Priscila Fantin é um nome que marcou gerações na teledramaturgia brasileira. Sua trajetória começou em 1999, quando interpretou a protagonista Tati em “Malhação”, papel que conquistou o coração do público e lhe proporcionou uma base sólida para sua carreira. Seguiram-se personagens inesquecíveis na TV, como a italiana Maria em “Esperança”, a vilã Olga em “Chocolate com Pimenta”, a mística Serena em “Alma gêmea” e por fim a doce Diana em “Êta, mundo bom!”. Longe das novelas desde 2016, Priscila se reinventou. Ela é a apresentadora e criadora do programa “Menos pausa”, com estreia marcada para o dia 08 de setembro no canal de mesmo nome no YouTube. A atração tem como objetivo desmistificar a menopausa e oferecer informações valiosas para mulheres que enfrentam essa fase da vida. Em uma conversa por telefone, Priscila compartilhou com exclusividade com NEW MAG os bastidores desse novo projeto, suas motivações pessoais, a importância de quebrar tabus em torno da saúde feminina e também revela se voltaria às novelas.
Como surgiu a ideia do “Menos pausa”? O que fez você sentir a necessidade de produzir o programa?
Ninguém falava sobre menopausa. Inclusive, desde que comecei a criar e a produzir esse projeto, vi que aumentou muito o número de informações sobre menopausa. Vi até que teve o quadro do Fantástico. Há cada vez mais congressos e palestras sobre isso. E fico muito feliz, porque é fundamental que se fale sobre isso. No início do ano, quando eu decidi fazer esse programa, junto com a nutricionista Vanessa Costa, que é a minha sócia no projeto. comecei a querer entender mais sobre esse universo, porque tive uma grande queda hormonal três anos atrás. E comecei a ver que as mulheres na minha idade, as minhas amigas, estavam tendo as mesmas sensações que tive na ocasião. A frase que acontece pra todo mundo, para todas as mulheres que chegam nesse período é: “eu não estou me reconhecendo e não está acontecendo comigo”. E é muito ruim não saber o que é isso e muito angustiante não nos reconhecermos. Tudo que nós fazíamos antes com o nosso corpo não funciona mais. O nosso metabolismo está extremamente lento. Se você mantém a mesma dieta, o mesmo treino, mesmo assim engorda. E ninguém foi avisado que passaria por isso. Passei sem saber o que estava acontecendo e foi a mesma coisa com todo mundo à minha volta também. Leio muitos livros em relação a isso, e é histórico, nenhuma mulher está preparada para a chegada dos sintomas da transição para menopausa.
Isso a que você se refere é o chamado climatério?
Há uma grande confusão, inclusive nas pesquisas científicas, sobre essa terminologia. Como as pesquisas começaram há no máximo cinco anos, são poucos os livros sobre o tema. É um assunto muito recente, até mesmo para medicina e para a ciência. O termo climatério, dizem estudos mais populares, que ele abrange a perimenopausa, a menopausa e a pós-menopausa. Porém, ele começa antes da perimenopausa. É uma condição biológica que também acontece aos homens, porque é simplesmente o envelhecimento biológico do corpo humano, nada a ver com os ovários ainda. O climatério começa a partir do momento que o nosso corpo atingiu o seu pico de produção de todos os hormônios do GH, que é o hormônio de crescimento, do DHEA, de várias substâncias que faziam com que continuasse crescendo, criando pele, músculo, com a cognição mental ativa e tudo mais, e começa a declinar. A partir dos 25 anos, todo o corpo biológico humano começa a diminuir as taxas de produção de vários hormônios, neurotransmissores e por aí vai. Especificamente sobre os ovários, aí sim, a gente fala só de mulheres, começa a perimenopausa. Uma perimenopausa pode durar de 2 a 14 anos, dependendo da mulher. Nós, mulheres, passamos muito tempo nesse período de transição, mas a menopausa só é diagnosticada depois de um ano sem menstruar. Na perimenopausa, a mulher pode menstruar um mês, ficar seis meses sem menstruar e, de repente, menstruar horrores. O volume de sangue fica totalmente diferente. É uma grande montanha-russa nessa produção ovariana. E é isso que causa os maiores e piores sintomas, os mais desconfortáveis. E nem toda mulher vai ter os mesmos sintomas ou as mesmas oscilações hormonais mensais. É realmente uma roleta-russa. E com o programa, quero informar as mulheres que isso tudo vai acontecer.
Você acredita que a menopausa ainda é um tabu na sociedade? O que mais dificulta o diálogo sobre esse assunto, na sua visão?
Ela é sim um tabu. Historicamente foi negligenciada pela medicina. As pesquisas nunca foram feitas em cérebros femininos. Descobri recentemente que o cérebro feminino funciona de forma diferente do cérebro masculino. E sempre que você pega um livro mais antigo para estudar, é a mulher no momento da menopausa é colocada como inútil, histérica, sem serventia. São termos muito duros, inclusive.
Tem uma boa dose de machismo aí…
O machismo começou lá em Darwin, quando ele falou que a mulher era um ser inferior porque o cérebro dela pesava menos do que o cérebro masculino. Tem mais a ver com constituição física do que qualquer outra coisa. Mas aí é historicamente um tabu mesmo, e existiu esse estigma. As próprias mulheres não falam sobre isso. Em casa não se fala sobre isso. Eu, pequenininha, só sabia o que era menopausa porque minha tia tinha muitas ondas de calor. Para mim, a menopausa se resumia a isso. É muito mais fácil estigmatizar as mulheres do que querer entender o que está acontecendo. Quando a gente passa a entender, vê que há uma razão neuroendócrina, fisiológica, para esses comportamentos. E, mesmo assim, ficamos jogada de escanteio, não somos ouvidas, e nos enquadram em caixinhas de “chata”, de “isso é coisa de mulher”. Quantos médicos não dizem apenas: “ah, é assim mesmo”, e mandam a mulher voltar para casa mesmo com vários desconfortos? Pois é. Porque não temos médicos capacitados para isso. Os especialistas estão sendo formados só agora. Não havia uma matéria em toda a formação da medicina que ensinasse a cuidar de mulheres a partir dos 40 anos. Até porque, nas gerações passadas, a expectativa de vida era de 60 anos. Quando a mulher estava entrando na menopausa, era praticamente o fim da vida. Muitas eram internadas em manicômios por causa dos sintomas e acabavam morrendo lá. Hoje, a expectativa de vida chega aos 90 anos. Estamos na metade da vida quando começamos a sentir esses desconfortos. E é uma sacanagem, porque estamos no auge da potência, da produtividade. Está tudo funcionando lindamente, com maturidade, e de repente o corpo começa a dar defeito. Temos um longo caminho pela frente, mas também temos o poder de mudar a forma de conviver com esses sintomas, e essa é a função do programa. Com comprovação científica, podemos passar por isso de forma mais branda
Você acha importante que os homens também aprendam sobre a menopausa? Como isso pode impactar positivamente nos relacionamentos?
Com certeza. Algumas médicas costumam falar isso, que quando se trata uma mulher com sintomas da menopausa, acaba se tratando uma família inteira. No programa temos um quadro que fala sobre os homens de forma bem humorada, com memes, com um homem ensinando ao outro homem sobre como lidar com as mulheres nessa situação. Não é questão de ter paciência, e sim de saber que é fisiológico. A mulher está ali na luta, tendo um monte de dificuldade para lutar contra ao mesmo tempo. O homem pode dar suporte e fazer com que essa fase seja melhor e não pior na vida de ambos.
E como será a interação com o público no “Menos pausa”?
Vai ter o “Jogo da velha”, que é um quadro que vamos ligar para as pessoas que se inscreveram. São perguntas que fazemos com duas espectadoras sobre essas fases da mulher, com o formato de um jogo da velha. Acaba sendo uma forma superdivertida de levar mais informações. E além disso elas ganham um presentinho. E é bem nostálgico, remete ao tempo em que os apresentadores de TV faziam jogos com as pessoas por telefone, era muito bacana.
Você ficou conhecida por sua carreira como atriz. Foi difícil para você trocar as personagens da ficção por essa nova face como apresentadora?
Tive experiência 20 anos atrás no programa de viagens que fazia no GNT, o “Oi mundo afora”, mas apresentar da forma que vou fazer no “Menos pausa” é a primeira vez. Sou como uma organizadora de tudo que vai acontecer. Costuro os pontos e as pessoas para trazer o máximo de informação, da forma mais clara e acessível. Eu mesma estou fazendo os roteiros. Como gosto de estudar, sou muito curiosa, falo com propriedade sobre o que está acontecendo em cada episódio. E além disso me envolvo no cenário e nos figurinos também.
Você foi campeã da “Dança dos famosos”, quadro do programa “Domingão com Huck”, da TV Globo, em 2023. Está acompanhando a edição deste ano? Já tem alguma torcida?
Estive na abertura da “Dança” e assisti a estreia, mas tenho acompanhado mais pelas redes sociais. Porque se deixar, fico trabalhando 24 horas por dia (risos). Não tenho torcida formada e nem poderia, têm amigos meus que estão participando do quadro.
“Êta, mundo bom”, em 2016, foi sua última novela. Por que aconteceu esse afastamento? Há algum tipo de personagem ou história que faria você voltar para as novelas?
Desde antes de “Êta mundo bom”, já estava numa busca de entender o que queria fazer da minha vida. Desde que entrei na TV, deixei muito a vida me levar. Fui deixando, fui aceitando, fui indo, e chegou uma hora que falei: “espera aí, deixa eu parar, deixa eu pensar, deixa eu ver o que quero fazer”. Comecei a me aprofundar mais no teatro, comecei a estudar mais, autoconhecimento, terapias… Foi um movimento meu mesmo, de querer parar um pouco de fazer novela. Uma volta não está fora de cogitação, é superpossível. A TV é um lugar muito familiar, vivi muito ali dentro. Sempre que estou ali é muito gostoso, natural, orgânico. Mas, com o estilo de vida que tenho hoje, com o domínio que eu tenho sobre a minha própria vida, não só profissional, mas também pessoal, e da minha saúde mental, preciso conciliar de forma que não atrapalhe nenhuma área importante da minha vida. Se conseguir conciliar, com certeza faço, porque sou muito feliz fazendo novela também.
Você iniciou sua carreira como atriz na TV em “Malhação”. Você acha que o programa faz falta para formação de novos atores na teledramaturgia?
Era um programa muito querido, e tinha uma grande identificação dos jovens também. Sinto falta. Não sei se é porque eu cresci com ele na grade, mas quando saiu, parece que falta alguma coisa. Era bem inteligente por parte da Globo testar os atores ali primeiro antes de ir para as novelas. O clima da gravação, mesmo que você abordasse assuntos muito pesados, como era exibido à tarde, tinha que ser tratado de uma forma leve. A complexidade era um pouco mais estreita, mas era tranquilo para o ator conseguir elaborar a sua personagem, o que sua personagem ia sentir naqueles momentos. Era ótimo lugar para testar não só o ator em si, mas também para ele mesmo se acostumar com os ritmos de gravação. Para mim foi uma escola.
Créditos: Bruno Nunes (texto) e divulgação (imagem)





