O Brasil é um país profícuo em grandes cantrizes. Bibi Ferreira (1922-2019) e Marília Pêra (1943-2015) foram mais que pioneiras: molas propulsoras para consolidar os musicais no país. E, a partir disso, o gênero nos deu cantrizes de excelência como Totia Meireles, Claudia Netto e Alessandra Maestrini. Uma cantriz revelada em 2013 tem um raro dom. Ela não somente é capaz de emocionar o público – no perfeito equilíbrio entre canto, interpretação e composição corporal – como é capaz de provocar aquele arrebatamento que raros artistas têm. A cantriz em questão é Laila Garin. E ela mostra, mais uma vez, seu poder de fogo ao personificar o papel-título de “Piaf – Não me arrependo”, em cartaz no Teatro Riachuelo, Centro do Rio de Janeiro.
Laila foi alçada ao estrelado em “Elis, a musical”, em que personificou com maestria aquela que foi uma das mais importantes cantoras brasileiras. Seu desafio agora é o de dar vida à grande dama da canção francesa: Edith Piaf (1915-1963). E pelas ovações ao fim do primeiro e do segundo atos, encerrados, respectivamente, com “Hymne à l’amour” e por “Non, je ne regrette rien”, o resultado é o da perfeição.
Idealizado e dirigido por Sérgio Módena, o musical elenca momentos-chave da vida de Piaf numa dramaturgia muito bem costurada por Newton Moreno (de “As centenárias”) e Alessandro Toller. Piaf (Laila) surge inicialmente como narradora da própria história e vai, aos poucos, inserindo-se na narrativa a partir do momento em que, cantando nas ruas para sobreviver, é descoberta por Loius Leplée (Bernardo Berro). No cabaré do empresário, começa a escalada que a levaria a ser uma das artistas mais importantes da Europa do pós-Guerra.

A vida de Piaf não foi moleza. O mito consolidou-se em meio aos destroços provocados por perdas devastadoras, como a da filha recém-nascida e daquele que foi seu grande amor – o pugilista Marcel Cerdan (Patrick Amstalden), e por seu envelhecimento precoce provocado pelo vício em morfina, usada para aplacar suas fortes dores, sequelas de um acidente de automóvel em virtude de seu então motorista – o futuro cantor Charles Aznavour – ter atendido ao pedido para dirigir em alta velocidade.
As lutas e os lutos da estrela estão ali. E a pessoa humana também. “Há mulheres que geram filhos. Eu gerei cantores”, constata Piaf (Laila) ao referir-se a outro astro da música por ela treinado: Jacques Brell, com quem também teve um affair. E o texto usa de licenças para mostrar o lado humano da estrela. “La vie en rose” é a trilha para a cena em que Piaf vai cantar para os franceses presos na Alemanha durante a II Guerra.

“O teatro e as baratas não vão acabar nunca”. A frase é proferida por Piaf em dois momentos do espetáculo. O primeiro deles é diante do espanto pela escalada nazista pela Europa. E o segundo é quando a cantora, já com a saúde debilitada, canta para tirar o Olympia da bancarrota. A 10 dias do segundo turno das eleições, os dois momentos foram fortemente aplaudidos, da mesma forma em que, nos agradecimentos, ao saudar o Ministério da Cultura e a Lei Rouanet, uma Laila já despida da personagem ponderou: “Que a gente continue a ter o Ministério da Cultura”.
Como reza aquela canção de Alceu Valença, “tomara, meu Deus, tomara”. E que bom que temos um musical do porte de “Piaf – não me arrependo” em cartaz no Rio de Janeiro. Que bom que temos uma superprodução, cuidadosamente preparada pela Aventura e muito bem dirigida por Módena e por Claudia Elizeu, diretora musical do espetáculo.
Sim, o Brasil é um país profícuo em grandes cantrizes. E Laila Garin figura e fulgura entre as mais preparadas delas. Uma discípula que não deve em nada àquelas que a precederam. O teatro não vai acabar. E, com Piaf, Laila consolida-se no panteão onde reinam Bibi Ferreira e Marília Pêra.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e Caio Gallucci (imagens)





















