Uma mulher que sente agudo e canta grave. Zélia Duncan é uma artista plena de dons. Um deles é o de se transformar em outras sem, com isso, descaracterizar-se. O outro é o de preservar sua essência desde seu surgimento no mercado, com o LP “Outra luz” (1990), quando assinava ainda Zélia Cristina. Esta fidelidade a si não significa que, ao longo de 36 anos de careira fonográfica, ela tenha se fechado numa bolha e se retroalimentado, pelo contrário. Sem se distrair, ela percebeu novas trilhas e atualizou-se. Uma prova disso ela nos deu na estreia carioca de seu novo show, “Agudo grave”, calcado no álbum homônimo lançado em maio.
A artista levou ao palco do Vivo Rio, na noite da última sexta-feira (25), as 11 faixas do novo projeto, sendo dez delas autorais, nas quais reitera elos com antigos parceiros (Lucina e Zeca Baleiro) e inaugura encontros com outros, como Alberto Continentino, Ná Ozzetti, Lenine e Maria Beraldo, produtora do álbum. Estes dois fizeram participações no show, aberto com a canção que dá nome ao álbum e ao espetáculo.
Àqueles que esperavam que a artista seguisse a ordem do álbum surpreenderam-se. Zélia atacou de “Meu plano” (parceria com Ná Ozzetti) instaurando um “lugar solar” aquecido pelos sopros de Aline Gonçalves (clarinete) e Ciro Belucci (flautas). Zélia lembrou então de sua estreia em Brasília, 45 anos atrás, quando entrou no palco e, tomada pelo susto, correu de volta ao camarim:
— Em maio de 1981 eu tinha 16 anos. O combinado era que os músicos entrariam e eu seria a última. Eles dariam o primeiro acorde e eu cantaria. Entrei e voltei correndo ao camarim, retornando ao palco em seguida. Quero pegar no colo aquela Zelinha e abraçar a que ficou.

E seguiu com “Me revelar” (Zélia e Christiaan Oyens), pinçada do CD “Sortimento” (2001) em arranjo azeitado e incrementado pela flauta de Belucci e pelo piano da multi-instrumentista Amanda Camargo. O repertório de “Agudo grave” voltou com “Pontes no ar”, uma das três parcerias com Alberto Continentino – e a atmosfera Lou Reed do tema cresceu no palco –, seguida pelo samba “Importante”, faixa cuja cadência manteve-se bonita ao vivo.
A provocativa “E aí, IA?”, outra da cepa ZD-Alberto Continentino, instaura o primeiro dos pontos altos da apresentação, que mantém-se aquecida com “Sentidos” (Zélia e Christiaan). O hit do segundo CD da artista é reavivado num clima Beatles corroborada pela flauta de Belucci (olha ela aí de novo) e pela marcação, mais do que acompanhamento, do piano de Camargo e pela bateria de Antonio Loureiro.

A atmosfera 1970 serve bem como contraponto aos questionamentos levantados em “E aí, IA?” e aos de outra música que a precedeu: “Capitu” (Luiz Tati), pescada de “Eu me transformo em outras” (2004), quando a vida começava a mostrar-se mais tecnológica do que analógica. O show acalma-se com a singela “Calmo” (ZD e Zeca Baleiro) seguida por “Voz” (Zélia e Maria Beraldo), outro ponto forte do show, no qual o piano de Amanda Camargo preencheu todo o palco com sua musicalidade.
É chegada a hora de os dois convidados da anfitriã entrarem em cena. O primeiro deles é Maria Beraldo que reaviva com a cantora o dueto em “Matagal”, lançada por ela em “Colinho” (2024). O número prece “Tua boca”, canção de Itamar Assumpção (1949-2003), autor muito presente na discografia de Zélia e também no seu álbum recente. Já Lenine e ZD levam juntos “Maravilha disforme”, instaurando um clima “Bolero de Satã”, que uniu Cauby Peixoto (1931-2016) e Elis Regina (1945-1982) no álbum “Essa mulher” (1979), de Elis. Beraldo volta à cena mais adiante, em “Catedral”, num número sublime pontuado pelo sax tenor da convidada.

Já que falamos de Elis, apontada por Zélia como uma das referências de vozes (assim como Elizeth, Simone e Bethânia) na sua formação, outras belas surpresas do show estão nos tributos prestados a duas damas fundamentais na música: Joni Mitchell e a supracitada Maria Bethânia. A primeira é saudada com “All I want” (que abre o obrigatório “Blue”, lançado pela artista em 1971). O número é emendado em “Enquanto durmo” (Zélia e Christiaan), hit que abriu “Intimidade” (1996), terceiro CD de Zélia.
Já Bethânia é reverenciada após ZD incendiar a plateia com “Pan y leche” (Maurício Pereira), cuja menção ao “nosso presidente” arrancou gritos e aplausos do público a nove dias das eleições. A Abelha Rainha tem a emblemática “Sonho impossível” (versão de Chico Buarque para “The impossible dream”) usada para arrematar o show, que encerra-se de fato com “Que tal o impossível?”, de Itamar Assumpção. No bis, Beraldo e Lenine reencontram Zélia e, juntos, envolvem a plateia nos “Lençóis desse reggae”, mais uma das parecerias com Christiaan Oyens presentes no roteiro.
“O tempo atropela tudo”, nos diz Zélia em seu novo álbum/show. Pode até ser. O fato é que o tempo fez (e faz) bem a Zélia Duncan. E suas cicatrizes todas cantam com ela. O resultado disso é um show pautado por honestidade e apuro. Tudo bem acabado. Tudo bem resolvido, resolvidinho.
Créditos: Christovam de Chevalier (texto), Ricardo Nunes e Cristina Granato (imagens)







