‘Algumas obras não envelhecem’

outubro 8, 2026

Céu tem o pioneirismo do seu álbum de estreia, lançado em 2005, celebrado em livro pela jornalista Fabiane Pereira

A imprensa, sempre apressada, tachou como “ecléticas” as vozes femininas que ganharam a cena musical brasileira lá no início dos anos 1990. Esta mesma imprensa não suspeitava da sinuca na qual se meteria 15 anos mais tarde. Naquele 2005, uma jovem cantora – de fato eclética – surgiria. A voz em questão era a de Céu, uma menina vanguardista – e bonita (ai!) – de timbre personalíssimo que, já no seu álbum de estreia, deixava claro que poderia cantar o que quisesse.

Este álbum tão singular é agora avaliado em livro – e por alguém que o conhece bem. “Céu” foi escrito pela jornalista e radialista Fabiane Pereira para a coleção “O livro do Disco”, da editora Cobogó, de Isabel Diegues. O lançamento acontece na próxima terça (13), no Manouche, o clube da Casa Camolese, em cujo palco a autora receberá Céu para bate-papo com a participação do pesquisador e professor Fred Coelho.

— “Céu” parece ter nascido com uma naturalidade impressionante, mas havia ali uma rede muito rica de músicos, produtores, amizades e referências – pontua Fabiane destacando o quão vasta era aquela sonoridade: — O disco misturava samba, dub, reggae, jazz, soul, hip-hop e música eletrônica sem parecer um mosaico forçado. Ele antecipou uma forma de fazer música brasileira que hoje nos parece muito familiar, mas que, no início dos anos 2000, não era.

Fabiane dava seus primeiros passos no jornalismo musical naquele 2005. O arrojamento do álbum chamou sua atenção de cara, e esta percepção foi corroborada quando ela, imbuída da missão de escrever sobre ele, voltou a ouvi-lo 20 anos depois. E este reencontro fez mais do que reiterar antigas percepções…

— Muitas coisas me surpreenderam. Perceber a quantidade de encontros, experimentações e escolhas que existiam antes de um disco chegar ao público foi importante. Até mesmo eu que já trabalho com isso há tanto tempo, não tinha tanta noção… principalmente quando os discos ainda eram produzidos sem pressa – avalia a jornalista apontando ainda para o caráter cosmopolita do CD: — Também me chamou atenção como um álbum de estreia, feito de maneira independente e profundamente ligado à efervescência cultural da São Paulo dos anos 2000, alcançou uma dimensão internacional tão grande.

Revisitar o álbum representou também uma experiência proustiana para a jornalista que, dentre tantos afazeres, brilha como comentarista na bancada do “Sem censura”, comandado por Cissa Guimarães na TV Brasil:

— Voltar a escutar esse disco com tempo, atenção e curiosidade também foi prazeroso demais porque eu o ouvi com outra escuta. Uma escuta madura, de uma profissional com 20 anos e poucos de carreira. Então, de certa forma, revisitar “Céu” também foi me reencontrar com a mulher que eu era aos vinte e poucos anos, quando ouvi o álbum pela primeira vez e começava a construir minha trajetória no jornalismo musical.

A experiência de voltar a ouvir – e a se debruçar – sobre um projeto tão potente foi válida para a autora, que abordara os estilos musicais daquele início do milênio em “Som e pausa” (Guarda-chuva, 2015), inventário afetivo de artistas e de agitadores culturais estabelecidos ou em efervescência. O novo livro corrobora o viés analítico que Fabiane dá às suas falas e que fez questão de trazer também para mais esta obra.

— Foi muito bonito transformar uma memória afetiva em pesquisa, reportagem e reflexão. Percebi que, vinte anos depois, o disco continua fresco, inquieto e cheio de caminhos possíveis. E isso confirma uma intuição antiga: algumas obras não envelhecem, elas crescem junto com a gente – arremata.

E Céu faz jus àquele anseio externado por Drummond: ela não é só moderna, mas eterna.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto) e divulgação (imagens)

Fabiane Pereira e Céu em encontro recente

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