — diz a dramaturgia, que faz uma observação: — As mulheres que testemunham em casos de agressão sexual simplesmente não são acreditadas, até mesmo por outras mulheres.

A autora, traduzida para mais de 30 idiomas e com montagens em mais de 40 países, vive um momento especialmente destacado na carreira. Seu trabalho mais recente, “Inter alia”, estrelado por Rosamund Pike e dirigido por Justin Martin, lotou sessões no National Theatre, em Londres, Inglaterra, entre julho e setembro de 2025 e já tem temporada confirmada para o West End, considerado a Broadway inglesa. 

A primeira grande ascensão internacional de Miller, porém, veio justamente com “Prima facie”: a montagem de 2022 protagonizada por Jodie Comer chegou a Broadway, venceu o Tony de Melhor Atriz e levou três prêmios no Olivier Awards, consolidando sua circulação global. E agora, é a vez de Moçambique testemunhar a força da montagem.

Crédito da imagem: divulgação

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