‘A Democracia tem de estar garantida’

outubro 16, 2026

Margareth Menezes fala dos feitos à frente do MinC, do orgulho por trabalhar com Lula, das quatro décadas de carreira que completa em 2027 e do fato de mestres da MPB lotarem estádios

A vida de Margareth Menezes é plena de lutas e também de belas vitórias. Se tivesse abaixado a cabeça aos desmandos machistas, reducionistas e preconceituosos, ela não teria chegado aonde chegou. Como cantora, sacudiu o país quando, em 1987, interpretou “Faraó, divindade do Egito”. E fez, com isso, o samba-reggae ultrapassar divisas e fronteiras. E mais: abriu alas para que Daniela Mercury e Ivete Sangalo também brilhassem no segmento. E mais: ela e Marisa Monte (de quem viria a se tornar parceira) abriram caminhos à legião de cantoras que tomou a cena musical na virada dos anos 1980 para a década seguinte. A vida reservaria à artista outro feito importante. Ela é a terceira mulher a comandar o Ministério da Cultura desde sua criação, em 1985. Com a pasta reduzida à secretaria no governo de Jair Bolsonaro, Margareth reergueu o ministério a partir do que define como “terra arrasada”.  “Conseguimos muito em relação à arquitetura interna do ministério”, pontua ela nesta entrevista ao NEW MAG. A conversa aconteceu de forma presencial e inesperada: minutos antes de ela assistir a um documentário no Festival do Rio. A seguir, Margareth celebra feitos à frente do MinC, fala do seu futuro na pasta numa eventual reeleição de Lula, das expectativas por completar, em 2027, quatro décadas de carreira (“Esse marco pesa, né?”) e celebra o fato de gigantes da MPB reunirem multidões em turnês. “O que a gente vê são artistas com um potencial muito grande”, constata. Potencial do qual Margareth nunca duvidou.

Como estão as expectativas da senhora em relação a uma guinada do presidente Lula no segundo turno das eleições? Acha possível virar esse jogo?

É a luta de todos nós. Não tenho bola de cristal, mas acho que, pelos percentuais, é algo possível, e estamos trabalhando para isso. O presidente Lula representa a continuidade de uma série de políticas públicas. Há de uma parcela da população essa perspectiva por uma novidade, mas uma novidade que pode levar o país para trás? Que novidade é essa?

Fatores externos, muitos deles ligados à geopolítica, colaboraram para que o crescimento no país fosse menor que o esperado. Ainda assim é triste ver que uma parcela da população opta pelo retrocesso…

O projeto dele (do candidato Flávio Bolsonaro) de governo é muito ruim. Os dados relacionados ao governo Lula são positivos. É claro que há pontos que precisam melhorar, e estamos lutando para isso. Há muita entrega da equipe que cerca o presidente. Será uma pena se o Brasil optar por perder todo um futuro que o país tem pela frente, com parceiros importantes como o Mercosul, a União Europeia e com a Ásia se abrindo para o Brasil.

Foi hercúleo o trabalho para devolver ao MinC a autonomia perdida no governo anterior…

O que encontramos no ministério foi uma terra arrasada. Foi o que nós pegamos quando assumi a pasta. Faço votos para que todo mundo se una para virar esse jogo. Não é uma coisa impossível. Não reeleger o presidente Lula será optar por um futuro que nos levará para trás. A democracia tem de estar garantida.

A senhora continuará à frente da pasta?

Aí eu não sei. No atual momento o foco está em reelegermos o presidente.

Há o desejo de permanecer ou a senhora pretende retomar a carreira artística?

É o presidente quem decide.

Em 2027 completam-se 40 anos desde o lançamento do primeiro compacto lançado pela senhora. Há planos de celebrar essas quatro décadas de carreira?

Com certeza. Esse marco temporal é algo que pesa bastante na minha vida, né?

Estamos vendo baluartes da MPB saindo em grandes turnês como a que reuniu recentemente Caetano Veloso e Maria Bethânia e como a que levará Ney Matogrosso a viajar o país em 2027. Esse formato interessa à senhora?

Tudo interessa. Cultura é uma coisa viva. O que a gente vê no país são artistas com um potencial muito grande, não somente os grandes artistas como os médios e os pequenos. A gente tem uma cadeia imensa de gente trabalhando pela Cultura, não somente na música, mas nos teatros, nas artes visuais, e o Brasil é uma potência nisso.

Uma das bandeiras levantadas pelo MinC desde a gestão do Gil, no primeiro mandato do Lula, é a de diversificar o olhar, abarcando também os artistas que atuam nos rincões do país…

É importante atentar para os circuitos de cidade pequenas, para os artistas que cantam na noite. Há uma cadeia imensa de pessoas trabalhando nos setores cultural e artístico brasileiros. E a gente vem trabalhando também muito dentro do ministério para chegar cada vez mais profundamente nesses lugares.

Qual o maior desafio enfrentado na pasta?

O começo mesmo, o trabalho que foi reconstruir o Ministério da Cultura. Hoje, o quadro é outro. Conseguimos muito em relação à arquitetura interna do ministério, como colocar representações da pasta em todos os estados. Há hoje uma política que irriga 90% das cidades brasileiras. Estamos trazendo agora um decreto de incentivo à economia criativa. Acho que a nossa principal característica foi a de trabalhar a cultura nos territórios e, com isso, chegar à capilaridade das cidades e dos estados.

E qual o maior orgulho, ministra?

Meu maior orgulho é o de trabalhar com o presidente Lula.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e José de Holanda (imagem)

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