Apuro agudo

setembro 26, 2026

Zélia Duncan aterrissa suave em show calcado em novo álbum e no qual saúda Maria Bethânia e Joni Mitchell e reitera a verve autoral

Uma mulher que sente agudo e canta grave. Zélia Duncan é uma artista plena de dons. Um deles é o de se transformar em outras sem, com isso, descaracterizar-se. O outro é o de preservar sua essência desde seu surgimento no mercado, com o LP “Outra luz” (1990), quando assinava ainda Zélia Cristina. Esta fidelidade a si não significa que, ao longo de 36 anos de careira fonográfica, ela tenha se fechado numa bolha e se retroalimentado, pelo contrário. Sem se distrair, ela percebeu novas trilhas e atualizou-se. Uma prova disso ela nos deu na estreia carioca de seu novo show, “Agudo grave”, calcado no álbum homônimo lançado em maio.

A artista levou ao palco do Vivo Rio, na noite da última sexta-feira (25), as 11 faixas do novo projeto, sendo dez delas autorais, nas quais reitera elos com antigos parceiros  (Lucina e Zeca Baleiro) e inaugura encontros com outros, como Alberto Continentino,  Ná Ozzetti, Lenine e Maria Beraldo, produtora do álbum. Estes dois fizeram participações no show, aberto com a canção que dá nome ao álbum e ao espetáculo.

Àqueles que esperavam que a artista seguisse a ordem do álbum surpreenderam-se. Zélia atacou de “Meu plano” (parceria com Ná Ozzetti) instaurando um “lugar solar” aquecido pelos sopros de Aline Gonçalves (clarinete) e Ciro Belucci (flautas). Zélia lembrou então de sua estreia em Brasília, 45 anos atrás, quando entrou no palco e, tomada pelo susto, correu de volta ao camarim:

— Em maio de 1981 eu tinha 16 anos. O combinado era que os músicos entrariam e eu seria a última. Eles dariam o primeiro acorde e eu cantaria. Entrei e voltei correndo ao camarim, retornando ao palco em seguida. Quero pegar no colo aquela Zelinha e abraçar a que ficou.

Zélia Duncan no show “Agudo grave” (foto Ricardo Nunes)

E seguiu com “Me revelar” (Zélia e Christiaan Oyens), pinçada do CD “Sortimento” (2001) em arranjo azeitado e incrementado pela flauta de Belucci e pelo piano da multi-instrumentista Amanda Camargo. O repertório de “Agudo grave” voltou com “Pontes no ar”, uma das três parcerias com Alberto Continentino – e a atmosfera Lou Reed do tema cresceu no palco –, seguida pelo samba “Importante”, faixa cuja cadência manteve-se bonita ao vivo.

A provocativa “E aí, IA?”, outra da cepa ZD-Alberto Continentino, instaura o primeiro dos pontos altos da apresentação, que mantém-se aquecida com “Sentidos” (Zélia e Christiaan). O hit do segundo CD da artista é reavivado num clima Beatles corroborada pela flauta de Belucci (olha ela aí de novo) e pela marcação, mais do que acompanhamento, do piano de Camargo e pela bateria de Antonio Loureiro.

Maria Beraldo e Zélia Duncan fazem juntas “Catedral”

A atmosfera 1970 serve bem como contraponto aos questionamentos levantados em “E aí, IA?” e aos de outra música que a precedeu: “Capitu” (Luiz Tati), pescada de “Eu me transformo em outras” (2004), quando a vida começava a mostrar-se mais tecnológica do que analógica. O show acalma-se com a singela “Calmo” (ZD e Zeca Baleiro) seguida por “Voz” (Zélia e Maria Beraldo), outro ponto forte do show, no qual o piano de Amanda Camargo preencheu todo o palco com sua musicalidade.

É chegada a hora de os dois convidados da anfitriã entrarem em cena. O primeiro deles é Maria Beraldo que reaviva com a cantora o dueto em “Matagal”, lançada por ela em “Colinho” (2024). O número prece “Tua boca”, canção de Itamar Assumpção (1949-2003), autor muito presente na discografia de Zélia e também no seu álbum recente. Já Lenine e ZD levam juntos “Maravilha disforme”, instaurando um clima “Bolero de Satã”, que uniu Cauby Peixoto (1931-2016) e Elis Regina (1945-1982) no álbum “Essa mulher” (1979), de Elis. Beraldo volta à cena mais adiante, em “Catedral”, num número sublime pontuado pelo sax tenor da convidada.

Maravilha (e nada disforme): Lenine e ZD

Já que falamos de Elis, apontada por Zélia como uma das referências de vozes (assim como Elizeth, Simone e Bethânia) na sua formação, outras belas surpresas do show estão nos tributos prestados a duas damas fundamentais na música: Joni Mitchell e  a supracitada Maria Bethânia. A primeira é saudada com “All I want” (que abre o obrigatório “Blue”, lançado pela artista em 1971). O número é emendado em “Enquanto durmo” (Zélia e Christiaan), hit que abriu “Intimidade” (1996), terceiro CD de Zélia.

Já Bethânia é reverenciada após ZD incendiar a plateia com “Pan y leche” (Maurício Pereira), cuja menção ao “nosso presidente” arrancou gritos e aplausos do público a nove dias das eleições. A Abelha Rainha tem a emblemática “Sonho impossível” (versão de Chico Buarque para “The impossible dream”) usada para arrematar o show, que encerra-se de fato com “Que tal o impossível?”, de Itamar Assumpção. No bis, Beraldo e Lenine reencontram Zélia e, juntos, envolvem a plateia nos “Lençóis desse reggae”, mais uma das parecerias com Christiaan Oyens presentes no roteiro.

“O tempo atropela tudo”, nos diz Zélia em seu novo álbum/show. Pode até ser. O fato é que o tempo fez (e faz) bem a Zélia Duncan. E suas cicatrizes todas cantam com ela. O resultado disso é um show pautado por honestidade e apuro. Tudo bem acabado. Tudo bem resolvido, resolvidinho.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto), Ricardo Nunes e Cristina Granato (imagens)

Zélia e sua banda diante do cenário do show (foto Ricardo Nunes)
Presenças no camarim: Paulinho Moska , Isabella Taviani, Mart’nália e Pedro Luís (foto Cristina Granato)

 

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