‘A TV demorou a se interessar por mim’

julho 25, 2025

Eliane Giardin celebra a parceria com Marcos Caruso no teatro, opina sobre revisionismo e cancelamento e credita a Glória Perez a descoberta da sua veia cômica

Eliane Giardini sabe medir temperaturas. E com ela não tem essa de fogo brando – não em se tratando da atriz exuberante que ela é. A temperatura é apenas uma dentre as muitas medidas às quais a atriz recorre a cada novo personagem. E a lista inclui tipos memoráveis, inicialmente elencados no teatro, seu berço e habitat natural. A chegada à TV foi tardia e, ali, os conselhos ouvidos de Eva Wilma (1933-2021) foram preciosos para ela aguentar o rojão. E ela fez (e faz) bonito como,naquele veículo, descobriu a veia cômica que ela “nem sabia que tinha”. E o mérito é de Glória Perez.  “A Glória sempre trabalhou numa zona visionária”, aponta Eliane nesta entrevista ao NEW MAG. Na conversa, por telefone, ela celebra a parceria com Marcos Caruso, ao lado de quem brilha em “Intimidade indecente”, peça de Leilah Assumpção que volta a São Paulo para suas derradeiras apresentações. A atriz também aplaude que comediantes reavaliem a finalidade do humor, celebra a abertura do teatro ao revisionismo histórico e revela o desejo de atuar numa montagem de “Hamlet”. “Amo cada fala desse texto”, incensa ela. Talento e vocação para tanto ela tem de sobra.

Sua personagem e a do Caruso envelhecem sem uso de maquiagem e acessórios. As mudanças são  na voz e nos corpos. O que foi mais difícil nesse processo para você?

Tivemos a ajuda preciosa do Toni Rodrigues, que tem uma experiência grande na dança. Na medida em que envelhecemos, nossa energia míngua, a voz vai ficando mais baixa, o corpo perde o tônus… Então, mais do que trabalhar com estereótipos, trabalhamos com a energia. E claro que usamos também das nossas referências, das pessoas mais velhas que temos na família. Acho que a minha personagem acaba parecida com a minha avó. Já o Caruso, com o pai dele. Misturamos referências ao uso consciente do corpo num processo que foi muito orgânico e, por isso, verdadeiro.

Caruso me disse que trabalhar contigo é uma grande diversão. O que você diria sobre a parceria com ele?

É um encontro entre irmãos.A definição é um clichê, mas é a pura verdade. A nossa afinidade é muito grande. A honestidade dele me emociona. Ele é tranquilo de lidar, um brother mesmo. Ele não é defendido, sabe? É alguém com quem sei que posso contar, sem falar no ator espetacular que ele é. Quando contracenamos, às vezes fico observando ele e aprendo algo novo sempre.

Você e Eva Wilma fizeram uma dobradinha memorável em Querida Mamãe. O que um colega precisa ter para o jogo teatral se estabelecer?

Sou fascinada por atores com inteligência cênica. Quem tem isso, já tem mais do que meio caminho andado. E prezo pelo respeito pelo outro e espero o mesmo em relação a mim. No teatro nunca trabalhei com quem não quisesse. O teatro te dá essa autonomia, ao contrário da TV,que tem toda uma indústria por trás. No teatro, em relação às parcerias, vou por esses caminhos: o do talento e o da inteligência cênica.

E como se deu a aproximação entre vocês?

Havia assistido em São Paulo a “De braços abertos” (com Irene Ravache e Juca de Oliveira) e fiquei louca pelo texto, da Maria Adelaide Amaral. Tomei coragem e telefonei para ela dizendo que gostaria de trabalhar com algo dela. Ela me disse que tinha entregue um texto a Eva Wilma para o qual seria necessária outra atriz. Logo depois, Eva, me procurou, e nos aproximamos.

E qual a lembrança mais marcante você guarda dela?

A generosidade. Entrei tardiamente na TV. E quando começamos os ensaios,  estávamos fazendo novela. Ensaiávamos na Casa da Gávea quando não gravávamos e, nas nossas conversas, ela me dava dicas de como lidar com a TV.E ela sabia tudo. Como a dinâmica é outra, ela me ajudou a encontrar no texto aquela palavra-chave que me levaria à emoção, e isso foi precioso. O convívio com a Eva foi um intensivão.

Você trilhou uma estrada no teatro e só foi à TV em fins dos anos 1980. Por que demorou a se interessar pela TV?

A TV é que demorou a se interessar por mim (risos). Vínhamos do teatro, Paulo (Betti,com quem Eliane foi casada) e eu, e calhou de ele ser convidado. Ele virou galã e trilhou ali um caminho. E, assim,seguimos. Tínhamos uma convivência equilibrada em relação às nossas ambições.

A demora desse reconhecimento chegou a te angustiar?

Alguns momentos foram difíceis. E foi bom por me levar à terapia e à busca pelo autoconhecimento. Acabei colhendo outros frutos em razão do que não acontecia, e isso foi rico para mim.

Você é uma atriz que nunca se repete. A construção de uma personagem é mais racional, emocional ou intuitiva?

Meu processo é todo racional, em nada intuitiva. Uma coisa que busco são as temperaturas da personagem e, sob este aspecto, o cinema é muito importante para mim. Minhas referências estão todas ali. Um personagem precisa ser vestido pelo ator, e esse processo também ocorre de fora para dentro. O dentro às vezes vem depois. Um penteado, um figurino são ferramentas importantes.

Você atuou em quatro novelas da Glória.  O que ela traz de especial como autora?

A Glória sempre trabalhou numa zona visionária. Ela sempre soube dosar tradição e coisas novas. Em “Explode coração”, trouxe a questão dos encontros virtuais. Em “O Clone”, os dilemas éticos eram discutidos sob os pontos de vista de um cientista e de um mestre muçulmano. A imaginação para ela não tem limites. Ela sabe que pode ousar e isso para ela ainda é pouco. Ela me mostrou ainda uma veia cômica que eu nem sabia que tinha. Trabalhamos muitas vezes e torço para que voltemos a trabalhar juntas.

O teatro abre, hoje espaço ao revisionismo histórico em espetáculos como Macacos. Como vê esse avanço?

Vejo com muito bom olhos. Tudo é pendular na vida, e o momento é de reeducação, de reparação, de reavaliar preconceitos e equívocos, os males que fizemos sem pensar e saber. E essa tomada de consciência é necessária. Ah,a metodologia está didática demais? Está, mas é necessário que esteja. É como o que ocorreu com o feminismo. As ideias já foram radicais e abrandaram com o tempo. Atravessamos um momento em que a escuta do outro é muito importante.

Uma fala sua que viralizou trata das transformações no humor. O pedido de prisão de um comediante faz-se necessário ou é um exagero?

Difícil opinar sobre isso (e fica em silêncio). As pessoas atravessam muito os limites, e o mundo mudou. A pessoa fala o que quiser e fica por isso mesmo? Em que mundo ela vive? Os exageros precisam ser repensados, sob todos os aspectos. As falas precisam de coerência.

Irene Ravache me disse que nunca interpretou um homem. Qual desafio gostaria de viver no teatro e que ainda não foi possível?

Qualquer  peça nova é um desafio… Talvez seja o de atuar numa montagem de “Hamlet” (de Shakespeare). Amo cada fala desse texto! E é um texto difícil, escrito em versos, não é uma coisa assim que você vai e adapta. Tudo ali é elaborado,e a trama se desenvolve como num jogo de xadrez. Sem falar do arquétipo que Hamlet representa. Hamlet e Édipo são arquétipos interessantes, um o oposto do outro.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e Nana Moraes (foto)

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