por Rodrigo Fonseca*
Na próxima sexta-feira (22) é o aniversário de 50 anos de Rodrigo Santoro. Graças à admiração do Festival de Gramado pelo ator, o presente chegou antes, na forma do Kikito, deus-sol da alegria na mitologia gaúcha e signo do evento. O troféu, para concorrentes, é dourado. O de Santoro é diferente. É de Cristal. É um signo de uma honraria que a maratona serrana criou em 2007, a fim de celebrar talentos latinos que brilham para além do continente.
— Minha relação com minha fragilidade é grande. Não me seguro e me emociono. O ego diz que eu devo me controlar. Mas como não sou feito só do meu ego, não quero me controlar. A importância de um homem ter contato com a sua fragilidade é grande — diz Santoro ao NEW MAG, num papo na fábrica Cristais de Gramado, onde seu prêmio honorário foi construído.
Na última sexta-feira (15), a abertura da 53ª edição do festival transcorreu com a homenagem a ele e uma projeção de um de seus trabalhos mais recentes, “O último azul”, que estreia no dia 28. Seu papel dá uma guinada afetiva à trama que rendeu ao diretor pernambucano Gabriel Mascaro o Grande Prêmio do Júri da 75ª Berlinale, na Alemanha, em fevereiro.
— Queria trabalhar com o Gabriel há muito tempo e a gente já havia se procurado para filmar antes, mas não aconteceu. Um dia, estive no Recife, liguei para ele, fomos jantar e acabamos num bloco de carnaval, em Olinda. Uma hora ele me apareceu com esse roteiro, dizendo que tinha escrito um papel para mim. Eu não tenho predileções para o que fazer. Prefiro apenas, sempre, fazer algo que nunca fiz. E ele me deu a chance de poder filmar na Amazônia e aprender o tempo dela — afirma o astro, nascido em Petrópolis (RJ), o que lhe deixa em casa no Sul — Gramado me lembra a minha cidade, pelo frio, pelo foundue.
Alçado à categoria de intérprete de prestígio (por sua disposição para o risco) com “Bicho de sete cabeças”, 25 anos atrás, Santoro trabalhou em filmes cercados de culto, como “Carandiru” (2003) e “Heleno” (2012). Há 22 anos, depois de atuar na produção “Em Roma na primavera”, ele abriu um veio de trabalho lá fora, em Hollywood, que lhe deu a coroa do persa Xerxes, em “300” (2007). Atuou ainda em produções da Argentina (“Leonera”) e de Cuba (“Um Tradutor”) nas quais atuou, sem contar séries de alta audiência, como “Lost” e “Westworld”.
— Quando fui fazer “Che”, do Steven Soderbergh, em que fiz Raúl Castro (irmão de Fidel), eu só arranhava um portunhol, mas disse que falava espanhol, pois não queria perder o papel, nem a chance de rodar com o Benicio Del Toro, um ator que era tudo que eu queria ser — recorda Santoro.
Seu panteão de parcerias inclui cineastas do naipe autoral de Laís Bodanzky, Luiz Fernando Carvalho, Roland Joffé, Philip Kaufman, David Mamet, Patricia Riggen, Walter Lima Jr., Hector Babenco (1946-2016), Daniel Filho, Carlos Saldanha, Marão, Fernando Meirelles… A lista é longa e traz experiência recorrente com Daniel Rezende, o montador indicado ao Oscar por “Cidade de Deus” (2002), que o dirigiu em “Turma da Mônica – Laços” (2019). Os dois têm um longa-metragem inédito para estrear até o fim do ano, via Netflix: “O filho de mil homens”, baseado na prosa de Walter Hugo Mãe.
— Desde o momento que li o Walter Hugo, fui seduzido pela história — comenta o ator, numa antecipação do que promete ser um de seus maiores sucessos.
Estima-se êxito popular também de “O último azul”, que foi exibido em projeção hors-concours, como atração de abre-alas da maratona cinéfila mais popular deste país, que engata, a partir deste sábado, a seleção competitiva de sua 53ª edição.
— Estive em Gramado antes, como plateia, e vim em 2014, para uma outra homenagem. A diferença desta vez é ver a sala cheia, com calor e presença — relembra o ator.
Com o mesmo diapasão sensorial que rodou “Boi neon” (2015) e “Divino amor” (2019), Mascaro fez Santoro se embrenhar pela Amazônia em “O último azul”, que saiu da Berlinale com a láurea do Júri Ecumênico de Berlim e o Prêmio dos Leitores do Berliner Morgenpost. Sua protagonista é Tereza (Denise Weinberg, em atuação estonteante), funcionária septuagenária de um curtume de jacarés, em terreno amazônico, que se vê forçada a migrar para uma espécie de campo de concentração para cabeças grisalhas. A recusa de ser isolada num retiro obrigatório, imposto pelo governo a quem tem 70+, faz com que ela engate numa jornada rio acima.
— A idade não define uma pessoa — destaca Santoro.
Tereza (papel de Denise) conta com a ajuda de um barqueiro de coração quebrado, Edu (Santoro), para cruzar a geografia fluvial amazonense, ouvindo dele segredos sobre o caracol da baba azul, um visco que abre portas da percepção.
— Esse personagem é frágil, mas, ao mesmo tempo, é forte, em sua solidão — declara o artista, que completa: — O estado de solidão é inerente à gente. Na solidão é que a gente se conhece.
O Festival de Gramado segue até o dia 23.
*enviado especial ao Festival de Gramado.
Crédito da imagem: Rodrigo Fonseca





