“Fui ousada a minha vida inteira’

setembro 25, 2026

Danielle Winits reinventa-se no teatro e fala sobre o início na TV, a perda do pai, a honestidade na criação dos filhos e aplaude penas severas pelo abandono de incapazes

Uma atriz exercendo sua labuta com lábia e labor. Uma mulher consciente de seu lugar – de fala e de folia. Essas impressões são deixadas por Danielle Winits naqueles que a vêem em sua mais recente incursão teatral.  “Choque! Procurando sinais de vida inteligente”, com que a atriz viaja o país, é um divisor de águas na vida da atriz – e sob muitos aspectos. Com o solo, ela realiza o desejo de trabalhar pela primeira vez com Gerald Thomas, encenador com um olhar crítico coerente e lúcido sobre nossas mazelas e idiossincrasias. A parceria rende bons frutos. A produção alcançou seis indicações ao Prêmio Bibi Ferreira, em categorias como Melhor Espetáculo, Direção e Melhor Atriz. Winits concorre na mesma categoria em outra premiação, a Cenym. “Evoluir é o que a gente quer”, pontua a estrela, que poderia deitar nos louros da imagem consagrada na TV e na trajetória muito bem construída nos palcos, onde brilha em comédias e em musicais. Danielle Winits quer mais. E fala ao NEW MAG a seguir sobre autoconhecimento (“Esse processo vem de uma transformação interna”), amadurecimento (“Envelhecer não é uma escolha”), a criação dos filhos (“Nunca escondi deles as violências que sofri”), o início na TV, na série “Sex appeal”, e toca em feridas como a perda precoce do pai, a saudade de Gerson Brenner (1959-2026), e o acidente sofrido quando estrelava “Xanadu”: “Foi traumático apesar de eu não lembrar quase nada dele”. Algumas coisas merecem mesmo cair no esquecimento. Outras não. O fulgor de Danielle Winits é uma delas.

Despudor, entrega e coragem são palavras que definem a atriz que vemos em cena. Você conseguiu alcançar o que pretendia com esse projeto?

Sim, objetivamente sim. Um dos meus propósitos com este projeto era o de voltar a me produzir. O outro era o de poder levar ao palco aquilo que eu gostaria de falar hoje. E o feedback sobre a proposta e sobre o conteúdo é maravilhoso. Esse processo vem também de uma transformação interna e quero levar esse trabalho ao máximo de lugares que puder. O caminho só se faz caminhando.

Em algum momento panicou por estar sozinha em cena?

Não, por incrível que pareça. Estou cercada de muita gente ali. Tenho um exercício interessante que é o de buscar interação com o outro sem quebrar a quarta parede. Então, de certa forma, travo esse embate com o público, o tempo todo, e o que ampara um pouco nisso é o fato de a loucura interna da personagem ser sua mola propulsora. Estou sozinha, mas me sinto acompanhada por muita gente, por mais paradoxal que isso possa parecer.

Gerald é um diretor que lê o comportamento humano com uma inteligência sagaz. E vocês fazem na peça troça de passagens da sua carreira e do fato de você já ter sido símbolo sexual. Como foi essa experiência?

Nossos primeiros encontros foram remotos. E uma coisa que buscava era a oportunidade de estar num outro lugar, diferente de tudo o que já fiz, e o Gerald entendeu isso muito bem e criou todo um contexto em que esse olhar fosse fundamentado. Ele tem uma filosofia que diz que tudo é válido na construção de um caminho, e tem um olhar que consegue ser crítico sem ser pejorativo. Estou gostando de poder me entender neste universo tido mais como geraldiano. É gratificante constatar que posso fazer parte dele também.

Rir de si mesmo é um sinal de amadurecimento?

Sem sombra de dúvida. Envelhecer não é uma escolha, mas amadurecer é. Ali, estou zerada de maquiagem, descalça em cena, sem o salto alto dos musicais. Essa desconstrução está sendo importante para mim. Hoje posso ocupar o lugar que quiser.

Você brilha no seu primeiro solo, Carolina Dieckmann estrela e produziu filme e Camila Pitanga dedica-se a um teatro investigativo… Aquelas meninas da série Sex Appeal amadureceram bem?

Acho que sim. Antes de começarmos a gravar, fizemos um workshop com o Ricardo Waddington. O Ricardo sempre teve um olhar sensível para o trabalho do ator e, naquela ocasião, perguntou qual personagem cada uma de nós queria interpretar, e falei que queria a Vita. Não tinha ali a consciência que tenho hoje, mas já era uma jovem com objetivos claros. A personagem trazia uma ousadia que tinha a ver comigo. E, hoje, vejo que fui ousada a minha vida inteira.

Você sempre se atirou nas coisas com gana, não?

A gente escreve a própria história. As oportunidades pintam, mas temos de criar as nossas. Se não colocar seus anseios para fora vai se frustrar depois. Sempre fui muito do sim. E fui feliz nas minhas escolhas, mas a pergunta que faço é: o que posso me dar? Então, quero surfar em outras ondas. Consegui superar os desafios trazidos pela profissão. Já tive de dançar e cantar sobre patins. Como fazer isso? A base que trago como bailarina me ajudou, mas e nos outros? A figura que pintam da gente está na cabeça dos outros. Então, quero me reinventar, e agora mais do que nunca.

Você e Gerson Brenner fizeram uma dobradinha excelente na novela “De corpo dourado”, e o trabalho acabou interrompido pelo acidente sofrido por ele. Nos intervalos entre as cenas, os atores conversam sobre diferentes temas. Me conta algo que ouviu dele e que te marcou.

A lembrança que guardo é a da satisfação dele pela realização daquele trabalho. Ele já atuava há bastante tempo e não tinha tido ainda oportunidade para mostrar o dinamismo que tinha. Carisma é algo que não se compra nem se aprende; você tem ou não tem. E nós estávamos vivendo um momento parecido. Falávamos das nossas batalhas e sabíamos que aqueles personagens eram um divisor de águas nas nossas carreiras. Estávamos saindo daqueles estereótipos aos quais tínhamos ficado presos, e isso é libertador para um ator.

O acidente sofrido em Xanadu fez você pegar mais leve em relação à entrega aos trabalhos e à vida em si?

O acidente foi bastante traumático apesar de eu não lembrar quase nada dele.

Rolou um apagão da memória?

Não quebrei um dente, fiquei cheia de hematomas, mas não tenho na memória registro sobre o que se passou. Meu filho tinha 4 anos e estava na plateia na ocasião. E esse apagão de certa forma me protegeu. Conversando com especialistas, ouvi que o cérebro tem desses mecanismos, como uma autodefesa. O lado bom é que perdi o medo que tinha das coisas. Perdi meu pai muito cedo e sempre tive medo da morte. O episódio me deu coragem para ir em frente. Tanto que voei de novo em “O Mágico de Oz”. Fazia a Bruxa Má e voava sobre a plateia (risos). O medo poderia ter me paralisado, mas isso não aconteceu.

Você criou seus filhos na raça, como muitas mulheres brasileiras. Como vê o fato de o abandono afetivo ser tratado com mais severidade?

Nunca escondi deles minhas batalhas e as violências que sofri. E nunca deixei faltar nada para eles. Sou esse pilar e acredito que eles vão seguir meu exemplo. Sempre tive na transparência a medida para dialogar com eles. O ato de abandonar implica num abuso psicológico. Imagina como fica a cabeça de quem é abandonado? Esses jovens serão os adultos do futuro. Que pessoas eles conseguirão ser? Abusos psicológicos e patrimoniais são graves. E, nesta trincheira, vou estar sempre à frente. É um serviço que faço.

O fato de ter perdido seu pai muito cedo colaborou para esta tomada de consciência?

Fiquei órfã aos 7 anos. A lembrança do meu pai é muito presente e me acompanha. Ele foi aquilo que se esperava. No meu caso, minha condição foi a da orfandade, o que é diferente do abandono, e não há nada mais cruel do que isso. Uma fatalidade não é uma escolha, mas o que acontece na vida muitas vezes é.  O abandono de um incapaz é estarrecedor e repugnante. O tempo perdido não pode ser recuperado. O buraco que fica não pode ser abafado.

Com que outros diretores teatrais gostaria de trabalhar?

Com o Amir Haddad, com a Bia Lessa, a Yara de Novaes, o Rodrigo Portella, com a Christiane Jatahy… Eles são assinantes das suas obras e produtores de si mesmos, e procuro agora ser assinante da minha obra também. Quero estar nesse lugar onde o ator pode se dissecar enquanto artista. É difícil produzir no Brasil, mas há meios para isso. Consigo fazer teatro na rua, cinema não. Para o teatro uma cadeirinha basta.

E onde há vida inteligente no Brasil de hoje?

No teatro há vida inteligente. E há sinais disso em tantos espetáculos em cartaz atualmente, e é bonito ver os teatros cheios, com o público querendo viver essa experiência. E a gente pode ser transformado por ela. Evoluir é o que a gente quer, e o teatro pode ser um meio para isso.

Créditos: Christovam de Chevalier (texto e entrevista) e Lucas Mennezes (imagem)

 

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