‘Ainda gosto de ser jornalista’

novembro 16, 2025

Fernando Molica reúne crônicas em livro que o coloca entre os mestres que mesclam ficção e jornalismo

Fernando Molica degustava uma feijoada no bairro de Oswaldo Cruz, Zona Norte do Rio de janeiro, quando a responsável pela iguaria recebeu uma ligação no celular. Do outro lado da linha, seu cunhado pedia que guardasse para ele um quinhão daquela maravilha. A anfitriã foi taxativa: “Missa, aqui em casa, só de corpo presente”. O jornalista viu naquela resposta o lampejo para um texto. A ideia deu vazão a uma crônica, uma das quase 70 escritas por ele e reunidas agora em livro.  “Meninos que brincaram na lua” (Tinta Negra) é o primeiro livro no qual Molica, autor já de dez títulos, mostra aos leitores a verve de cronista.

– A gente é viciado hoje em telas, e você não faz uma crônica olhando para a tela – explica ele que, em mais de quatro décadas dedicadas ao jornalismo, integrou a equipe do Fantástico, da TV Globo, e passou pelas redações de O Dia (onde brilhou à frente do “Informe do Dia, com notas sobre política),Folha de São Paulo e do Estado de São Paulo, onde começou como estagiário e foca.

Por conta dos furos dados na época da Informe, Molica foi e é comumente associado ao noticiário político, vertente à qual dedica-se como articulista e colunista do Correio da Manhã. Mas a paixão pela crônica é antiga e remete à virada dos anos 1970 para a década seguinte, quando não perdia os textos de Fernando Sabino (1923-2004) em O Globo. Sabino é um dos craques na Seleção que levou aquele leitor, criado no bairro da Piedade, a se interessar pelo gênero ali no limiar entre a ficção e o fato jornalístico.

– O Paulo Mendes Campos era genial também. Ele era mais melancólico, mas era um grande cronista. O Joaquim Ferreira dos Santos tem uma pegada mais lírica e é grande também – elenca Molica que, diante do pedido para apontar para um nome da nova geração, responde sem titubear: – Marcelo Moutinho!

Indagado se deixaria aos poucos o jornalismo de lado para dedicar-se mais à escrita ficcional, ele sai em defesa da paixão ainda latente pelo ofício, abraçado por ele há mais de quatro décadas:

– Dificilmente romperia por completo com o jornalismo. Sou escritor, eu sei, mas meu sustento vem do jornalismo. Sou aquele jornalista-raiz, jornalista-jornalista que, mal comparando, é como um zagueiro. O zagueiro não é um coringa, ele é zagueiro-zagueiro. A cabeça do ficcionista é diferente, mas o fato é que ainda gosto de ser jornalista.

Fiel à sua essência, esse jornalista-zagueiro sabe que os tempos são outros e que a relação do leitor com a notícia não é mais aquela, o que levou os grandes veículos de imprensa a buscarem outras fontes de renda.

– O faturamento dos jornais impressos diminuiu muito. Os jornais são hoje plataformas de eventos. Eles tiveram de buscar formas de se manter ativos e interessantes para o público – reconhece ele apontando para o fato de que a mudança ainda está em curso: – Hoje você consome o que quiser e quando quiser.

E o cronista – Molica sabe bem disso—tem entre seus papéis o de agir naquilo que Guimarães Rosa (1908-1967) chamou de “descanso na loucura”.

– A crônica te dá um respiro nesse turbilhão de acontecimentos verídicos e muitas vezes cruéis. A tua sensibilidade fica aguçada. Ela te leva a olhar o mundo com seus próprios olhos.

E os olhos de Fernando Molica são como os ombros naquele poema do Drummond: eles suportam o mundo. Coisa de quem ama o ofício da escrita, seja ela ficcional, jornalística ou a mistura de ambas. E, como ele escreve num texto sobre o encontro entre um menino e um marreco na Lagoa Rodrigo de Freitas, “o amor tem uma capacidade ilimitada de perdoar o ridículo”. E o mundo, inclusive.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagem)

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