‘Amável como a Rita’

fevereiro 17, 2026

Jornalista especializado na obra de Rita Lee destaca os acertos da Mocidade na homenagem à eterna diva da música pop

A trajetória e o legado de Rita Lee (1947-2023) deram samba. E não poderia ser diferente em se tratando de uma artista que, de forma única, revolucionou a música pop ao acrescentar a ela outras influências sonoras e musicais. A cantora e compositora foi homenageada pela Mocidade Independente de Padre Miguel no enredo que abriu, na noite da última segunda-feira (16), a segunda noite de desfiles do Grupo Especial no Rio de Janeiro. E NEW MAG ouviu o jornalista Beto Feitosa, notório conhecedor da obra da artista, que aponta a seguir os pontos altos da homenagem.

– O grande trunfo foi o de levar à avenida as muitas facetas da Rita, uma artista inesgotável. Você não pode resumir a Rita a uma cantora e compositora; ela é uma artista como poucas no mundo: escritora, atriz, dirigiu seus próprios shows… A Rita é um acontecimento. Ela nunca teve limites, e nós nunca chegamos perto de conhecer seu limite, E a escola pincelou isso de várias maneiras muito bonitas, numa homenagem muito emocionada, genuína e amável como a Rita é – observa o jornalista, destacando outro acerto da escola: – A escola foi colorida, foi bonita, alegre, e trouxe muita coisa dela: a Rita defensora dos animais e das liberdades, e eles pegaram muito forte neste viés. Pouca gente pega a Rita sob o viés político quando ela é muito política. Sem entrar em discussões político-partidárias, a escola fez uma ode à liberdade.

E fez mesmo. Um dos pontos altos foi quando o carro que representava a cela onde Rita foi presa em 1976 transformou-se num disco voador, alçando a artista às alturas e ao sucesso que a coroou na década seguinte.  O episódio foi um dos muitos que honraram o legado da homenageada. Outro foi o próprio samba-enredo, a cara da homenageada sem desmerecer a pegada da escola, como ele aponta:

– Misturar rock com samba teve tudo a ver, uma vez que a Rita nunca se limitou a nenhum gênero musical. Ela tinha a alma roqueira, mas ia da valsa ao heavy-metal, passando pelo chorinho e pelo samba, e a escola soube pegar isso através de suas múltiplas personagens, essas Ritas que formam uma entidade importantíssima e inclassificável.

Em meio a tantos acertos, dois momentos são apontados pelo jornalista como ápices da passagem da agremiação pela Sapucaí.

–  Achei linda a emoção do Roberto. Ele é fundamental por ter entendido a liberdade da Rita e a amplitude do pensamento dela, e a parceria entre eles fez tudo isso explodir. Os dois colocaram cores brasileiras no pop internacional, e o papel do Roberto é fundamental nesta história – enaltece Feitosa que, no quesito irreverência, destaca outra passagem pela avenida: Adorei a Ovelha Negra com o beque (risos). Achei a cara dela. Rita acabou criando várias ovelhas negras ao dar liberdade à garotada, e isso se dá ainda hoje através da sua música. A garotada de hoje é apresentada a uma liberdade que Rita prega desde os anos 1960.

E o site pega carona em uma licença poética da compositora e perguntou ao pesquisador se vale tudo no País do Tio Samba. E, segundo o especialista, em se tratando de reverenciar o pioneirismo de Rita, vale e muito:

– Vale homenagear uma pessoa que soube dar cores brasileiras ao rock n’ roll. Ela soube pegar as influências da música estrangeiras e juntá-las ao caipira paulistano e ao samba. A música “2001”, composta com Tom Zé, é uma moda caipira com temática futurista. Já o último disco de inéditas, de 2012, tem ladainha e termina com um teremim (um dos primeiros instrumentos eletrônicos).

O legado de Rita Lee aí está e tem tudo para ser descoberto pelas novas gerações e animar as vidas daqueles que foram embalados e acalentados pelos sucessos e pelos lados B desta que é, como eternizado no enredo, a “Padroeira da Liberdade”.

– Tomara que o mundo continue se interessando pelo que ela disse e vai dizer por muito tempo ainda. A Rita não esteve somente à frente do seu tempo, ela está à frente do mundo. Ela é projetada sobre um futuro que ainda vai chegar.

E, como ela própria eternizou, “se Deus quiser”. Bailemos com ela, então, hoje e sempre!

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e reprodução (instagram)

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