‘Quem define eleição é a classe média’

outubro 3, 2026

Roberto Birindelli brilha no teatro e fala sobre tolerância e polarização, os desafios no cinema e relembra a química com Alexandre Nero na TV

À primeira vista, é difícil acreditar que Roberto Birindelli seja feito da mesma matéria que o restante dos mortais. São 63 filmes, trabalhos na televisão, projetos internacionais e um espetáculo que o acompanha há 33 anos. “Il Primo Miracolo”, texto de Dario Fo (1926-2016) apresentado originalmente como trabalho de conclusão do curso de Artes Cênicas, percorreu nove países e quase 200 cidades. E cumpre agora temporada no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, com direção de Maíra De Grandi, que também assina a adaptação ao lado do ator. Sozinho em cena, o uruguaio radicado no Brasil dá vida a 22 personagens e revisita questões como intolerância e segregação. Fora do palco, acumula histórias que parecem desafiar a própria ficção: de uma cachaça com Alexandre Nero nos bastidores de “Império” à preparação para interpretar Paul Gauguin  (1848–1903)  em plena pandemia. Passando pela aventura de montar cavalos puro-sangue ingleses de mais de dois metros nas filmagens de “Aba larga”. Nesta entrevista ao NEW MAG, Roberto fala dos próximos lançamentos, das experiências que marcaram sua carreira, da sua relação com o tempo e as próprias escolhas e, com a licença de Eduardo Galeano, das veias abertas da América Latina. 

“Il Primo Miracolo” completa 33 anos. Como é revisitar um espetáculo que atravessou tantos momentos da sua vida?

Você fazer um espetáculo ao longo de três décadas não é mais fazer uma peça de teatro. É dialogar com você, com o seu tempo, com os seus tempos. Mudamos mais da metade do texto porque o original é de 1972 e falava de um mundo que não existe mais. Algumas coisas se mantêm. Segregação e intolerância, infelizmente, vão existir sempre. Dario Fo usa a Sagrada Família para criar uma distância que nos permita olhar como ainda somos intolerantes. Se eu disser que você é intolerante, você se fecha. Mas, se der uma roupagem bíblica à história, você pode se reconhecer naquilo. É a estratégia da metáfora. E falar de segregação no Piauí ou em Estocolmo é falar de coisas completamente diferentes. Você precisa adaptar a peça à realidade local. Nesta versão, a Maíra De Grandi, minha amiga há 25 anos, me provocou: “Roberto, vamos mudar tudo?”. Eu disse: “Vamos”. É a versão mais política dos 33 anos. Quem assistiu à peça há 25 anos não vai reconhecer. É outra peça.

Você já realizou 63 filmes e tem vários lançamentos previstos. O que pode adiantar sobre os próximos passos?

Acho que nos próximos 12 meses tem quatro ou cinco longas que fiz que devem ser lançados. Acabei de interpretar o técnico do Vasco em “Racismo e Camisas Negras”. Também fiz “Aba larga”, sobre uma polícia montada de Santa Maria que copiou a canadense, inclusive a indumentária. Os cavalos eram puro-sangue inglês, enormes e muito ariscos. Eu monto desde moleque, mas em cavalo crioulo. Quando chegamos, dois cavalos já tinham derrubado seus cavaleiros. Foi uma aventura. E tem também uma das produções mais importantes desse período: a adaptação para o cinema de “Diário de um mago”, de Paulo Coelho. Interpreto o mestre que conduz a jornada do protagonista. É uma participação pequena, mas fundamental para a história, porque ele aparece no início e retorna no final, fechando esse percurso de transformação. Reli trechos da obra e enlouqueci. É incrível. Depois de tantos filmes, você também reencontra as equipes. Uma figurinista com quem trabalhei oito vezes já tinha minha roupa pronta com as medidas certas. Cinema é um familhão. 

Na novela “Império”, seu personagem começou com uma participação pequena e logo ganhou espaço ao lado do Comendador. Como nasceu essa parceria com o Alexandre Nero?

No começo, eu só abria e fechava a porta do carro do Comendador (risos). Mas era impossível decorar a quantidade de cenas que o Nero e a Lilia Cabral tinham. Chegou uma hora em que ele falou: “A gente faz uma leitura no camarim e bora gravar. O que vier, veio”. Eu não sabia o que ele ia falar e ele também não sabia. Isso ganhou uma naturalidade incrível. O Aguinaldo Silva adorou e passou a escrever ainda mais. Um dia, depois de uma diária interminável, fomos tomar uma cachacinha na casa do Nero. Sentei na varanda, encostei na parede e acordei com o copo na mão. Olhei para o lado e ele também estava apagado.A gente trabalhava muito, com muita entrega e intensidade. 

Interpretar o pintor Paul Gauguin exigiu uma preparação que atravessou vários países durante a pandemia. Como foi conciliar tudo isso?

Eu já tinha feito dois longas com o diretor Frank Spano. Fiz um teste em francês, porque o filme é em francês e espanhol, mas espanhol do Peru. Gauguin foi para lá com 8 meses e foi alfabetizado em espanhol. Na época, gravava “Nos tempos do imperador” e a segunda temporada da série “Dom”. Fazia coaching de pintura online com uma PhD em Gauguin que morava em Chicago, ensaiava com Frank em Madri e tinha aulas de francês com a Aliança Francesa do Panamá. Depois fui ao Uruguai gravar “Dom” e, depois, ao Panamá gravar Gauguin e voltei ao Rio para continuar a novela. Crianças, não façam isso em casa (risos)!

Em “As vitrines”, de Flávia Castro, você interpreta Dagoberto, um refugiado uruguaio durante o golpe de Pinochet. O que tornou essa experiência tão marcante?

Foi uma das três experiências mais loucas que tive no cinema. Dagoberto era o refugiado mais antigo e cuidava de todos. Propus à Flávia que ele usasse uma única roupa. Passou a ser uma pessoa metafórica, o espírito da resistência. Como atores, somos antenas parabólicas. Um dia, sugeri que Dagoberto buscasse vinho na adega do embaixador para os refugiados. Na madrugada seguinte, Flávia me ligou aos gritos. Tinha conversado com a mãe, que foi uma das refugiadas, e ela lembrava de um uruguaio que sabia abrir a adega do embaixador e roubava vinhos para a turma. Eu gelei. Essa é a antena parabólica que a gente abre para receber. É isso, chamamos Dionísio. Às vezes ele atende. 

Sua trajetória também passa por “Clamor”, produção sobre os desaparecidos nas ditaduras latino-americanas. Como foi reencontrar tantos parceiros nesse projeto?

O filme acompanha a história de dois irmãos que desapareceram e finalmente são encontrados. O produtor é o mesmo de um dos filmes que fiz no Panamá. Trabalhar de novo com a Marjorie Estiano, com o Romulo Estrela… Eu já tinha feito filme com o Romulo, “Império” com a Marjorie. O Caio Manhente, que também está no elenco, foi meu filho em outra novela. É família.

Como um uruguaio que construiu boa parte da carreira no Brasil, quais são, na sua visão, as veias abertas da América Latina hoje? Como enxerga a polarização política na região?

Quem define uma eleição é sempre a classe média, por uma questão matemática. Quando a direita está no poder, essa classe média é esmagada e começa a se identificar com os valores da esquerda. A esquerda sobe ao poder, as classes baixa e média começam a ter uma vida um pouco melhor, e os que estão acima passam a se identificar com a direita. Falta empatia e consciência cívica. Na última eleição do Uruguai, fui à passeata da Frente Ampla. Cheguei à rambla e só vi bandeiras do outro partido. Pensei: “Errei de passeata?”. Uns 500 metros depois começaram as bandeiras da Frente Ampla. As duas passeatas aconteciam na mesma avenida, juntas, com zero conflito. Faça isso na Avenida Paulista e você tem uma chacina. Qual é a diferença? Não é a polaridade, é a consciência cívica.Temos pensamentos diferentes, mas isso não nos dá o direito de destruir o outro.

Depois de tantos personagens, países e experiências, existe alguma coisa que você sente falta? 

Carrego muitas cicatrizes. Se tivesse que começar de novo, faria a grande maioria das coisas, mas não com tanta responsabilidade, nem seria tão corretinho. Teria feito muita coisa errada. Sinto inveja do Pablo Neruda (1904-1973). A última frase dele no paredão é: “Confesso que vivi”. Eu queria ter vivido mais. 

Créditos: Érica Magni (texto e entrevista) e  (imagem)

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