Atenção aos sinais

setembro 21, 2025

A pessoa com tendência suicida apresenta índices claros, e o Dr Jorge Jaber aponta para alguns deles no seu artigo deste domingo (21)

Um dos equívocos mais recorrentes em relação ao suicídio é encará-lo como um processo sempre silencioso, que ocorre sem aviso prévio, como um acontecimento surpreendente e, portanto, quase inevitável. Isso nem sempre é verdade. Apesar de alguns casos realmente corresponderem a esse perfil, a maioria dos indivíduos em risco iminente de interromper a própria existência emite, de alguma forma, sinais de estar em perigo. Verdadeiros pedidos de socorro, uns discretos, outros quase explícitos, que valem a pena conhecer, para ajudar a prevenir novas ocorrências.

Antes de enumerá-los, é preciso lembrar que a mera identificação desses gritos de alerta não funciona como um diagnóstico formal, tarefa exclusiva de profissionais. O suicídio é um assunto delicado, e a inegável necessidade de discuti-lo sem subterfúgios não pode ser confundida com falta de tato ou liberdade para interferir diretamente na vida de outras pessoas, mesmo as mais queridas. Uma boa conversa, franca, empática e sem julgamentos, é um ótimo primeiro passo, mas os seguintes – definição de medicamentos ou terapias, se necessário – devem ficar a cargo do psicólogo ou psiquiatra.

O que, afinal, deve acender o alerta? Como saber se aquele tio que parece tristonho e cabisbaixo demais depois de perder a esposa não só pensa no assunto como está realmente disposto a se matar? A Ciência ainda não tem essa resposta, pois há diversos perfis de suicidas. Algumas condições são, no entanto, fatores comprovados de risco, como transtornos mentais graves – no topo da lista, a depressão –, consumo excessivo de álcool e drogas e, em primeiro lugar, o histórico da vítima: cerca de 40% dos casos fatais foram precedidos por uma tentativa malsucedida.

As palavras também podem indicar situações de risco. Frases como “queria desaparecer”, “sou um peso para os outros”, “a vida não tem sentido” ou “não aguento mais” e falas frequentes sobre a própria morte, mesmo em tom de brincadeira, precisam ser encaradas a sério. Principalmente se acompanhadas de gestos simbólicos e aparentemente fora do contexto ou em momento inadequado, como a doação de pertences pessoais valiosos ou importantes ou conversas em clima de “acerto de contas”, como numa despedida antecipada daqueles a quem amamos.

Outro sinal visível é o comportamento. O indivíduo se afasta da família e dos amigos, às vezes rompendo até antigas relações afetivas. Esquece os hábitos de higiene, pouco preocupado com a aparência e a saúde em geral, e exibe alterações repentinas no humor. Bebe ou consome drogas com maior frequência e perde a capacidade de concentração e o entusiasmo por atividades antes prazerosas, enquanto, por outro lado, adquire novos – e reveladores – interesses: armas, venenos, cordas e outros instrumentos potencialmente letais.

O lado emocional também manda seus recados. Há um quadro de tristeza profunda e permanente, desesperança e culpa intensa, ainda que sem uma razão clara. A pessoa demonstra agitação e irritabilidade, com eventuais explosões de raiva, também sem motivo aparente, e expressa sentimentos de vazio ou inutilidade. Esses sinais, principalmente quando a vítima tem histórico de violência doméstica ou bullying, acaba de sofrer uma perda relevante – luto, separação, desemprego – ou enfrenta uma doença crônica ou terminal, também são pontos que merecem atenção.

Importante lembrar que a manifestação isolada de um desses fatores não é, por si, evidência de ideação suicida. A presença simultânea de alguns deles é que precisa ser vista com preocupação. Na dúvida, porém, é melhor pecar por excesso do que pela falta. Converse com o possível suicida, ouvindo-o sem julgamentos, e incentive-o a procurar ajuda profissional – disponível até na rede pública. O Centro de Valorização da Vida, que atende 24 horas por dia pelo telefone 188, é outra boa opção. Em quadros de risco iminente, não o/a deixe sozinho/a: peça ajuda pelo 192 ou leve-o a um hospital de emergência.

Por fim, uma última mensagem – na verdade, um pedido. Divulgar essas e outras informações confiáveis sobre o suicídio é uma forma simples de ajudar a combater essa epidemia mundial, causa de tanta dor e prejuízos de toda ordem. Uma missão coletiva, acessível a todos e que não se precisa se resumir a setembro. O compromisso com a vida, afinal, não tem dia ou hora marcada.

Jorge Jaber, psiquiatra e grande benfeitor da Academia Nacional de Medicina

https://clinicajorgejaber.com.br/novo/

Crédito da imagem: reprodução / Internet

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