Poucas vozes atravessaram a música brasileira com a força de Elza Soares (1930-2022). Rascante, suingada e inconfundível, foi com ela que Elza transformou o samba, flertou com a bossa nova, atravessou gerações e chegou aos anos 2000 gritando contra violência contra a mulher e contra o racismo cercada por novas tecnologias. Quatro anos depois de sua morte, é justamente essa voz que conduz “ELZA”, novo documentário de Eryk Rocha. O filme reúne imagens inéditas, arquivos raros e conversas registradas pelo cineasta ao longo daqueles que foram os últimos oito anos de vida da artista.
No longa, cuja estreia acontece na Première Brasil do Festival do Rio, Rocha entrega a narrativa à voz de Elza. É ela própria quem costura suas memórias, desejos e reflexões, conduzindo o espectador por diferentes momentos de sua vida. Nessa tessitura íntima, imagens inéditas e arquivos raros vão ampliando o relato em primeira pessoa. A música também ocupa o centro da narrativa, percorrendo diferentes estágios de sua obra.
E a voz esteve no centro de tudo desde o começo. Foi com ela que Elza chamou a atenção de Ary Barroso (1903-1964) em um programa de calouros, nos anos 1950, e ganhou projeção nacional pouco depois, com “Se acaso você chegasse”. Décadas mais tarde, em 1999, seria eleita pela BBC de Londres a cantora brasileira do milênio. Uma trajetória marcada por reinvenções, perdas, conquistas e quase sete décadas de música naturalmente despertou outros olhares.
Contar a vida de uma personagem tão icônica exige fôlego e traz uma grande responsabilidade. Eryk Rocha, no entanto, chega a esse desafio com uma trajetória sólida no documentário e passagens pela música brasileira. Em “Jards”, de 2012, acompanhou Jards Macalé (1943-2025) durante a gravação de um disco, entre ensaios, performances e conversas. Em 2016, “Cinema Novo” conquistou o L’Œil d’Or em Cannes. Filho de Glauber Rocha (1939-1981) e Paula Gaitán, o diretor retornou ao festival em 2024 com “A queda do céu”, codirigido por Gabriela Carneiro da Cunha.
Elza foi cantada, encenada, filmada. Taís Araújo viveu a cantora em “Garrincha — Estrela Solitária”, de 2003, sobre o jogador com quem ela manteve uma relação por 17 anos. Em 2018, sete atrizes se revezaram para contar diferentes momentos de sua vida no musical “Elza”. Quatro anos antes, Elizabete Martins Campos havia lançado “My Name Is Now, Elza Soares”, documentário feito com a participação da própria cantora.
Créditos: Érica Magni (texto) e divulgação (imagens)





