“A letra dos livros voa”. Assim reza a letra de “Falou amizade”, canção de Caetano Veloso. Para Flávia Souza Lima, a imagem não está restrita à mera figura de linguagem. Para ela, cuja fala é uma das mais autênticas dentre os nomes da nova cena poética no Rio de Janeiro, os versos podem adquirir outras dimensões, espaciais ou corpóreas, além dos livros.
E uma prova disso está em novo empreendimento da sempre irrequieta artista. “Livro-além” é uma linha de objetos que reproduzem versos de “Borda – Mais alguma poesia” (Numa Editora), coletânea lançada por ela em 2025. O verso “Leve de mim o que for leve” pode ser lido numa ecobag. Já “amarémaré” está bordado na fronte de um boné, mui apropriado para um dia de praia ou mesmo para proteger do sol, mais inclemente a cada verão.
— “A letra dos livros voa”, tento aprender todos os dias com Caetano. “Livro-além” nasce da e sobretudo para a possibilidade de reverberação da palavra poética. Do desejo de esticar um pouquinho a duração do verso – explica Flávia, que lança a coleção nesta quarta (21) no Avoar Atelier, no Jardim Botânico.
Reverberar é um verbo que define bem a poeta. É assim com tudo o que ela abraça ou realiza. Flávia divide com Kati Almeida Braga a curadoria do “Terças no Ipanema”, série de shows que devolveu ao antigo Teatro Ipanema (hoje Rubens Corrêa) programação de shows que marcou aquele espaço no início dos anos 1980.
Foi assim também com o “Poemúsica”, que levava à Blooks uma vez por mês encontros que juntavam um compositor e um poeta/letrista, não necessariamente parceiros. E, ali também, a letra dos livros (ou das canções) voava. Alçar voos é uma característica da poeta, uma aquariana atípica que, pé no chão, põe em prática aquilo com que sonha:
— Quero desprender a palavra do livro. Desconfinar a poesia do limite da página. Devolver à vida, agora de forma táctil, o que dela foi recebido, que é o espanto, a inspiração, a provocação, a matéria de poesia.
E, no caso da coleção, a matéria de poesia vai além dos acessórios. E pode ser também decorativa. Versos como “Miragem não foi” ou o supracitado “leve de mim o que for leve” estão também em placas ou louças em cerâmica. Os objetos são inanimados, mas não exatamente estáticos.
— São objetos que provocam alguma reflexão também. Para ir além da borda: transbordar. Poesia é sobre isso. Amaciar a vida – arremata.
E, em se tratando de Flávia Souza Lima, essa reflexão é reveladora.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto), Cris Lopes (imagem alto) e divulgação (imagem boné)






